Minha ficha corrida mostra quantas vezes escapei da prisão. Confesso: sou um quase delinquente se formos ver o significado frio de delinquir! Mas o “quase” é importante aí.
Poupá-los-ei das traquinices que cometi já na primeira infância, muitos anos antes de saber usar a mesóclise. Bah, teve aquela vez em Capão que joguei uma bexiguinha bem no meio do copo de chope de um cara que comia no Pastelão. Saí correndo, mas o garçom já nos manjava, me capturou e perguntou pra qual adulto me levaria. Entre a minha mãe no Aymoré e a minha avó no Pindorama, sopesei e optei pela minha mãe. A minha avó, sobrevivente das crueldades do nazismo em 1939, era jogo duro. Melhor a mãe…
Mas a praia é um caso à parte. O mar desperta uma sensação de liberdade que leva o cara a romper regras. Rolava muito sexo, drogas e rock’n roll, e isso não é força de expressão.
Vou pular a adolescência, então, quando, aos acordes psicodélicos do Sgt Pepper’s, os nossos cabelos cresceram e a vontade de ganhar o mundo chegou ao seu ápice.
Vamos à lista das vezes em que quase fui preso, já pulando pra eterna e linda juventude, “página de um livro bom”, “cais e calor”. Deixemos a bola de meia, bola de gude imaculada, porque é a ela que recorro quando a coisa fica feia, e, ora, lá “há um menino, há um moleque morando sempre no meu coração, toda vez que o adulto balança ele vem pra me dar a mão, há um passado no meu presente, o sol bem quente lá no meu quintal, toda vez que a bruxa me assombra o menino me dá a mão e me fala de coisas bonitas que eu acredito que não deixarão de existir, amizade, palavra, respeito, caráter, bondade, alegria e amor, pois não posso, não devo, não quero viver como toda essa gente insiste em viver, não posso aceitar sossegado qualquer sacanagem ser coisa normal…”
Sim, “há um passado no meu presente”, mas vamos pular pra linda juventude, a época em que o eterno Bituca compôs uma das letras mais maravilhosas da História, também cantada pelo 14 Bis, a banda brasileira que mais amei na vida, com todo o respeito ao Scandurra, ao Renato Russo, ao meu primo Charles e aos meus amigões guitarristas Leozinho e Veco.
Mas vamos lá, começando pela praia, claro!
1) Puxávamos o nosso fuminho tranquilos à noite na Beira-Mar, em Capão. Ainda nem era o da lata, porque o ano era anterior a 1987, uns seis anos antes, por aí. Vimos os camburões vindo. Tchê, manja quando tu acende a luz e as baratas correm pra todos os lados? Assim foi. Corremos pra tudo que é lado. Eu engoli a ponta do baura e me joguei no mar. O André e o Rodolfo se enfiaram numa garagem. Só que os brigadianos não estavam nem aí pra nós, uns fedelhos pretensiosos, maconheirinhos metidos a besta. Corriam atrás de uns assaltantes. Passaram zunindo por nós, mostrando a nossa insignificância.
2) Na amada Fabico/UFRGS (faculdade de jornalismo), pintamos as faixas contra a ditadura, que já chegava ao seu fim, mas ainda era dura. Nos juntamos ao protesto de uma greve geral ou algo assim. A minha faixa era contra a usina de Angra. Vieram os pés de porco com seus cassetetes. E dê-lhe correr dos caras. Só que um chegou a me agarrar pela camisa de flanela solta que eu usava aberta com a camiseta Hering por baixo (e o jeans desbotado e justo, claro), e eu me desvencilhei, escapei com faixa e tudo. Quase entrei pra longa lista de militantes “comunas” presos pela ditadura militar. Melhor assim.
3) Já jornalista, fui designado correspondente da Folha de S. Paulo em Buenos Aires. Era 1997. Previsão de morar lá, naquele meu querido apê de Palermo, durante seis meses. Só que, pra certa alegria minha, cheguei com a aposentadoria do Maradona, a crise asiática, uma visita importante do Clinton ao Menem e fui embora na crise que desembocou no desastre de 2001. Fiquei além do tempo! A permanência esticou, e eu curtia cada momento. Permaneci sete lindos meses, uma bela temporada. E o visto de trabalho, de meio ano, expirou. Quando cheguei na aduana do aeroporto, a PF argentina resolveu me cobrar multa pelo mês de acréscimo. Eu estava tenso. Até hoje não consegui sair da minha Buenos Aires. Resmunguei: “Hijo de puta”. Hein?! Quase fiquei na celinha de Ezeiza.
