
O velho jargão popular propõe que a vida imita a arte. Mas é justamente o contrário! A arte nos alerta, informa e, especialmente, estimula a reflexão sobre fenômenos que cercam ou ameaçam o cotidiano e a nossa existência. E, no cinema, especialmente, a distopia tem se revelado um recurso mais que pertinente e inquietador — quase exageradamente premonitório. Viva a arte!
Quem assistiu a 1984, de Michael Radford, baseado no romance de George Orwell, sabe do que estou falando. O filme é uma referência direta na discussão sobre autoritarismo e destruição da liberdade política. Nesse lastro, destaco ainda O Conto da Aia ou A Decadência de uma Espécie, de 1990, de Volker Schlöndorff, baseado no romance de Margaret Atwood, que nunca chegou às nossas telas. Mas a obra inspirou também a série The Handmaid’s Tale, de 2018, e conta a história de uma sociedade que tem os direitos individuais progressivamente eliminados pelo Estado — que passa a controlar os corpos, a reprodução, a sexualidade e a vida privada. Outra excelente referência é V de Vingança, de 2006, de James McTeigue, no qual a Inglaterra passa a ser governada por um regime autoritário que propaga o medo, a vigilância, a propaganda e o controle da informação para dominar a população.
É com o mesmo tom profético – prefiro classificar como previdente ou perspicaz – que Anniversary: Mudança Radical (Netflix), de 2025, do polonês Jan Komasa, completa a coleção de filmes que não procuram apenas contar uma história, mas produzir perguntas e inquietações. O filme questiona até que ponto vale arriscar a soberania de uma nação democrática por falsas promessas de “mudança instantânea”. Trata, à primeira vista, da história de uma família norte-americana que se reúne para comemorar os 25 anos de casamento de uma professora universitária e um proprietário de restaurante. O evento reúne os filhos, parceiros e familiares em uma casa de classe média, aparentemente protegida do mundo exterior. Porém, o que deveria ser apenas uma comemoração familiar transforma-se, progressivamente, em uma espécie de inferno. Uma visita inesperada traz para a discussão — e para o desalento de todos — uma nova corrente de pensamento político e ideológico, denominada “A Mudança”, que compromete não somente as relações internas, mas, pouco a pouco, a própria sociedade e o Estado. Alguma semelhança com a nossa realidade atual?
Impactado ainda com o resultado das eleições do último 4 de outubro, recorro mais uma vez a Hannah Arendt para avaliar a metáfora de algo que constantemente nos assombra: o fim de nossa democracia. A partir da filósofa, é possível afirmar que a opressão de um povo ou sociedade nunca se anuncia como uma transformação que ocorre de imediato. E é neste argumento que a inquietação do filme nos aproxima. Não há, por aqui, tanques nas ruas — mas eles já nos ameaçaram e perseguiram. Não há, ainda, uma ruptura espetacular, mas talvez sua anunciação. Então, a questão é que, como no filme, não existe necessariamente um momento único em que diremos: “foi aqui que a democracia morreu!” O que existirá será algo muito mais silencioso: a mudança progressiva daquilo que consideramos aceitável.
Também, como no filme, parecemos acompanhar as várias tentativas de golpe contra nossa democracia e soberania. Ao longo dos últimos anos, nossas famílias têm sido transformadas em mini laboratórios, como uma espécie de miniatura da sociedade. O que ocorre na residência do casal norte-americano reproduz, em escala ampliada, o que vivenciamos, mais uma vez, no Brasil. Familiares e amigos desconfiando uns dos outros; conversas que se tornam disputas; convicções políticas como critérios para definir quem pertence ou quem deve ser excluído. Ou seja, o lar, como espaço de acolhimento às diferenças, tem paulatinamente assumido o caráter de território de vigilância, ressentimentos, controles e guerra. E, neste ponto, a força metafórica do filme tem se revelado factual: uma democracia pode começar a morrer dentro das relações cotidianas antes de morrer formalmente nas instituições. E essa reflexão muito nos interessa no momento.
