
Poderia falar sobre o Movimento Feminista no mundo, mas vou falar sobre o do Brasil, este país em que, por incrível que pareça, mulheres dão tiros no próprio pé, associam-no às ideologias de esquerda e o combatem. Obviamente que, na maior parte dos casos, por ignorância e por preguiça de ir atrás de sua história, ficando no diz-que-diz das redes sociais e das falas imprudentes e inexperientes de mulheres jovens, as quais, bizarramente, muitas vezes, gostam de ser chamadas de meninas. Mulher não é menina. Menina é criança. Se aquele jogador, que prefiro não dizer o nome porque me dá náusea, não é um garoto, nenhuma de nós é depois dos dezoito anos. Não nos tornamos maiores de idade por mero capricho numérico. E eu, falando em meu nome, nunca quis e tampouco achei boa ideia ser a garotinha de alguém.
Mas voltemos ao Movimento Feminista e sua história aqui no Brasil. A bibliografia referente ao tema é, sem dúvida, limitada, mas consistente. De acordo com o ensaio Feminismo: uma história a ser contada, publicado pela professora e escritora Constância Lima Duarte, dona de um currículo acadêmico impossível de se reproduzir tamanha a extensão, a história do feminismo no Brasil começa nas primeiras décadas do século DEZENOVE, assim em caixa alta. Nessa época, a maior parte das mulheres brasileiras não desfrutava ainda do direito de aprender a ler e a escrever, reservado ao sexo masculino. A pouca educação que era oferecida acontecia dentro de alguns poucos conventos, dentro das casas das próprias professoras e nos ensinamentos voltados para as prendas domésticas e fim de conversa. Para os homens, estava tudo bem: “Querida, estudar para quê? Escrever por quê? Para que gastar sua belezinha pensando?”
Ora, que perguntas!
Penso que não é o caso de responder. O caso, vide o momento infeliz de negacionistas do feminismo construído por nossas antepassadas, é o de começar a falar sobre elas. Segue um primeiro apanhado de nomes e feitos de mulheres do século DEZENOVE, assim em caixa alta de novo, a quem devemos a vida que levamos:
Nísia Floresta Brasileira Augusta, nascida em 1810, no Rio Grande do Norte. Em 1810, como se sabe, o regime político, no Brasil, era uma Monarquia Absolutista com o status de Colônia de Portugal, um tempo, não gosto nem de imaginar, de escuridão para as mulheres, transgrediu os limites do espaço privado, conseguindo publicar textos em jornais e um livro, em 1832, chamado Direitos das Mulheres e Injustiças dos Homens, em que trata do direito das mulheres à instrução e ao trabalho e à exigência de serem consideradas inteligentes e merecedoras de respeito.
Ana Eurídice Eufrosina de Barandas, nascida em 1806, no Rio Grande do Sul, mesma época monárquica, em 1845, publicou o livro A Philosopha do Amor, com contos, poemas e uma pequena peça teatral a respeito das reivindicações femininas, enfatizando a capacidade da mulher para exercer cargos de comando, para estudar e para opinar sobre assuntos políticos e o que acontecia no país, em seu caso, no sul, a Revolução Farroupilha, desmistificando a ideia masculina de que mulheres não passavam de crianças mimadas ou de bonecas disponíveis feitas para prazeres.
Ana Júlia de Albuquerque Sangy Aguiar, como sua trajetória passou por longo período de apagamento, não se sabe quando ela nasceu, mas que, em 1862, no Rio de Janeiro, ela fundou e passou a dirigir o periódico dominical O Bello Sexo, sabemos. Jornal em que, no primeiro número, ela declara estar consciente do pioneirismo de sua iniciativa e também sua crença inabalável na capacidade intelectual da mulher.
Francisca Senhorinha da Mota Diniz, nascida em 1834, em Minas Gerais, como se sabe, o regime político era então a Monarquia Constitucional, ou seja, um Império conhecido especificamente como Período Regencial em função da minoridade de Dom Pedro II, escreveu e publicou muito. Em 1873, fundou, em Minas mesmo, o periódico semanal O Sexo Feminino, em que quatro temas eram constantemente debatidos: o sufrágio feminino, a abolição da escravatura, o fim do regime do dote matrimonial e o direito ao divórcio.