Entre tantos toques da psicanálise para a nossa vida cotidiana, um dos que considero mais pertinentes tem a ver com a necessidade de aceitarmos o tanto que não sabemos. De nós mesmos, logo do mundo. Logo também o quanto o desconhecido nos move, e valeria a pena, antes de nos conhecermos melhor, conhecermos melhor os seus sinais.
Lembrei disso quando a minha professora de ginástica contou que havia sido convidada por engano para um aniversário. Devo aqui dizer que minhas fartas conversas com ela, durante a aula, são devidamente conscientes, com o intuito de retardar os exercícios mais desagradáveis. Foi quando, movido pela preguiça, rebati que o tal do engano não passava de um sinal inconsciente da vizinha que, no fundo, a queria presente no seu aniversário.
Isso vale para o WhatsApp? – perguntou a profe Graci.
Vale, sim – respondeu o aluno, acrescentando que a maior parte dos atos falhos contemporâneos tem como cenário as telas.
Foi quando lembrei de uma história antiga que se passou em Lima, no Peru. Eu estava fazendo um mochilão com o meu amigo Gerson Schotkis e, naquela noite, estávamos na boemia do bairro Miraflores, cheios de amor para dar. Avistamos duas jovens (como nós), algumas mesas adiante, e o acaso (ou inconsciente?) fez com que, naquele exato momento, uma florista se aproximasse de nós. Compramos na hora duas rosas e pedimos para a garçonete — outra peruana bastante animada — levá-las em nosso nome para as moças.
Mas algo aconteceu, movido pelas forças do inconsciente coletivo, fazendo com que a portadora errasse de mesa, chegando em outra cujas ocupantes não nos interessavam, o que hoje seria mais bem explicado pelo Sigmund Freud do que pelo Vinícius de Moraes. O imbróglio, enfim, estava armado, e precisamos muita habilidade para defendermos o nosso desejo e superar o caminho equivocado daquelas flores. Ainda não havia Freud (nem Lacan) em minha vida, mas, intuitivamente, eu já defendia o meu desejo, especialmente porque era jovem e estava em Miraflores.
Foi ali que iniciaram aqueles dois romances de verão, com Débora e Cuqui, respectivamente, o que incluía passeios por Lima e até mesmo uma ida ao cinema para vermos a estreia de um Woody Allen ainda meio jovem. Depois a coisa evoluiu a ponto de que fomos convidados para um jantar na casa delas (eram irmãs), em que Gerson e eu não chegamos juntos, porque, já naquela época, eu não fazia distinção entre a importância da realidade e da imaginação, logo estava percorrendo algumas livrarias.
Ao chegar no casarão das moças, encontrei o Gerson lá na frente, mais pálido do que de costume. Foi quando ele me disse que a Cuqui (a minha cara-metade) era casada, e o marido havia voltado antes do previsto. Não havia tempo para averiguarmos a veracidade dos fatos omitidos e, enquanto ouvíamos gritos acompanhados de um estrondo na porta, saímos correndo por Miraflores, onde eu só pensava em encontrar o Vargas Llosa para lhe dizer que a sua ficção nada devia à realidade.
Não culpo a Cuqui pelo que fez comigo, pois sei que o seu inconsciente também deve ter feito alguma coisa com ela. Hoje só consigo pensar que, se estivesse atento aos sinais da garçonete, não interpretaria o seu “engano” como fruto dos astros ou do acaso e, sim, das forças do inconsciente, as quais nunca devemos negligenciar. Para quem tem alguma dúvida de sua importância, minha memória vocifera que o nome da garçonete era Clara Luz. Mas, se vocês estão achando que isso é uma gracinha, sugiro que levem o Freud mais a sério e marquem, em caráter de urgência, uma consulta com algum discípulo de Lacan.
Todos os textos de Celso Gutfreind estão AQUI.
Foto da Capa: Gerada por IA.