O Brasil não é a reprodução da película. Claro que não. Trata-se de uma ficção sobre a sociedade norte-americana — talvez não tão longe da realidade, haja vista o modelo imperialista que vem se consolidando com o governo atual. Contudo, penso que os mecanismos narrativos nos permitem pensar problemas que ultrapassam a realidade retratada na tela. Ou seja, a questão brasileira pode ser formulada de maneira mais ampla: o que nos acontecerá quando a ideia de mudança proposta pela extrema direita passar a valer mais do que as regras que permitem que diferentes grupos disputem democraticamente o poder? Afinal, não podemos desconsiderar que, na atualidade, uma das palavras mais sedutoras da nossa política é “mudança”. E, na boca desses políticos, mudar significa romper com aquilo que existe, assim como abandonar uma ordem considerada injusta, ultrapassada ou insuficiente.
É óbvio afirmar que as mudanças são sempre necessárias. Podem e devem ser democráticas e devem representar a própria possibilidade de transformação social. Nenhuma democracia deveria ter medo da mudança. Pelo contrário: ela existe precisamente por permitir que governos mudem, leis mudem, políticas públicas mudem, maiorias mudem e até mesmo valores sociais sejam discutidos e transformados. Todavia, o problema começa quando a palavra “mudança” deixa de significar transformação dentro da democracia e passa a significar sua substituição por outra coisa — em geral, a opressão e a subjugação de um povo. E é nesse ponto que Anniversary se torna inquietante. Porque “A Mudança” não se apresenta inicialmente como destruição. Ela aparece como solução. Promete superar conflitos, eliminar divisões, restaurar a ordem, acabar com o caos e, logicamente, devolver à sociedade uma unidade que supostamente teria sido perdida. E essa propaganda é poderosa, especialmente por nascer de uma insatisfação real.
Toda ruptura brusca e autoritária precisa, de algum modo, encontrar uma sociedade cansada. Cansada do conflito, da política, das instituições, das diferenças, de esperar. Mas é justamente esse cansaço que transforma essa utópica promessa em uma tentação quase irresistível. Porém, pensemos antes de ir às urnas: a democracia não é somente votar! Uma das maiores dificuldades para compreender a democracia é reduzi-la ao momento eleitoral. Votar é fundamental, sim, mas democracia significa também aceitar que uma maioria não pode eliminar os direitos da minoria. Democracia exige reconhecer limites ao exercício do poder; preservar instituições capazes de controlar governos; garantir liberdade de expressão, imprensa, associação, participação política e manifestação; aceitar que decisões públicas possam ser contestadas; e, sobretudo, reconhecer que ninguém, ou partido, pode possuir sozinho o monopólio da verdade política.
Democracia, acima de tudo, significa compreender que o risco contra sua destituição não cessa ao final da eleição. Esses riscos permanecem vivos, escondidos nos esgotos e sarjetas, esperando novas possibilidades para eclodir. Como agora. Fora isso, deve-se entender que a democracia não elimina o conflito, mas o torna civilizado. Até porque, quando a política passa a ser percebida como uma guerra entre o bem e o mal, o adversário deixa de ser adversário e passa a ser inimigo. E, quando isso ocorre, derrotar o que passamos a considerar como inimigo pode parecer mais importante do que preservar as regras do jogo. É nesse momento que a democracia começa a ruir.
Hannah Arendt (2012) demonstrou como movimentos totalitários trabalham com a produção de explicações abrangentes — ou inverídicas e confusas, acrescentaria eu — para fenômenos complexos. Por essa estratégia, a realidade deixa de ser contraditória e tudo passa a ter uma causa, um culpado. Tudo passa a ser explicado pela presença de um inimigo — sejam os pobres, os imigrantes, as mulheres, os negros, indígenas, homossexuais, travestis, transexuais, católicos, umbandistas, candomblecistas, agnósticos, espíritas ou pagãos. O importante é escolher um sujeito, um grupo, uma minoria, a quem crucificar para saciar o cansaço dos alienados, que buscam soluções rápidas. Essa lógica também nos é particularmente perigosa. Porque oferece ao indivíduo não crítico aquilo que a realidade normalmente não oferece: a simplicidade.
