
Em tempos de antissemitismo renovado, acho importante não se deter só nele, e poder falar também da condição judaica. E, como conta a piada das duas sinagogas construídas por um só judeu perdido em uma ilha deserta para que, em uma delas, ele não entrasse, há tantas condições judaicas para quantos judeus houver neste mundo. Abordarei, portanto, a minha.
Para além da ética, da religião e da própria cultura judaica, ela é decisiva para o que mais faço nesta vida, ainda hoje. Se faço muita poesia, tenho a noção e a leitura de que essa poesia foi muito valorizada e feita no primeiro livro, o dos livros. O Cântico dos Cânticos, por exemplo, é poesia pura e, como tal, celebra o amor. Seria eu um poeta se essa tradição não tivesse começado ali? Eu faria perguntas se não tivesse acesso a essa tradição? Haveria saúde mental sem fanatismo, não houvesse dúvidas e perguntas delas decorrentes?
Obrigado, Rei Salomão, judeu, amante, poeta. Mas o livro dos livros é feito sobretudo de prosa e histórias, como a dos Patriarcas que, depois de criado o mundo (e devidamente contado), começaram os trabalhos da comunidade. Ou as de Jó, que recuperou os seus perdidos, e todas as outras de todos os temas que compõem os nossos livros, nossos mitos, nossa realidade. Ali se aprendeu a contar e a entender que, sem palavras, a gente não transmite e, sem transmissão, não sobrevive.
Não ao acaso, mas graças às palavras, o povo judeu é o único que sobreviveu entre os ditos povos antigos. Amos Oz escreveu com a filha um livro só sobre os judeus e as palavras, historiando tudo isso. Fizesse eu o meu próprio livro, escreveria que dedico as melhores horas de meus dias a escrever livros repletos de palavras, e a ouvir pessoas com suas histórias igualmente plenas delas. E tudo isso, justo por causa das palavras que acabo de escrever, é muito judaico.
Entre as histórias que escrevo, estão as de meus dois avós, ambos sobreviventes aos pogroms europeus do século passado. Um dos avôs era muito falante, contando tudo o que viveu e depois escrevi, direta ou indiretamente, base de meu trabalho como escritor. O outro avô não contava e, assim, transmitia a importância do trauma e de romper o silêncio para recuperar histórias, base do meu trabalho como psicanalista.
Entre a poesia e a narrativa, encontra-se a minha condição judaica que, ao contrário da piada que começou o texto, não me impede de entrar em qualquer outra sinagoga. Ainda que não as frequente com assiduidade, minha condição judaica se nutriu do melhor do judaísmo, que é a tolerância adquirida por quem valoriza contar, ouvir, ler, escrever, por isso ela é aberta às outras culturas, aos outros povos, aos outros Estados e às outras histórias, ao mesmo tempo tão diferentes e tão parecidas, mesmo que alguns políticos, judeus e não judeus, não entrem nessa minha sinagoga.