Aquele amiguinho que fora criança junto com a sua e com ela dividia algumas brincadeiras e tarefas na igreja, agora, era um rapaz bonito, para quem sua criança (as mães nunca nos veem como não infantis) soprava a brisa de seus primeiros suspiros; contudo, já na trilha de ser um dos homens como os homens daquele lugar, o ver do moço sobre ela não via a singeleza do bem-querer que se aproximava, o olhar do rapaz para sua criança não olhava o cultivo do afeto; apenas mirava o jeito de comer a sua carne. Sua cria, ainda não enxergando naquele garoto um homem daquele lugar, entristecia a alma e atribuía a si a culpa do pecado do outro.
Vivendo também seu corpo de mulher, tido por eles como pedaço a ser abocanhado, a mãe bem sabia que não era aquela carne o fruto do qual germinava o pecado daqueles homens, mas que suas iniquidades eles já traziam consigo, pelo natural de suas almas.
Até que, num certo entardecer, aquela criatura chega em machucões mal disfarçados, lágrimas mal escondidas: os sapatos rotos e o arquear dos pulmões lhes dizem claramente que ali, na porta da casa, findava uma perigosa evasão corrida. Então, a matriarca cabalmente reconhece que aquele lugar, que vira florescer aquela alma feminina, seria o chão de sua morte.
Assim, é que a mãe, em meio a todo pesar no coração, prepara-lhe um enxoval que sirva em sua caminhada de esperança ao sossego. Munida de uns poucos vestidos, saias, lenços, blusas, um batom e um pó, confiscados das irmãs mais velhas, a genitora a encaminha para longe daquele lugar, que não abraçaria seu feitio, entretanto condenaria seu corpo e mastigaria seu espírito.
Antes, porém, havia investigado qual paradeiro poderia lhe dar. Depois de muito assuntar com amigas próximas, soube que, em um chamado Engenho Girassol, a dona precisava de pessoa para trabalhar na casa, que as moças anteriores deram fuga por conta do muito trabalho, pois, a senhora do lugar era de pouca conversa e muito serviço. Soube que as trabalhadoras tinham canto próprio de dormida: quarto sem janela, mas com cama de colchão e armarinho para roupas.
Decidida, fora, então, ter com a madame. Saíra no alvorecer, chegando à casa-grande quando a senhora, junto com a ajudante que perdurava, ainda estavam nos preparativos do almoço.
Dali, a conversa foi pouca: a dona, logo vendo chegar aquelas duas pessoas no terreiro da cozinha (que é por onde chegam os que se ofertavam às lidas), já entendeu do que se tratava. Particularmente necessitada (neste dia vinha visita ilustre para a refeição), disse, sem demorar o olhar nelas:
– Dou roupa, comida e quarto, dinheiro, só conforme a precisão. É para cozinhar, lavar e trabalhar na casa, não quero visita de homem nem de parente; deixo ir ver a família em feriado santo, mas voltando à noite.
A mãe mal acede com a cabeça e a senhora, apontando com o olhar, encaminha sua mais nova contratação para o talho das peças de músculos e tripas, que a seguir seriam cozidos.
Doeu o coração deixar ali aquela que, dentre as crianças da missa, era a ovelha mais dedicada, a que dos afazeres da casa era, desde pequena, as suas mãos da pia ao roçado, a que era a escuta mais pronta, a lhe acudir da tristeza plantada pelo homem da casa, aquela lindeza mais esmerada no cuidado de si.
Retornada ao seu lugar no cair da noite, tendo passado em casa, depois de suas obrigações para o jantar, a matriarca segue com a prole para a rua da igreja: lá estavam todas as outras. Assim como todas, ela orienta os seus na fazedura da imagem que enfeitará o chão. E, como todos ali, deita seus pedidos junto com o pó-de-serra, cujo colorido desenha um ensanguentado coração coroado de espinhos, que pode ser de Jesus, que pode ser de Maria, mas que é o dela naquela hora. E, tal a fé de todos ali ilustradas, são o chão que se cria para o caminhar do Corpus Christi.
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Foto da Capa: Reprodução de Redes Sociais

