Para quem respeita a vida animal, outubro de 2025 começou mais triste. Além de continuar assistindo à prepotência dos humanos com os companheiros de planeta, primeiro de outubro veio com a notícia da morte da cientista Jane Goodall. Desde os anos 60, até a sua morte, ela estudou e defendeu, em especial, a vida dos chimpanzés. A ideia era que o estudo dos grandes primatas contemporâneos poderia indicar como os primeiros hominídeos (nós) se comportavam. Além de desbravar a ciência, derrubou preconceitos sobre como devemos entender os outros animais e como o trabalho de campo na ciência não é exclusividade masculina.
De forma reiterada em sua história, Goodall reforçou a senciência dos animais, demonstrando que todos nós possuímos emoções, personalidades, inteligência e, no caso dos primatas especificamente, complexos laços sociais e familiares. Desde os primeiros anos, foi confrontada por dar nomes aos seus objetos de estudo, contrariando a lógica científica. Foi sua percepção de que os chimpanzés tinham uma personalidade única que a aproximou cada vez mais não só dos primatas, mas de todos os animais.
A confecção e uso de ferramentas também foram apontadas pela britânica. A observação dos primatas em seu habitat natural mostrou o preparo de galho e folhas para diversas atividades, da caça à proteção do grupo. A partir desse momento, a perspectiva de estudos sobre outros animais mudou e atualmente já é notório que são muitos os que usam ferramentas durante a vida. O impacto dessa “descoberta” foi forte, pois, até então, era esse fato que separava os humanos dos demais. Um banho de água fria antropocentrismo.
Goodall foi vegetariana por 55 anos. Morreu consciente e trabalhando, com proteína e tudo. Defendia a compaixão com todos os animais como essencial para o desenvolvimento moral, tornando-se uma crítica à agricultura industrial e exploração em massa. Tornou-se uma expositora da hipocrisia de quem diz que ama os animais e segue matando indiscriminadamente por capricho cultural. Relatava, inclusive, que lhe pediam para não mencionar essa ideia, para que todos pudessem seguir dormindo tranquilos, sem ter na consciência não só a crueldade com os outros animais, mas os impactos sociais e ambientais dessa escolha pessoal.
De onde eu olho, o trabalho de Jane não nos fez entender melhor os grandes primatas em ambiente selvagem, mas enxergar a humanidade com outros olhos. Nossos hábitos de terceirizar responsabilidades nos colocam à margem da vida. Quantos deuses ainda existirão depois que a humanidade sumir? A mudança de relacionamento do humano com o planeta e com os coabitantes é a chave para a nossa permanência por aqui. Que nossa percepção se amplie e que nossas escolhas melhorem. Quem vai atualizar as estatísticas quando estivermos extintos?
André Furtado é, por origem, jornalista; por prática, comunicador, de várias formas e meios. Na vida, curioso; nos Irmãos Rocha!, guitarrista. No POA Inquieta, articulador do Spin Música.
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Foto da Capa: Documentário "Últimas palavras: Jane Godall", original Netflix.

