Há dois dias de seu início, a COP-30 – Conferência das Partes sobre Mudança Climática – a ser sediada na nossa Amazônia, em Belém do Pará, vem sendo invisibilizada pelos últimos eventos nefastos da necropolítica à brasileira. É que fica difícil não repercutir a chacina promovida pelo estado do Rio de Janeiro nas comunidades fluminenses da Penha e do Alemão, ocorrida no último 28 de outubro de 2025. Assim mesmo, é necessário que façamos um esforço de somar esta pauta. Este ano, a COP-30 conta também com a Cúpula dos Povos que, em definitivo, mostra a indissociabilidade do pensamento sobre governança climática e movimentos sociais.
Assim como o tema da “guerra às drogas” é sabidamente falacioso, já que não se trata mais do que garantir a mira e o gatilho às pessoas pobres, pretas e periféricas, o discurso sobre transição energética também parece se desgastar detrás de interesses que conciliam demais dois inconciliáveis: ecologia e capitalismo. E aí, novamente, são as comunidades negras e periféricas – bem como as comunidades afastadas dos grandes centros urbanos – que sofrem o racismo ambiental na hora de sofrer as consequências das mudanças climáticas.
Esse foi parte do recado que a entrevistada pelo Ópera Mundi UOL, a coordenadora do Programa de Clima e Energia para a América Latina da Fundação Rosa Luxemburgo, Elisangela Soldatelli, transmite em uma excelente entrevista publicada recentemente. Soldatelli traz uma grande reflexão sobre as poucas mudanças estruturais que as COP vêm trazendo ao longo de suas edições, em que pese a importância política, de pressão e visibilidade, que o evento oportuniza. Um evento que nasce envolto em inúmeras celeumas, desde as controversas e pouco sustentáveis obras, à especulação hoteleira e à lamentável decisão governamental de exploração petrolífera da foz do Amazonas.
Um grave problema de governança climática mundial trazido pela entrevistada é a crescente financeirização e monetização da natureza, por exemplo, com os créditos de carbono que, em vez de questionar os modelos extrativistas e coloniais, barganham sua existência com verdadeiros ativos climáticos. São as licenças para poluir e arrasar comunidades que ainda são os verdadeiros defensores do planeta. Como diz a jornalista Eliane Brum, são os “povos-floresta”.
Apesar disso, a COP-30 não precisa se tornar apenas uma pantomima vazia. A participação social estará mais presente. A novidade destacada por Soldatelli, quer dizer, a Cúpula dos Povos, gera expectativas quanto à busca e sedimentação de políticas públicas que contemplem modo de vida e território no enfrentamento das mudanças climáticas. Tomara!
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Foto da Capa: Porto de Belém / Setur / Governo PA

