Outubro é o mês de conscientização sobre a importância do autoexame e da prevenção ao câncer de mama. Mas não se preocupem, esse não é mais um texto falando da importância da prevenção e do cuidado. Isso já sabemos. Na verdade, é um mês em que esse assunto é mostrado, falado, exaltado, e assim precisa que seja. Não entrarei aqui em dados e estatísticas porque isso é amplamente – e necessariamente – divulgado. Vou entrar em outro tom desse rosa, não tão cor-de-rosa.
A começar pela cor em si, a cor supostamente feminina. Entendo que as cores usadas em campanhas de conscientização de questões de saúde física e mental são recursos importantes, mas venho para refletir sobre esse mundo cor-de-rosa das tais vitoriosas e guerreiras que a mídia exalta e que, por baixo dessa cortina, as coisas mudam de figura.
Só uma mulher que tenha ou esteja passando pelo diagnóstico de um câncer de mama, independentemente de sua gravidade ou estágio, pode dizer o quanto ele é assustador e enigmático. Ainda assim, apenas essa, e cada mulher, poderá saber de seus recursos internos e externos para lidar com esse desafio. Não existem regras, não existem receitas, não existe cartilha nem para “atrair” e nem para “expurgar” esse inimigo que historicamente nem conseguimos falar o nome, como se fosse uma invocação do mal. É uma doença, fruto do nosso tempo, dos nossos hábitos, das nossas genéticas, do nosso mundo capitalista e suas indústrias que intoxicam plantações e alimentos em prol de um lucro individualista e ganancioso. Também, logicamente, fruto de uma sociedade que não lida bem com o adoecer, que não fala sobre suas dores, que procura receitas rápidas de bem-estar e eliminação do sofrimento e da angústia. A equação não poderia dar certo mesmo.
Fato é que a conscientização é necessária. Mas eu proporia uma conscientização diferente. Você que tem alguém próximo passando por isso, já pensou em como está lidando com essa pessoa? Já parou para refletir sobre o que você sente com o fato de alguém próximo estar lidando com um momento desafiador como esse? E, especialmente: o que você faz com o que sente? Joga sua angústia de volta para a pessoa que a fez sentir isso, inundando-a de perguntas e conselhos, em sua maioria que nada servirão a ela, porque a experiência não vem nem mesmo de você, mas de coisas que você ouviu ou construiu em sua cabeça para tolerar a impotência que sentimos quando nos deparamos com o limite e com uma possível perspectiva de finitude?
Porque eu preciso dizer a você, partindo não mais do que da minha experiência como psicóloga hospitalar focada na área de oncologia há uns bons anos, mas também de familiar e amiga que já se viu nesse lugar: se Outubro não é tão rosa assim, a responsabilidade é de como lidamos mal com isso e, sob a justificativa de “querer ajudar”, falamos demais, receitamos demais, sufocamos demais.
Esse texto é para quem não está passando por isso, mas tem por perto alguém que esteja. Pare para prestar atenção em si mesmo. Você está com medo? De quê? Da morte? De você correr o risco de ser a próxima? De perder sua amiga/parente? Esse medo é sobre a pessoa que de fato está vivendo o diagnóstico ou sobre você mesma? E não há nada de errado com isso, que fique claro. Desde que você compreenda isso e separe as coisas. Porque esses medos que citei devem ser elaborados por você, com sorte numa terapia, e não despejados inconscientemente na pessoa que você quer bem e que está passando pela doença e tratamento.
Pergunte o que ela precisa. Tente entender quais são as necessidades dela nesse momento. Tente pensar nela mais do que em você. E, se o que ela precisa for contra o que você entende que seria o mais adequado, respeite. Ouça, consinta. E, mais do que tudo, suporte ouvir os temores, as fantasias mais aparentemente loucas (e que não são!) que passam na cabeça dela. Mas, por favor, se conheça! Se você sabe que não tem condições para essa parte mais densa e difícil do processo, assuma isso para você mesma e deixe (e procure saber quem pode) para outra pessoa, ainda que seja o profissional da Psicologia, já que nossa cultura lida muito mal com isso e são raras as pessoas que suportam ouvir alguém que amam falar sobre medos reais, incertezas reais e fragilidades sem negar ou tentar “dourar a pílula”.
O outubro não é cor-de-rosa, a vida não é cor-de-rosa. Viver é cheio de desafios e surpresas boas, mas também ruins em nosso caminho. O que pode e deve ser multicolorida é nossa capacidade camaleônica de adaptar-nos às adversidades com nossa verdade, com nossas pequenezas, nossas covardias, mas também nosso desejo de viver, que não precisa sempre estar 100% ativo. Viver é um susto atrás do outro. Sejamos bons companheiros de jornada a quem amamos, nas boas e nas más horas, porque, se há alguma certeza nessa vida, é de que, uma hora ou outra, todos precisaremos de cuidado. E eu quero a sorte de alguém que saiba ouvir meus precipícios sem medo de cair comigo.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

