O título acima abarcava, ainda, “coaches, acompanhantes e assemelhados”, mas a bem da concisão dos títulos, enxuguei o palavrório, deixando justamente para tecer considerações sobre esses “assemelhados” para o “raro leitor e a rara leitora” (pedindo licença aqui a um dos meus modelos de produtor de texto, Juca Kfouri, usuário dessa expressão que lhe é cara…) que tiver decidido prosseguir na leitura. Dentre tais assemelhados, justamente, encontrar-se-iam as psicólogas e os psicólogos, ofício e domínio (que luta por ser) científico, e ao qual pertenço, conforme já confessei em outros textos.
A companhia acima me preocupa cada vez mais frequentemente. Em matéria publicada na grande imprensa do último domingo, uma gestora de recursos humanos e autodeclarada “influenciadora”, defende a tese segundo a qual é necessário que o trabalhador, no âmbito de sua organização, desenvolva no seu rol de competências e habilidades a capacidade de ser “puxa-saco” (sic). Para esta influenciadora, tornou-se necessário “mudar o conceito de puxa-saco”, pois você pode ser o “melhor funcionário, mas não vai a lugar nenhum sem o chefe”.
Em outra matéria-depoimento, que percorri igualmente estupefato, e que teve o título autoinformativo de “Namorei um personagem de IA por uma semana e me senti abusado”, o depoente traz detalhes de relação virtual que estabeleceu com personagem ficcional produzido via IA Generativa (Character.AI), relação essa que se teria tornado próxima de um “estupro virtual”. O depoente finaliza comentando que, mesmo sabendo que tudo aquilo poderia ser encerrado com uma ação de comando numa aba da plataforma, a dependência que desenvolveu em relação à personagem ficcional o impediu de tomar essa decisão – mesmo estando sob a assistência de uma psicóloga de carne e osso. Nesse mesmo domínio da invasão dos netos de Hal-9000, o computador vilão de “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, fiquei igualmente sabendo que alguns dos “terapeutas IA” que já estão a todo vapor na web teriam recomendado suicídio a seus “clientes”.
O que está acontecendo?
Num texto primoroso, para fazer face à idiotia dominante (“Aplausos pros desaplaudidos”), Antônio Prata observa o quão deprimente é constatar que “(…) uma enfermeira que trabalha de sol a sol numa UTI, ajudando a salvar vidas e a aliviar a dor de milhares de pessoas, vai se aposentar com uma pensão de fome, enquanto um moleque de 13 anos, que faz vídeos no TikTok exibindo sua habilidade de jogar garrafas pet pro alto fazendo-as girar e cair de pé, tem 11 milhões de seguidores (…)”, e uma carteira de anúncios comerciais que garantirá, dentro de um ano, recursos para viver confortavelmente o resto de sua vida. Como bem observa o mesmo Antônio Prata, vivemos numa sociedade que inverteu o mote “cresça e apareça” para “apareça e cresça”. Apareça, custe o que custar. Mesmo que por razões torpes. Mesmo que por apenas os tais 15 minutos de fama. E nesse mar de lama psicossocial tóxica, os tais personagens do título acima tentam oferecer seus serviços de apoio, ajuda, bem-estar, conquista do status “ok”.
Sou, já há mais de 30 anos, psicólogo e formador de psicólogas e psicólogos, e nessa condição sinto um mal-estar imenso toda vez que fico sabendo de alguma iniciativa abusiva de colega de profissão – mesmo não sendo ex-aluno(a) meu. Naturalmente, não somos o único ofício profissional que sofre o efeito desses tempos nauseantes de hiperfixação no próprio umbigo, desapego a um mínimo de rigor crítico nas crenças e descrenças, analfabetismo e idiotia mesmo com diploma de terceiro grau pendurado na parede. Nessa corriola de influenciadoras e influenciadores de quinta categoria (o que não os impede de ultrapassar o primeiro milhão de seguidores), nós, psicólogas e psicólogos, temos uma responsabilidade aguda.
Umberto Eco, quando ainda vivo, e lá no início dessa revolução contemporânea, diagnosticou que o problema não se limitava ao incremento de uma mediocridade que antes estava circunscrita aos espaços restritos dos bares; o “festival da besteira que assola o país” (apud Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte-Preta, de saudosa memória) não se empoderou pelo aumento do coeficiente de bobagem per capita, mas pelo alcance ampliado dessas vozes mesquinhas – via famigeradas e tão propaladas redes sociais, que catapultaram o besteirol dos tais bares rumo às nuvens web.
Já se sabe, mesmo antes desse tempo das redes sociais destrambelhadas, que “não se deve jogar fora a água do banho com o bebê e tudo”. Não execro e nem abjuro a Psicologia que me formou e que me deu poder social de formador. Ver essa Psicologia se transmutar em ideário de imbecis vorazes de lugar social em condomínios psicossociais restritos muito me entristece e preocupa, mas não é suficiente para me deprimir – para gastar, aqui, um pouco de jargão. Porque a Psicologia é uma das esperanças dela própria, assim como ela pretende oferecer espaço de acolhimento e ajuda para terceiros. Antes de oferecer subsídios para o desenvolvimento de habilidades e competências de puxa-saquismo nas organizações, cabe à Psicologia mediar esforços no sentido de que cada um e cada uma se reconheça em si, através do outro e do coletivo, e na superação da fantasia narcísica infantil de que é preciso agarrar tudo o que se puder agarrar/acumular nessa vida – retomando aqui o mote de outro texto. Cabe à Psicologia assumir seu papel e sua responsabilidade na construção de uma sociedade em que ultrapassemos a sina atávica de sermos lobos de nós mesmos, ou ovelhas, ou abutres devoradores de carniça e de fake news, e consigamos florescer na direção de pessoas honestas: moralmente, emocionalmente, politicamente – enfim, nas diversas facetas da existência cidadã. Salvemos esse bebê.

Psicologia
Acerca dos desafios de uma ciência corporificada e de um ofício compromissado em constituir uma pessoa humana em alma, carne, osso, emoção e entorno.
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