Não sou um cara afeito à arte conceitual. Mas, eventualmente, ela me pega de jeito e a admiro, até porque sou uma pessoa naturalmente desprovida de dogmas e preconceitos, algo que preservo com carinho por achar uma enorme qualidade e um diferencial nestes tempos tão cruéis e ignorantes nas mais variadas formas de ignorância. Uma que me pegou de jeito foi talvez a mais absurda de todas: o italiano Salvatore Garau produziu uma escultura invisível, de nome “Eu sou”, já vendida por algo como R$ 87 mil. E veja que loucura: o comprador adquiriu nada. Levou pra casa um suporte de 1,5 metro por 1,5 metro com um vazio por cima, mas tendo a ousada assinatura do autor sob a alegação de que ali tem “ar e espírito”. Pensei: tchê, a que ponto de bizarrice chegamos! Só que, na real, o troço é uma crítica ao bizarro. Diz: “Eu sou” o invisível.
O artista, que pra muitos pode parecer um charlatão, mas que pra mim é motivo de eu estar aqui escrevendo sobre ele (e isso já é algo), alega que a sua suposta obra de arte é “um vácuo cheio de energia”. Rapaiz, é um retrato do nosso tempo! É imaterial, é incorpóreo. Mas custou R$ 87 mil e nos faz pensar.
Podemos aproveitar a oportunidade protagonizada pela suposta arte pra falar sobre o vazio. E, pasmem, também sobre o vazio como algo positivo.
Faz tempo que as pesquisas eleitorais e as nossas percepções erram. Mas erram mesmo, grosseiramente, completamente fora da margem de erro que eles próprios estabelecem como admissível. O mais recente erro foi na eleição argentina, com o Milei pulando em seis semanas de 14 pontos negativos na província de Buenos Aires pra um ponto positivo. Variação real de 15 pontos nas eleições bonairenses. E mais: com notícias péssimas sobre o Milei nesse meio tempo em que supostamente algo o teria que ter favorecido.
Algo invisível há por aí que as pessoas não estão enxergando.
E é algo que foge dos dogmas e da polarização.
Há um cansaço.
No caso argentino de dias atrás, a interpretação mais plausível dá conta de um pavor à inflação que Milei, com aquelas costeletas, figurino de roqueiro e economês mastigadinho pra explicar a fria austeridade com airbag fornecido por Trump, bem ou mal, derrubou. O argentino é um traumatizado. Há 24 anos, gritou “se vayan todos” e não encontrou ninguém pra pôr no vazio que restaria desse grito caso ele fosse ouvido. Certamente não é o Milei esse cara, mas causaria mal-estar a volta do peronismo em geral, do peronismo kirchnetista em especial, do radicalismo personificado pela pobre figura do De la Rúa e pelo macrismo com cheiro permanente de oportunismo pestilento.
O voto no Milei foi um salto no vazio, e isso não necessariamente é bom.
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Era usual anos atrás a condenação ao “isentão”. Sempre desconfiei que essa condenação tinha um motivo. E o motivo é que o “isentão” decide, é perigoso.
O “isentão” é invisível. O “isentão” muitas vezes o é porque tem bom senso.
O “isentão” é o vazio, um vazio a ser preenchido, mas um vazio onde não cabem contorcionismos teóricos revestidos de um academicismo arrogante que encheu os tubos. Não se admitem terraplanismos e antivacinas da direita ignorante e preconceitos como certo antissemitismo mal disfarçado em voga na esquerda burra. O “isentão”, frequentemente, só quer uma vida sadia, em cores vibrantes que retratem a vida sem narrativas enfadonhas e desprovidas de empatia verdadeira, mesmo quando o cara se julga o maior humanista.
O “isentão” incomoda num ambiente polarizado porque muitas vezes ele achou o sadio caminho do meio e é o passarinho quando eles passarão. O “isentão” é tudo o que o polarizado mais repudia, porque é o sujeito que o polarizado não pode nem adular nem criticar. O “isentão” quebra essa lógica.
