
Quando um projeto de poder flertando com o fascismo se consolida – ou pior, se consagra por meio da frágil democracia eleitoral, como ocorreu no último domingo –, um dos efeitos mais significativos, aquele que se faz sentir de imediato, antes mesmo da ascensão, preparando o terreno, é a corrupção da linguagem. Essa corrupção não se manifesta apenas pela mudança gradual do significado de algumas palavras, usadas para significar absolutamente o seu contrário, mas mantendo a morfologia antiga. Ela ocorre também pelo próprio desgaste que esse protesto gera, a ponto de não fazer mais diferença que termo está sendo usado e o que ele significa, apenas o quanto ele pode ser instrumentalizado naquele momento específico. Os exemplos que assomaram após os tímidos primeiros dias são bem claros.
A linguagem do fascismo
A tese, aliás, não é minha, é de um dos principais estudiosos da apropriação da linguagem por movimentos autoritários de corte fascista, o acadêmico judeu alemão Victor Klemperer, autor de LTI – A linguagem do terceiro Reich, sobre quem, aliás, já escrevi aqui. Segundo Klemperer, o nazismo não se impôs apenas pela violência, pela repressão ou pelo controle das instituições, mas por uma transformação profunda do próprio idioma alemão. Klemperer argumenta que a propaganda nazista colonizou a linguagem cotidiana ao infiltrar palavras, expressões, metáforas e hábitos de fala que acabavam sendo repetidos até por pessoas que não eram nazistas.
Com isso, conceitos extremistas passaram a soar naturais, aceitáveis e evidentes. A linguagem deixava de ser um instrumento neutro de comunicação para se tornar um mecanismo de moldagem da percepção da realidade: ao repetir incessantemente termos ligados à pureza racial, heroísmo, destino nacional, inimigos internos e sacrifício coletivo, o regime reduzia a capacidade crítica dos indivíduos e tornava pensáveis, e depois executáveis, políticas que, em circunstâncias normais, pareceriam moralmente monstruosas.
A tese central de Klemperer é que o idioma não apenas expressa o pensamento, mas dá forma a ele. Quando a linguagem é sistematicamente corrompida pelo poder, cria-se um ambiente em que o absurdo, a violência e a desumanização deixam de parecer excepcionais e passam a ser percebidos como parte da ordem natural das coisas. De modo geral, esse processo é analisado em retrospecto após determinadas ideias políticas derivarem para uma tragédia de proporções extremas. A forma como os nazistas usavam a imagem dos “ratos” para retratar judeus ou a forma como, em Ruanda, os perseguidos Tutsis eram descritos como baratas, preparando a desumanização que tornou não só possível, como confortável, medidas oficiais e pragmáticas de extermínio. Mas esse caráter extremo do fenômeno não é sua única manifestação. Aqui mesmo no Brasil podemos ver uma versão diluída desse processo com as tentativas constantes de gaslighting discursivo que os bolsonaristas vêm utilizando, muitas delas alimentadas por estrategistas atrás de “gabinetes do ódio” ou de “correntes de Zap”.
“Redemocratizar” uma democracia
Em sua primeira fala após o resultado das urnas lhe dar coragem de sair debaixo da cama, onde estava escondido desde que desistiu do último debate, o candidato que teve mais votos no primeiro turno para a eleição majoritária nacional achou por bem fazer discurso de vencedor já eleito e anunciar os planos que todos nós, os daqui deste lado, avisamos que ele tinha. Vai, ficou claro em seu discurso aproveitar a maioria fácil que seu partido poderá obter em um Congresso dominado pela direita e pela extrema direita para propor mudanças na Constituição. Essas mudanças seriam feitas, segundo as próprias palavras do nepocandidato, para “redemocratizar” o país.
“Redemocratizar” não é uma palavra inocente nem escolhida a esmo – provavelmente, dada a capacidade intelectual demonstrada pelo nepocandidato e seu carisma glacial quase negativo, tenha sido escolhida pelo seu papai, esse sim um populista mais experiente. Os bolsonaristas se descabelam há quatro anos tentando emplacar a ideia de que o Brasil “não é uma democracia”. Há um coro de deslegitimação do processo eleitoral, há denúncias banalizadas de “censura” e “perseguição” a pessoas que simplesmente cometeram ou estão sendo investigadas por crimes, sejam os propagandistas oficiais do bolsonarismo (indiciados ou condenados por organização criminosa, calúnia, difamação, injúria, lavagem de dinheiro etc.), seja pelos “iludidos pobrezinhos” que depredaram Brasília e tentaram um golpe para reverter o resultado da eleição quando seu oligofrênico-mor perdeu a eleição.
