Na semana passada, eu tinha assuntos urgentes que precisavam ser abordados sobre o doloroso antissemitismo cotidiano que vivemos. Nesta, volto a falar de futebol. Mais precisamente, sobre um jogo absurdo que de certa forma está sendo convenientemente normalizado, mas que, no conjunto da obra (houve uma obra ali, uma obra do mal), é uma das maiores aberrações que já vi em meio século acompanhando o futebol.
Só os muito distraídos ou os muito interessados em negar ignoraram a sequência de fatos desencadeada no jogo Bragantino x Grêmio.
Porém, vamos primeiro ao contexto, que é enorme e já dura uns três anos. Este texto foi escrito antes, mas está sendo publicado já no dia posterior a outra partida (Grêmio x São Paulo, na Arena, com vitória gremista por 2 a 0). De qualquer forma, o que abordo aqui, infelizmente, está longe de ser factual e pontual. Vamos esmiuçar o crime continuado. Depois, o absurdo, inacreditável, suspeitíssimo e emblemático jogo contra o Bragantino.
Entro nesse assunto porque é necessário, precisa ser falado em algum lugar, não pode ser deixado de lado. Nem mesmo alguns antigos e tradicionais espaços de resistência gremista na imprensa gaúcha têm aquela antiga voz a nos defender. Pelo contrário (literalmente, se é que você me entende). Aliás, até a biografia do grande ícone gremista que durante décadas ocupou o nosso maior bunker, bradou por nós e foi a expressão da nossa alma teve autoria de um manifesto odiador do Grêmio (como pode?!). Os caras aparelharam tudo! Mas deixa pra lá. Prefiro evitar esse pormenor. Logo, trato de gritar, porque de algum lugar a exasperação precisa sair e a outros chegar.
Não vou me referir a um erro isolado de arbitragem. Sobre isso, também seria interessante conversarmos, até porque as coisas estão absolutamente sem sentido, e já faz alguns anos que aberrações se repetem constrangedoramente. Veja bem: o Grêmio reclamou de 15 erros clamorosos que o prejudicaram em seus jogos. A CBF pôs alguns em dúvida, mas não teve como contornar a obviedade acachapante de que nove dos erros alegados realmente motivam a reclamação. Não que ela tenha descartado os outros seis. Só ressalvou que eles, ao contrário dos outro nove, dão margem a alguma interpretação.
Ok. Fiquemos nos nove erros inquestionáveis acatados oficialmente pela CBF por não ter como negá-los. Alguns (como o pênalti de concurso nos derradeiros minutos do Grenal do primeiro turno) até já tinham sido reconhecidos em inúteis cartinhas oficiais de retratação, que, na prática, não repõem o prejuízo. Mas vamos aos nove erros. Foram nove erros em 27 jogos. Você manja um pouco de proporção? 9 / 27 = 1 / 3 !!! Isso mesmo! Em um a cada três dos seus jogos, o Grêmio foi inquestionavelmente prejudicado por erros de arbitragem. UM TERÇO! Fui à tabela de classificação e percebi: estaríamos em sétimo lugar, algo assim.
Estou falando de fatos. Mais: de fatos incontornáveis, irrefutáveis!
De fatos que a entidade maior do futebol brasileiro reconheceu oficialmente.
E isso pode ser ainda mais suspeito e grave? Pode! Ao mesmo tempo, o rival local do Grêmio, o Internacional, teve um pênalti marcado a seu favor a cada dois jogos. Alguns deles absurdamente ilegítimos. No conjunto do ano, um levantamento mostrou que o Internacional é o clube com mais pênaltis marcados a seu favor no mundo. Percebam o contraste! É indecoroso.
E, sim, pode ser ainda pior se continuarmos a ver o conjunto e não os fatos isolados. Em 2023, os erros foram tão escancarados (ou quase) quanto em 2025. Mas, em tese, um dos erros absurdos, que mereceu notinha inútil de retratação da CBF, tirou dois pontos do Grêmio que o levariam, matematicamente, ao título brasileiro. Foi o famoso pênalti do Yuri Alberto, com aqueles braços abertos de fazerem inveja a bloqueio no vôlei, nos instantes finais do jogo Grêmio x Corinthians. E em 2024? Como sabemos, houve uma cheia histórica no RS, e a região da Arena, completamente abandonada pelos poderes públicos (esse é outro assunto, que renderia uma coluna só pra ele) foi a mais castigada. A CBF e os demais clubes (com exceção do Botafogo) se recusaram a aceitar que o Grêmio jogasse em campo neutro pra atenuar o prejuízo que mais parecia uma punição dos tribunais desportivos. Jogou metade do campeonato sem mando de campo.
Eu poderia continuar aqui falando de absurdos. Até riria com sarcasmo da cara de pau de alguns colegas que acusam o Grêmio de “chorão”. Ou seja, eles recomendam: “Sejam otários”, “Aceitem, que dói menos”. “Que passe a boiada”.
Nos meus perfis das redes, tenho pedido que o Grêmio, diante de episódios tão escandalosos e reiterados (sistemáticos, na verdade), rompa com a CBF e abandone o campeonato brasileiro. E sei que é difícil pra instituição fazer isso. Mas posso pedir e assegurar que eu ficaria imensamente feliz se alguém fosse ousado a esse ponto, porque é cansativo ser o palhaço que proporciona a gargalhada do entorno e depois vai chorar no camarim.