Nunca tive problemas em assumir transparentemente tudo na minha vida, do time de futebol à ideologia. Talvez porque eu veja nessa transparência a sinceridade necessária ao bom jornalista, que efetivamente busca o ideal da verdade. Desde a adolescência sou um convicto social-democrata, que, nos conceitos em voga, está situado na centro-esquerda, uma esquerda moderada, não dogmática e dialoguista, que respeita o diferente e vê na individualidade um valor relevante tonificado pelo coletivo justo.
Mas, entre fascistas e jihadistas, extrema direita estúpido e antissionismo burro, me aconchego no vazio. Vejo vida no vazio. Percebo a inteligência e a sabedoria no vazio. E o vazio não quer ser poluído pelo lixo circundante.
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A polêmica obra do autor que assina o vazio pode ser interpretada também como a simples vontade de não opinar. E tenho me digladiado muito com opinadores contumazes e enfadonhos. Perguntam a minha opinião e, se não tenho informações suficientes sobre um assunto, respondo: “Não tenho.”
O opinador permanente é um pesado, um chato, uma mala!
Por vezes, é exasperantemente insuportável.
Assumir não ter opinião às vezes é libertador, é a leveza honesta do vazio, é a preservação da própria sanidade e também da sanidade alheia.
Vocês já perceberam que há uma ordem que precisaria necessariamente ser respeitada? Opine, mas antes se informe. Dependendo da situação, a opinião pode se tornar algo perigoso, capilarizado, formador de mais opiniões e potencialmente leviano, destrutivo, frequentemente desprovido de empatia, porque expõe uma pessoa, a condena ou “lacra”. E isso é cruel.
Vamos ao futebol, que supostamente seria algo mais ameno: o torcedor, o “influencer” e até o jornalista muitas vezes opinam sem antes ter a informação embasadora. Tempos atrás, fui dar uma palestra pra gurizada da base gremista e perguntei aos responsáveis pelo setor a respeito de um menino que eu via com muito potencial e não entendia por que nunca foi aproveitado entre os profissionais. A resposta, reservada: o menino tem uma vida sofrida, com pai abusador, mãe que precisa recorrer à prostituição, alcoolismo e violência. A busca por resgatar o garoto justificava a demora em promovê-lo.
E agora me diga: essas informações poderiam vir a público? Óbvio que não!
Mas as pessoas, com as veias saltando, xingam e exigem uma explicação.
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A obra de Salvatore Garau tem o seu significado corroborado em pesquisas científicas, veja só. O instituto More in Common recentemente constatou que 54% dos brasileiros são “invisíveis”, como a suposta obra de arte. São pessoas que repelem os extremos e nem cogitam ter engajamento partidário.
E o invisível, por definição, é silencioso.
O invisível é um espaço vazio, um vácuo.
Preencher com o que se não tem com o que preencher?
É aquele vazio ao qual o síndico Tim Maia se referia quando pedia que não o amolassem, porque queria sossego. “O que eu quero?! Sossego! O que eu quero?! Sosseeego!!!”, e dê-lhe sopros e suingues contagiantes.
Pense no invisível quando você se surpreender em alguma eleição.
Ele pode ser perigoso, mas pode também ser sábio.
Lô Borges
Eu estava terminando de escrever este texto e chegou a notícia da morte de Lô Borges. Bah! Me pegou de jeito. Sou ardoroso fã da música mineira, com o Lô, o Beto Guedes, o Milton, a banda 14 Bis e tantos outros. Sempre tive uma curiosidade sobre o que de especial ocorre com a musicalidade de um lugar. Temos Belo Horizonte no Brasil, Rosario na Agentina e, óbvio, Liverpool.
Lô nos deixa com o girassol da cor do seu cabelo num vestido azul. Ao contrário da maioria, sou meio avesso a listas, mas às vezes não tenho como deixar de eleger alguma preferência. “Um girassol da cor do seu cabelo” é a minha música brasileira preferida. Lô nos deixa a sua obra absurda.
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Shabat shalom!
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Foto: Reprodução do Instagram