Uma das grandes diferenças que pode ser apontada agora entre este lado e aquele é que, diante dos resultados das urnas, as reações deste lado variam entre perplexidade, tristeza, um tanto de raiva, claro, mas um temor, fundamentado ou não, do que virá se o resultado não for revertido em um processo laborioso e cansativo nos próximos vinte dias. Não há um discurso hegemônico de desconfiança com o processo democrático; há uma perplexidade com a qualidade do voto alheio, porque não há planos de não aceitar o resultado. O outro lado tinha esses planos, bem documentados, esboçados e com possíveis alvos de execução. Mas o nepocandidato fala como se precisasse “redemocratizar” um país que está em plena, ainda que turbulenta, democracia – e a turbulência é provocada pelo próprio lado dele, então…
Corrupção
Desde os escândalos dos primeiros governos de Lula, uma das pautas que ajudaram a impulsionar o crescimento gradual, mas irrefreável, da direita e, principalmente, da extrema direita, no Brasil, foi a da crítica à corrupção. Embora eu seja velho o bastante para me lembrar de vários escândalos de corrupção ainda na Ditadura Militar (você nem precisa dar um Google, é só lembrar daquela letra do RPM em Alvorada Voraz: “O caso do hotel / o crime da mala Coroa-Brastel / O escândalo das joias”). Mas, por alguma conjunção de fatores, a direita emplacou a narrativa que associou o governo de esquerda à corrupção. Talvez seja possível reconhecer um certo equívoco estratégico do próprio partido nessa derrota. O PT passou seus primeiros anos como agente político com um forte e veemente discurso contra a corrupção, brandido, com razão, contra as administrações Sarney, Itamar e FHC. Quando assumiu o poder e precisou comprar a direita para poder governar, o discurso geral passou a reconhecer o óbvio: a estrutura política e econômica no Brasil não existe sem alguma corrupção. Talvez a mudança se explicasse pela falta inicial de experiência do PT em administrações executivas, mas o partido sempre teve alguns dos melhores quadros intelectuais da sociologia política ao seu lado, então acho difícil. A solução talvez fosse uma proposta radical de reforma, mas a esquerda no Brasil nunca conseguiu o que a direita obteve agora, maioria total no Congresso. Talvez se Lula tivesse usado sua aprovação recorde dos primeiros mandatos como uma tentativa de pressionar nessa direção… Mas aí vira exercício de futurologia vazio; não foi o que ocorreu, paciência.
Mas eu falava da corrupção – assim como a direita passou os últimos 10 anos enchendo o saco com esse discurso para tentar emplacar a ideia de que a família Bolsonaro não estava de algum modo vinculada a ela. E vinculada está, é claro, se não pelas ações um pouco suspeitas (aquisição de 33 imóveis comprados com dinheiro vivo é o tipo de detalhe que alguém cortaria de um roteiro de filme de Máfia por achar exagerado demais), pelo simples e mais óbvio caso de que os Bolsonaro estão filiados a um partido que é ele próprio tão associado a casos de corrupção que fica difícil fazer todo o inventário.
Eu realmente não consigo entender muito bem a cabeça de alguém que ainda fala, a esta altura do campeonato, no Mensalão para atacar o PT e ainda assim consagrou nas urnas um partido presidido por Valdemar Costa Neto. Quando a sigla ainda era PR, mas mudou depois, tentando um “rebranding” justamente para dificultar associações com escândalos anteriores, Valdemar foi um dos condenados pelo STF no processo do Mensalão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, recebendo inclusive pena de prisão. Esse é ainda hoje o presidente nacional do partido do nepocandidato, e do mesmo partido que arrebatou boa parte das cadeiras do Congresso, amealhando um poder inédito na história moderna do Legislativo. O mesmo partido que, em um levantamento bem recente e, portanto, válido para a atual legislatura ainda em atuação, tinha um terço de sua bancada na Câmara dos Deputados respondendo a processos não apenas por corrupção, mas crimes eleitorais, atos antidemocráticos, fake news, etc. (leia aqui)
Esse foi o partido que saiu consagrado do primeiro turno. Eu até mesmo estaria tentado a ver nisso um único lado positivo: o fim da encheção de saco com os argumentos sobre “corrupção”, dado que o eleitor claramente não está ligando para isso de fato, apenas quer o fim da esquerda no Brasil, seja por que mecanismos for. Mas eu sei que essa também é uma perspectiva ilusória, porque outro elemento importante da manipulação da linguagem para construir realidades alternativas é a recusa completa a evidências e à própria matéria da realidade. Você terá ainda direitistas raivosos despejando perdigotos contra a “corrupção” quando estava lá, votando em praticamente todas as vagas, na majoritária e na proporcional, no mesmíssimo partido de Valdemar Costa Neto, Sóstenes Cavalcanti, Pastor Gil, Carlos Jordy, João Bosco Costa e companhia…
O resultado destas eleições me deixou melancólico pelo fim possível de um Brasil em que eu vivi, e que, suspeita minha, não viverá outra vez no tempo de vida que me resta. Mas, como escritor e trabalhador da palavra, me incomoda por enquanto ainda mais essa enfermidade persistente da linguagem e de seus usos nas mãos de oportunistas que vilipendiam sem nenhum pingo de vergonha.