
Em 1991, quem éramos? Que sonhos carregávamos? Que mundo existia ao nosso redor?
Enquanto o Brasil ainda se acostumava com a redemocratização, o país assistia ao desgaste acelerado do governo do primeiro presidente eleito pelo voto popular depois de duas décadas de Ditadura Militar. Desde o início do mandato, Fernando Collor de Mello demonstrava não estar preparado para ocupar o cargo que exercia. A insatisfação popular, as denúncias de corrupção e os escândalos envolvendo sua família conduziram o primeiro presidente da Nova República ao título que nenhum governante desejaria carregar: o de primeiro presidente brasileiro a sofrer um processo de impeachment.
Na televisão, as banheiras do Gugu e as dançarinas de auditório, sempre seminuas, preparavam o caminho para o sucesso das futuras Tiazinhas e Feiticeiras. Exibir corpos femininos parecia garantir mais audiência em rede nacional do que programas inteligentes e conteúdos de qualidade. Durante muito tempo, senti vergonha alheia por todas as mulheres que se submetiam àquele papel tão depreciativo. Hoje, compreendendo melhor as poucas oportunidades oferecidas às mulheres que desejavam construir uma carreira na televisão naquela época, consigo olhar para muitas delas com mais empatia.
Na Rede Globo, outro fenômeno conquistava o público. Muito antes de a saga Crepúsculo transformar vampiros em uma febre mundial, a novela Vamp já explorava esse universo fantástico. Cláudia Ohana interpretava Natasha, uma cantora de rock que vendia a alma em Veneza ao carismático Conde Vlad, vivido por Ney Latorraca, em troca da fama internacional. Misturando humor, romance e fantasia, a novela tornou-se um dos grandes sucessos da década e marcou uma geração de telespectadores.
Naquele mesmo ano, Freddie Mercury revelava ao mundo ser portador do vírus HIV. Depois de anos de rumores e do silêncio imposto pelo preconceito que cercava a AIDS, o vocalista do Queen divulgou um comunicado confirmando a doença. Menos de vinte e quatro horas depois, morria aos 45 anos, deixando milhões de fãs em luto.
Em 1991, eu era uma menina de 11 anos, cursava a quinta série do antigo primeiro grau e ainda não tinha planos definidos para o futuro. Minhas maiores preocupações eram tirar boas notas na escola e preservar as poucas amizades que começavam a se formar. O mundo parecia distante das minhas pequenas certezas, embora, ao redor, tudo estivesse mudando rapidamente.
É também em 1991 que as universitárias Charlote e Leona passam as noites de sexta-feira em um ônibus que faz o itinerário entre a capital gaúcha e uma cidade do interior. Gaiola de esperar tempestades, romance de estreia de Gabriela Richinitti, narra a convivência de duas desconhecidas que se tornam cúmplices de uma intimidade restrita àquele espaço. Charlote está prestes a se formar em Direito quando as viagens são interrompidas por uma tragédia. Décadas depois, com o casamento em crise, ela decide reencontrar a antiga companheira e inicia uma investigação conduzida por memórias fragmentadas, suposições e um desejo que desafia a razão.
Embora o desfecho não tenha me surpreendido e eu também não tenha me identificado com as personagens, a ambientação do romance foi tão bem construída que mergulhei de cabeça em suas páginas. As referências históricas e musicais, os costumes da época, os acontecimentos políticos e os pequenos detalhes do cotidiano transportaram-me de volta àquele início dos anos 1990 que marcou uma geração inteira.
A leitura de Gaiola de esperar tempestades, para quem viveu 1991, desperta memórias de uma época em que o país reaprendia a viver a democracia, o rock embalava os rádios, as novelas pautavam as conversas e as transformações políticas dividiam espaço com as descobertas da adolescência e da juventude. Ao acompanhar a trajetória de Charlote e Leona, o leitor também revisita um Brasil que já não existe, mas que permanece vivo nas lembranças de quem atravessou aqueles anos.