Faz muito tempo que eu conheço a Letícia Bispo, que é revisora. Acompanhei-a no Grupo A, com quem editei vários livros e, depois, na editora AGE, com quem voltei a trabalhar, publicando um livro de crônicas. Vem de longe a minha parceria com a Letícia e sua disponibilidade para corrigir um texto sempre repleto de erros gramaticais ou questões ainda mais sérias. Gente batuta da literatura, como o poeta Ezra Pound, considerava-os verdadeiros crimes. Neste sentido, a Letícia tenta me absolver ou pelo menos atenuar os meus delitos.
Sei que estou passando pano em algo muito grave. É difícil acertar um texto, brigar com a palavra até que ela diga o que a gente tentou dizer, conforme a expressão de um poeta mais próximo, e não menor do que o Pound, o Quintana.
Difícil? Impossível, e uma revisora é esta pessoa corajosa que topa a utopia de almejar um texto perfeito. No fundo, ela é como um autor que, mesmo depois de tantas páginas, ainda não desistiu do milagre de ordenar em palavras impressas as intenções fugidias.
Foi assim de novo com a Letícia, a gente vendo juntos cada aposto, cada vírgula, cada adjetivo, cada construção gramatical. Vendo, revendo, reconstruindo. Por vezes, a simples troca do pronome era capaz de abrir um vão de significado. Ou um corte impiedoso podia aproximar-se do que, lá atrás, tentamos dizer. Lutávamos para relativizar o que outro grande poeta vaticinou: a luta com as palavras é a mais vã, embora ele a topasse, com rima e esperança, a cada manhã.
Ali estávamos a Letícia e eu, uma dupla corajosa tentando salvar um texto em comum. E generosos, pensando no terceiro, um leitor que merece o melhor da nossa expressão e nada tem a ver com as nossas imperfeições. Rigorosa, a Letícia não deixava passar nada, ao contrário de um autor que costuma se iludir com a suficiência das suas intenções comovidas. Foi assim que, depois de varar o título, a apresentação e mesmo o sumário, a Letícia partiu para defender o bem-estar das epígrafes, esses trechinhos que pinçamos de outros autores, aqui e ali, como forma de ecoar a nossa própria autoria. Então, voltando ao Drummond, ela questionou se seria liberdade poética eu haver trocado um verso do mestre.
Trocado, Letícia? Como assim? Assim mesmo, colocando que os meus ombros suportavam o mundo, quando, na verdade dos fatos originalmente escritos, quem os suportava eram os ombros dele. Não, