
“Numa certa tarde, na casa do velho militar, aprendi a atirar com ele, que criava coelhos para comer, mas não tinha coragem de matá-los. Aquele amante dos animais, me explicando as atitudes culturais que distinguiam aquela região, explicou-as da seguinte maneira: ‘Por exemplo, se homossexuais chegassem à nossa cidade, nós os mataríamos.'”
Nicholas Mueellner – In Most Tides an Island,
A lógica cultural que subjetivamente nos envolve imprimiu a ideia de que a definição do gênero só se estabelece e se estabiliza mediante um posicionamento heterossexual, de tal maneira que as ameaças à heterossexualidade são interpretadas como ameaças ao próprio gênero.
Como consequência, o medo de termos desejos homossexuais pode provocar – no homem ou na mulher – o pânico de estarem perdendo sua masculinidade ou sua feminilidade.
Assim, o desejo homossexual produz no homem o temor de ser encarado como uma personalidade feminina, “de não ser um homem como se deve ser”, enfim, uma figura fracassada, degenerada, abjeta. E as consequências serão múltiplas e ameaçadoras no seio do convívio social (e familiar).
O tabu contra a homossexualidade gera disposições e atitudes heterossexuais às quais possibilitam o conflito edípico.
O menino ou a menina que introjetam o drama edípico com sentimentos incestuosos heterossexuais já foram submetidos às proibições que os colocam em direções e comportamentos sexuais definidos.
Assim, as disposições que, segundo Freud, são fatos primários ou essenciais da vida sexual, resultam em leis que, uma vez assimiladas, geram e regulam as identidades diferenciadas da sexualidade e do gênero. Essas disposições, longe de serem naturais, são a consequência de um procedimento cujo propósito é o de dissimular sua própria origem. Tais disposições são marcas de uma história de conceitos e preconceitos impostos, tão explicitados quanto profundos e subjetivados indelevelmente através do tempo.
E todos atuam não somente como um código excludente, como um castigo expresso nas leis, e separando, pois, o legítimo e ilegítimo, o legal do ilegal, o pecado da virtude. Porém, um fato biológico incontestável e inevitável é que os genes humanos apenas codificam proteínas e não comportamentos.
Geralmente, as cidades e países são apodados na retórica literária como lugares de decadência e pecado, mais particularmente como decadência e pecados de ordem sexual.
O uso da semântica nos últimos anos, nela, não encontramos apenas uma transvolarização de todos os nossos valores éticos e estéticos, mas também uma transformação da linguagem. As palavras sofreram uma profunda mudança de significado. Essas palavras, que antes eram usadas com sentido descritivo e lógico, agora são usadas como palavras mágicas destinadas a produzir efeitos, provocar comoções e carregadas de sentimentos e paixões violentas e irracionais.
Sodoma e Gomorra são pontos bíblicos de referência para a fonte da ansiedade sexual, em que a homossexualidade, a mistura racial e a pobreza das populações, divulgadas pela ideologia fascista, têm maior probabilidade de ser ouvidas e emocionalmente sensibilizadas.
E, quando nossa cidade-capital e nosso país são comandados por homens primitivos, toscos, homofóbicos e pregadores da violência e de terror, diante de terapêuticas científicas corretas, mas amaldiçoadas (“vacinas produzem maricas ou jacarés”, sic) com intuito de provocar terror nas populações desinformadas como solução de pretensos pecados (e para ganhar votos), devemos nos pôr em guarda e, politicamente, agir intelectual, constante e incisivamente.
Para nós, não existem alternativas.
A violência é apanágio e prática deles.
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Franklin Cunha é médico e membro da Academia Rio-Grandense de Letras.