Lancei o livro “Coligay, Tricolor e de todas as cores” há pouco mais que 11 anos. Foi ousado? Foi. Alguns marmanjos ainda se envergonhavam de comprar na loja livro tão “suspeito”, tal qual o guri que, ao adquirir absorvente pra mamãe na farmácia, entra em pânico por cogitar que os coleguinhas o flagrem e o chamem de “menina”. Sim, assim era a vida no paleolítico, crianças. Mas nem pensei em ousadia, confesso que sou meio ingênuo pra essas maldades da ignorância e do preconceito. Só quis contar uma baita história e trazer lucidez ao público, em especial o do futebol, tão carente de arejamento.
Quero falar das inúmeras e profundas lições que esse livro me trouxe e continua trazendo. São ensinamentos que vão do simples uso de uma palavra até a delicadeza de mexer com sentimentos e percepções que nem sempre me eram familiares (e depois da elaboração do livro se tornaram).
Esse livro permanentemente, desde que foi lançado, me fala de diversidade.
Agora mesmo, uma nova amostra desse valor aparece. E asseguro: a diversidade se mostra das mais diferentes formas, não apenas por origens étnicas, cores de pele, orientações sexuais e gêneros.
Vou falar da beleza que é o homem e seus dons, suas vocações.
O grande, lúcido e definitivo Baruch Spinoza dizia que uma pessoa não seguir a sua vocação é contrariar os desígnios divinos, porque o dom que trazemos é algo que Deus nos presenteia, algo essencial da nossa natureza (Spinoza veria aqui uma redundância entre “Deus” e “Natureza”, e eu, como seu fidelíssimo seguidor, também vejo assim e acho lindo).
Bendito (Baruch, em hebraico) Spinoza!
Outro dia, a querida historiadora mineira Luíza Aguiar, que escreveu uma tese sobre a Coligay transformada no livro “Plumas, arquibancadas e paetês”, fez um comentário que me alegrou (e eu disse isso pra ela): sem o meu livro, lá de 2014, nada existiria. Nem o livro que ela escreveu, nem a série e o filme romanceados baseados no meu livro, que ano que vem estarão no Canal Brasil e na Globoplay. Por quê? Porque o meu livro é uma reportagem.
Porque eu sou um jornalista. Eu sou um repórter.
E o que faz o repórter? Apura e reporta em textos com estilo fluido e fatos verificáveis (verdades). No meu caso, vocês não imaginam a quantidade de pessoas que vieram me dizer que achavam que a Coligay era lenda criada por colorados pra zoar (sic) do rival. O livro, nitidamente, transformou a Coligay de zoação em algo sério, que orgulha o clube que a acolheu naqueles tempos opressivos de ditadura militar.
E o que faz o historiador? Busca nas mais variadas fontes a história com o seu método acadêmico que coloca os fatos nos seus contextos mais amplos e distantes.
E o que faz o roteirista de filmes e séries? Pega esses fatos da reportagem e transforma numa linda história como a que certamente teremos.
Isso é diversidade no propósito e na linguagem, na essência e na forma. E isso é belíssimo.
Há uns cinco anos, o roteirista Fernando Américo, um baita querido (como todas as outras pessoas envolvidas nesse projeto maravilhoso), leu o meu livro, me telefonou e falou dos seus planos. Tempos depois, assinamos um contrato em que eu me comprometi a resguardar a exclusividade do livro pro trabalho audiovisual (algo de que me ocupei com afinco, sempre explicando a situação a eventuais interessados em explorar o conteúdo que o livro traz), tendo como contrapartida uma remuneração e os devidos créditos na obra em si e na divulgação. Confesso que, por mais expressiva e importante que tenha sido a remuneração (já paga), o maior valor pra mim sempre foram os créditos, que a cláusula 8 do contrato estabelece e prevê com algum rigor na observância.
Por que isso? Porque é a minha garimpagem de repórter que está ali, é uma enorme gratificação ver o texto que escrevi com tanto esmero servir de base informativa pro gênio criador do roteirista romantizar e levar pras telas,
É um prêmio.
É enorme. É emocionante. É lindo.
E cada um tem o seu mérito racionalmente divino, na sua formação, na sua vocação e no seu talento. As criações dialogam e se complementam.
Nenhuma anula a outra, porque se ajudam.
E assim é o ideal humano, diverso, plural e paradoxalmente igual em suas peculiaridades.
Dias atrás, eu me encontrei com o protagonista, o hiperquerido Irandhir Santos, num café do Moinhos de Vento. Nos vimos, nos abraçamos, e ele, um craque na imersão em personagens como será o Ramon (Volmar Santos na vida real), me fez várias perguntas. E eu respondi feliz. E ali creio que surgiu uma amizade. Porque a vida é bela e é simples quando as pessoas têm empatia e boa vontade.
Eu e o Zagallo
A minha conversa foi com o querido Irandhir e também com os não menos queridos Juliano Ferrer (que toca o Departamento Clube de Todos no Grêmio) e a colega Fernanda Canofre, da Folha de S. Paulo (minha antiga casa).
Foram horas de conversa sobre diversos assuntos.
E eu contei de quando ensinei ao Zagallo o que é ser gremista (o Grêmio, além de quinta ou sexta maior torcida do país, foi identificado como o clube brasileiro ao qual o aficionado dedica mais fidelidade em pesquisa de 2022 encomendada pelo jornal O Globo para o instituto Ipec, o antigo Ibope).
Foi assim:
Eu era uma criança, estava no aeroporto Salgado Filho com o meu pai e apareceu a delegação do Flamengo, com os lendários Zico e Fio Maravilha. Peguei meu gibi do Bronco e dei a capa pra eles autografarem.
Aí me chega o técnico Zagallo, a quem décadas depois encontrei profissionalmente em algumas ocasiões, e me pergunta: “Garotinho, qual o seu clube do Rio?”
Senti que o meu pai ficou me observando, sem ter ideia do que eu diria, porque essa questão jamais foi aventada nem de perto lá em casa.
Até senti que os tambores rufavam diante de tamanha expectativa.
E… eu respondi:
– O Grêmio, ora!
Ali, antes de qualquer pesquisa, Zagallo entendeu o que é ser gremista,
Um menininho o ensinou.
E não duvide que, em determinado momento da série, o Ramón/Volmar apareça em algum contexto dizendo que é gremista “onde der e vier”.
…
Shabat shalom!
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Foto da Capa: Acervo do Autor.