Mas não nos enganemos, pois a sociedade é complexa. Assim como o são a política, a economia, as relações internacionais e as desigualdades sociais. Porém, o discurso político radical pode oferecer uma resposta muito mais simples, do tipo: “o problema são eles”. E, nesse caso, “eles são os culpados”, “os inimigos”, “os responsáveis”. Por sua vez, “nós somos os que devem e podem salvar o país”. Nós somos os que verdadeiramente representam o amor a “Deus, à Pátria e à Família”. E é, justamente, nesse contexto que o debate deixa de ser sobre projetos e passa a ser sobre pertencimento e poder. A partir daí, muitos deixam de perguntar: “Qual política funciona?” e passam a questionar: “De que lado você está?”
Cabe lembrar, contudo, que política não vive apenas nas instituições. Ela se estende para as conversas, relações afetivas, grupos de amigos, redes sociais, escolas, trabalho e família. Nenhum indivíduo ou grupo pode afirmar legitimamente que encarna definitivamente o povo. Até porque, em uma democracia, o povo não possui uma única voz. Existem povos dentro do povo, vozes dentro de uma voz. Existem diferenças, conflitos, identidades, maiorias temporárias ou permanentes, indivíduos que mudam de opinião e oposição. A democracia exige que essas diferenças possam coexistir. No filme, entretanto, a família começa a perder justamente essa capacidade. As diferenças passam a ser interpretadas como traição e ameaça. A convivência pacífica é substituída pela exigência de alinhamento. Assim, a casa permanece fisicamente a mesma, mas jamais será novamente a mesma casa. Jamais será o mesmo país, o mesmo Brasil!
E essa metáfora evidencia ainda que falar em soberania é falar sobre a capacidade de uma sociedade decidir sobre seu próprio destino político. Soberania não significa isolamento. Estado algum sobrevive ilhado do mundo. Tem que negociar, estabelecer alianças, participar de organizações internacionais, receber investimentos, importar tecnologia, exportar produtos e sofrer influência cultural. Contudo, há uma enorme diferença entre interdependência e subordinação. Uma democracia soberana tem que conservar sua capacidade de decidir institucionalmente seus próprios caminhos. E isso é relevante diante de um mundo em que conflitos políticos internos frequentemente ultrapassam as fronteiras nacionais.
Nossa experiência atual, por exemplo, evidencia como a corrida política envolve pressões, disputas e tentativas de influência que atravessam fronteiras. Diariamente são divulgados documentos e informações que expõem falsos patriotas brasileiros junto ao governo norte-americano, pleiteando intervenções nas eleições nacionais. Esse antinacionalismo coloca em risco tanto nossa democracia quanto a soberania brasileira e de toda a América Latina. Então, independentemente das posições políticas envolvidas, o que se apresenta é uma questão institucional que exige reflexão: até que ponto nossa democracia consegue preservar sua autonomia quando conflitos internos passam a ser internacionalizados?
Não esqueçamos que o Brasil possui uma história particularmente complexa nesse campo. Nossa democracia é relativamente jovem quando comparada à de outras nações. Ela já foi interrompida por períodos autoritários. A ditadura militar, iniciada em 1964, durou até 1985 e esteve associada a graves violações de direitos humanos. A Constituição de 1988 representou uma reconstrução institucional baseada na ampliação dos direitos fundamentais e na organização democrática do Estado. Porém, nenhuma Constituição, por mais importante que seja, produz democracia automaticamente. Ela depende de instituições, mas também de uma cultura política capaz de reconhecer seus limites. Assim, não podemos desconsiderar os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023, quando se evidenciou que a ordem constitucional brasileira poderia ser alvo de uma nova tentativa de ruptura. E não estamos falando do século passado. Foi há três anos.