4) Algumas reportagens importantes me deram dores de cabeça tão intensas quanto elas. Fui processado duas vezes. Um político corrupto se queixou ao Judiciário que eu tornei públicos aqueles 15% que o enriqueciam. Não deu em nada. Era verdade! Um nazista, o Sigfried Ellwanger, me processou porque escrevi que ele era nazista. Mas fazer o quê? Ele era! De novo me livrei da bronca. Teve a vez em que entrevistei um famoso escritor, de outro país, e o cara reclamou do conteúdo que publiquei. Quando vi meu nome e o nome da Folha nas agências de notícias internacionais, agradeci aos céus por ter gravado as declarações daquele baita cara cujo nome vou omitir. Era verdade! Ele dissera o que dissera e, meses depois, soubemos que o cara estava com Alzheimer.
5) Já nem me lembro em qual das quatro vezes nas quais fui à Venezuela fazer reportagem sobre o chavismo, quase fui preso. Motivo: resolvi fotografar o palácio presidencial de Miraflores. Do nada, pula em cima de mim um soldadinho do ogro Maduro exigindo que eu apagasse a foto, ou iria preso. Nem resisti. A foto não era importante. O cara me viu apagar, assentiu e me liberou. Sorte é que eu não estava acostumado com o telefone do jornal e nem percebi que a foto ficou viva entre os itens apagados. Cheguei à redação de Zero Hora, contei a história, e o pessoal disse que a imagem estava ali. Evidentemente, a publicamos! O detalhe é que a foto em si era desimportante e não seria usada. Diante do contexto, virou um belo documento da brutalidade e, também, da burrice.
…
Mas escrevi esses episódios (engraçados hoje, com a passagem do tempo) porque quero me fixar em um deles. No “Caso Ellwanger”, que acompanhei detidamente em 2003, a Justiça brasileira estabeleceu que antissemitismo é racismo e, portanto, levaria os (verdadeiros) delinquentes que o praticassem ao xilindró sem direito a fiança. E agora me vem a pergunta: Ministério Público, cadê você?! Cheguei até aqui só pra te ver!
Como podem esses criminosos ficarem lamentando publicamente que Hitler não eliminou todos os judeus, que o “Estado sionista” (aquele lugar refundado pra dar a um dos povos mais perseguidos da humanidade o seu único e diminuto país no lar ancestral de onde foi expulso pra sofrer tanto e tão sistematicamente numa crudelíssima diáspora mundo afora) deve ser varrido do mapa. Como podem dizer isso e ficarem impunes?! Estamos diante de uma avalanche de horrores antissemitas completamente permitidos e até incentivados.
Cadê você, Ministério Público?!
Ou vão me dizer que aquela decisão do Caso Ellwanger, mais de 20 anos atrás, caducou?
Se ela está em vigor, como creio que está, deveria faltar cela pra tanto bandido.
Isso deveria ser “claro como o sol raiou”.
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“Pois não posso, não devo, não quero viver como toda essa gente insiste em viver, e não posso aceitar qualquer sacanagem ser coisa normal. Bola de meia, bola de gude, um solidário não quer solidão. Toda vez que a tristeza me alcança, um menino me dá a mão.”
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6) Sim, um extemporâneo item seis pra fechar a lista das minhas quase delinquências. Mas aí é no meu íntimo. Prefiro não revelar o inconfessável desejo que sinto em relação a esses antissemitas e aos levianos sedizentes humanistas e intelectuais, hipócritas que escrevem absurdos em redes sociais, revivendo pesadelos e resgatando traumas transgeracionais. Eu iria preso só pelos meus pensamentos, porque são maus, muito maus.
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Tantas vezes na vida fui solidário. Me tirem da solidão!
Não sejamos “vidas pequenas na esquina”.
…
Shabat shalom!
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Foto da Capa: Gerada por IA.