Seria tão absurdo comprar uma sede em Rivera e jogar o campeonato uruguaio? Ou em Libres e jogar o campeonato argentino? Por favor, Conselho Deliberativo do Grêmio, sei que parece disparate, mas pense nisso.
O jogo
Mas já me alonguei no contexto, que era enorme. Lá no início do texto eu me propus a fazer a crônica (policial) de um jogo. Eis: o jogo estava equilibrado, mas se percebia a maior qualidade do time gaúcho. Havia uma leve domínio gremista, e a sensação é de que um gol surgiria ao natural. Fazia cinco jogos que o Bragantino não ganhava, e o Grêmio estava em ascensão. Mas eis que o desequilíbrio se estabelece. Aos 42 minutos de jogo, antes de a bola ser alçada na área gremista, Kannemann está ao lado do atacante adversário Pedro Henrique, sem nenhum gesto de ambos. O juiz, resoluto, corre em direção à área e expulsa o zagueiro gremista. As imagens da TV mostram por tudo que é ângulo, e ninguém entende. Ah, só um entende: o juiz do VAR, o mesmo que já havia favorecido o Internacional, em decisão que também mereceu retratação inútil da CBF. O cara chamou a decisão de “excelente”. Mas o cúmulo foi que, minutos depois, na saída dos dois times pro intervalo, Pedro Henrique foi sincero na entrevista e disse que nem ele entendeu. Percebem? Nem o suposto agredido entendeu qual foi a agressão. Só os juízes de campo e do VAR viram uma agressão do zagueiro tricolor. Isso seria hilário se não fosse gravíssimo. E o prejuízo se estabeleceu. O Grêmio voltou com um jogador a menos para a disputa da etapa complementar. Empate seria vitória.
E veio o segundo tempo. Com um a menos, o Grêmio tratou de se defender. E fez isso com muita competência. Os jogadores nitidamente se entregavam com denodo à tarefa de assegurar ao menos um pontinho fora de casa diante de tamanha injustiça. Não houve nenhum atraso do jogo. Não houve análise de VAR. No máximo, haveria cinco minutos de acréscimo. E chegamos aos 45 minutos. O sedizente árbitro de futebol deu oito inacreditáveis minutos de acréscimo. E lá foram os bravos jogadores gremistas assegurar o pontinho que lhe permitia algum conforto na tabela.. Chegamos aos 53, e o juiz resolveu dar um nono minuto. Parecia até escárnio. E no nono minuto, no apagar das luzes, o jogador do Bragantino chutou a bola no ombro do lateral-esquerdo Marlon, que mantinha os braços prudentemente colados ao corpo. O juiz fez sinal de VAR e, ainda assim, ninguém seria capaz de acreditar que ele teria a ousadia de novamente errar tão feio. Eu estava até tranquilo. Mas não! O sujeito voltou e, correndo faceiro, foi de dedo em riste até a marca da cal.
Derradeiro segundo do jogo. Pênalti ilegítimo contra time que lutara bravamente com um jogador a menos em razão de uma expulsão injusta a ponto de ninguém ter entendido. Escárnio! Absurdo! Deboche! Os discursos dos gremistas, com razão, continham as palavras “revolta” e “impotência”.
Terminado o jogo, ninguém fez essa crônica.
Ninguém deu a dimensão do absurdo que foi esse jogo.
Tentam normalizar essa sabotagem ao futebol. Uma sabotagem tão potente, que vi um gremistinha de 18 anos dizer que não tem mais graça ver os jogos, porque, na palavra do adolescente, com seu olhar ainda puro, “sempre nos roubam”.
Percebem a profundidade da maçaroca que vocês estão fazendo?
O desgastado clichê “a banca para e recebe” se mantém sendo proferido por sábios isentos (ironia), apesar dos escândalos absurdos e reiterados, ano após ano. “A banca paga e recebe” apesar dos nove erros em 27 jogos, um terço das partidas, contrastando com a liderança de pênaltis, alguns risivelmente ilegítimos, dos rivais locais.
A banca só paga. E está ficando muito cara essa conta.
…
Eu ainda enveredaria pelos nomes dos sedizentes árbitros de futebol que cometeram erros gravíssimos contra nós (teve até gol anulado indevidamente no fim de um jogo eliminatório, com cartinha inútil de reconhecimento do erro e retratação oficial da CBF, mas que nos tirou inapelavelmente da Copa do Brasil), foram afastados e voltaram a delinquir contra nós ou a favor dos nossos adversários. A lista é assustadoramente irônica.
Mas isso não teria fim.
Falando em fim…
Fim de crônica.
Fim do futebol!
Fim da fidalguia!
Fim da picada!
Fim!
PS: usei sempre a expressão “erro”. Mas peço que você não veja nisso algum tipo de condescendência. Erros podem ser culposos ou dolosos.
PS1: em tempo. Aproveitando que a coluna é sobre o meu Grêmio, na quinta-feira à tarde, o clube enfim assumiu a gestão da própria (e lindíssima) casa. Pra mim, a Arena sempre foi nossa, noves fora as maledicências. Nada diferente de um bem adquirido via leasing. Mas é extremamente importante e histórico termos a sua gestão completa, a administrarmos do nosso jeito e com as nossas conveniências e valores. É um momento maravilhoso. E sou muito fã do Marcelo Marques, um gigantesco ser humano a quem devemos essa grande notícia. Do gesto grandioso tomado pela lindeza simples da pura paixão ao reconhecimento de questões emocionais (tem que ser valente pra expor essas fragilidades), Marcelo se mostra muito gente. Precisa ser reconhecido, enaltecido e homenageado.
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