
Em 1989 tivemos a primeira eleição direta para presidente da República, depois de quase três décadas de uma ditadura cruel, que torturou, matou, segregou, caçou direitos fundamentais da população em nome do “saneamento do país”. Saneamento cruel, que resultou em muitos jovens assassinados e famílias inteiras dizimadas. Mas a sujeira, na verdade, estava debaixo dos tapetes do poder. Fomos às urnas escolher o sucessor de José Sarney, que assumiu a presidência em 1985, após a morte de Tancredo Neves, que, eleito por um colégio eleitoral, seria o primeiro civil a presidir o país após 21 anos de ditadura — 1964 a 1985. O último ditador foi o general João Figueiredo.
Fernando Collor de Mello venceu a eleição em 1989 e assumiu em 15 de março de 1990. Concorriam políticos influentes: Mário Covas/PSDB, Paulo Maluf/PDS, Ulisses Guimarães/PMDB, Leonel Brizola/PDT, Luiz Inácio Lula da Silva/PT. Os menos conhecidos eram Roberto Freire/PCB e Collor/PRN, conhecido como “Caçador de Marajás”. As eleições foram realizadas em dois turnos. Lula e Collor chegaram ao segundo. Lula, representando as forças políticas de esquerda, recebeu apoio dos movimentos populares e sindicais. Defendia um programa de mudanças na estrutura socioeconômica do país em busca de um modelo socialista. Collor, alagoano de família de políticos tradicionais, vinha amparado pelo PRN, partido insignificante. Recebeu apoio de forças conservadoras de interesses retrógrados, como o grande latifúndio e de grandes industriais e banqueiros.
A campanha eleitoral de 1989
Collor usou os recursos disponíveis, que podemos chamar de apelo demagógico, para derrotar o adversário. Personalista e exibicionista, passou para a população a imagem de um político que lutava contra a corrupção. Foi chamado de “caçador de marajás” pela sua oposição aos políticos e servidores públicos que recebiam salários extremamente altos. Conseguiu ainda apresentar-se como candidato das camadas mais pobres, que em sua campanha foram chamadas de “descamisados”. Ao divulgar falsas ideias sobre o candidato adversário e o cenário político num provável governo de Lula, conseguiu amedrontar a população. Na área econômica, seu programa de governo era explicitamente neoliberal e previa privatização de empresas estatais e abertura da economia à competição internacional. Collor venceu com 35 milhões de votos. Lula obteve cerca de 30 milhões.
A economia e a governabilidade
O Ministério da Fazenda foi ocupado por Zélia Cardoso de Mello, que colocou em prática o Plano de Reconstrução Nacional, ou Plano Collor. No início do governo, foram tomadas medidas econômicas de grande impacto para solucionar a grave crise da hiperinflação. Salários e preços foram congelados. Depósitos bancários foram confiscados por 18 meses. A inflação foi controlada por pouco tempo, e a recessão e o agravamento da crise econômica afetaram a popularidade do presidente. No Congresso Nacional, Collor perdeu apoio e seu governo enfraqueceu.
Denúncias de corrupção
Além da queda de popularidade e da erosão da base parlamentar, Collor foi alvo de denúncias de corrupção. Vários ministros e assessores, além da sua esposa Rosane Collor, foram acusados de desvio de verbas públicas. Em maio de 1992, um desentendimento familiar levou seu irmão Pedro Collor a denunciar um extenso esquema de corrupção no governo, comandado pelo tesoureiro da campanha presidencial, o empresário Paulo César Farias. O Congresso Nacional foi pressionado a instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito/CPI para investigar as denúncias. O relatório final apontou vínculos entre Collor e Paulo César Farias. O processo de impeachment foi aberto e paralisou o país por meses. Nas ruas, setores organizados da sociedade pediam o afastamento de Collor. As maiores manifestações foram promovidas por estudantes universitários e secundaristas, chamados de “caras pintadas” pelo verde e amarelo nos rostos.
A renúncia de Collor
Ao enfrentar a oposição de parlamentares do Congresso e manifestações de rua cada vez mais expressivas, Collor ficou isolado política e socialmente. Numa sessão histórica, em 29 de setembro de 1992, o Congresso Nacional decidiu pela aprovação do impeachment. Para evitar, Collor renunciou em 30 de dezembro. Pela primeira vez na história republicana do Brasil, um presidente eleito pelo voto direto era afastado por vias democráticas, sem recurso a golpes e outros meios ilegais.
O texto acima foi inspirado em escritos de Renato Cancian, mestre em sociologia política e doutor em ciências sociais, autor do livro “Comissão Justiça e Paz de São Paulo: gênese e atuação política – 1972-1985” (EdUFSCar/2005).
E aí chego à delicadeza perdida.
Releitura de um texto escrito em dezembro de 1990
Diante desse panorama, em 10 de dezembro de 1990, vi um programa sobre Chico Buarque na TV Manchete e me dei conta de que vivia no país da delicadeza perdida. Violência, miséria, injustiça social, impunidade e abuso estavam impregnados na nossa pele. Nossos olhos refletiam o desespero de alguns olhares e a apatia de milhares de rostos. Nossos ouvidos não estranhavam o atordoamento de algumas vozes e o silêncio da maioria. Nosso corpo absorveu o cansaço de corpos famintos e desesperançados que cruzavam as ruas em busca de quase nada. Nossa consciência latejava, mas arrumava jeitos de amortecer. Nosso amor não resistia aos contratempos. Já não tínhamos quase fôlego, mas sonhávamos com o amanhã. Só que de braços cruzados! Teorizávamos, é verdade. Satisfazíamos nossos egos com discursos brilhantes. Mergulhávamos nas causas além de nós, debruçados nas nossas janelas, enquanto disfarçávamos a implacável impotência que nos assaltava. Perdíamos a delicadeza e, embrutecidos diante de tanta impossibilidade, nos escondíamos.
Neste ano de 2026, não podemos vacilar. O que está em jogo é a soberania brasileira. É a nossa Constituição. São os nossos valores e direitos. Não podemos aceitar que a discriminação e os abusos já escancarados pela extrema direita tenham mais força do que a vida que queremos e merecemos. A luta é coletiva e juntos vamos defender a nossa democracia.