Mas o que alimenta a esperança é saber que uma democracia ameaçada não é necessariamente uma democracia destruída. Confundir as duas coisas pode produzir tanto complacência quanto pânico. Então, o principal desafio agora está em reconhecer as vulnerabilidades sem transformar a sociedade em uma permanente guerra política. Outro elemento perturbador de Anniversary consiste em entender a velocidade com que o excepcional se transforma em normal. Aquilo que inicialmente parece absurdo começa a ser tolerado. Depois, justificado. Depois, defendido. E, finalmente, incorporado à rotina. É assim que uma sociedade pode mudar sem perceber que mudou.
E, neste aspecto, Hannah Arendt (1999), ao refletir sobre o totalitarismo, chama atenção para processos nos quais acontecimentos extraordinários passam a ser incorporados a uma nova normalidade política. A questão não é imaginar que qualquer medida controversa conduza automaticamente ao autoritarismo. A questão é outra. Consiste em definir quais limites uma sociedade aceita ultrapassar em nome de uma suposta necessidade. Deve-se compreender que toda democracia possui situações excepcionais. O problema surge quando a exceção deixa de ser percebida como exceção; quando medidas extraordinárias passam a parecer normais; quando direitos passam a ser considerados obstáculos; quando controles institucionais passam a ser vistos como inimigos; quando a liberdade de expressão é defendida apenas para quem concorda conosco; quando o adversário perde o direito de existir politicamente. Aí, a mudança deixa de ser democrática e se transforma no caos.
Talvez o maior paralelo entre o filme e o Brasil não esteja em uma personagem específica, mas no cansaço de tantos. Democracias são trabalhosas e exigem negociação, tolerância, paciência, ouvir quem pensa diferente, aceitar resultados que nem sempre correspondem à nossa vontade e reconhecer que o adversário político também possui direitos. Por isso, existe uma tentação recorrente: imaginar que seria melhor se alguém simplesmente “colocasse ordem na casa”. A democracia pode parecer lenta; a justiça pode parecer ineficiente; o debate pode parecer inútil; a negociação pode parecer fraqueza; a pluralidade pode parecer desorganização. Mas acreditar na radicalização e no extremismo como resposta imediata será sempre o maior erro. Até porque, quem controlará aqueles que receberam do próprio povo poder para decidir tudo?
Por fim, destaco que a democracia não é apenas uma urna eletrônica, uma Constituição ou uma eleição. É uma forma de convivência. Uma possibilidade de discordar sem destruir; de perder sem abandonar as regras; de vencer sem querer controlar tudo; de mudar sem eliminar o direito dos outros. Para mim, a pergunta que Anniversary deixa sobre a mesa refere-se a: quando uma sociedade aceita a mudança em nome da salvação, quem decide quando a mudança já foi longe demais? E a resposta, obviamente, não pertence a um indivíduo, a um partido, a uma ideologia ou a um governo. Mas a todos e todas. Até porque a maior ameaça à democracia não é a que chega anunciando que pretende destruí-la. Mas aquela que se anuncia ao dizer que veio apenas para consertá-la. É bom relembrar que a soberania de uma sociedade começa justamente no momento em que ela decide não entregar a ninguém — nem dentro nem fora de suas fronteiras — o direito de decidir sozinho o que deve ser o seu futuro.
O que me alivia um pouco neste momento é ter a consciência de que estou fazendo a minha parte! E que você tenha também essa certeza. Porque depois poderá ser tarde demais para se arrepender!
Notas:
ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
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Epitacio Nunes de Souza Neto é psicólogo, psicoterapeuta e professor universitário. Possui doutorado em Psicologia Cognitiva pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Doutorado em Psicologia pela Universidad del Salvador (USAL) de Buenos Aires, Argentina. Possui também mestrado em Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
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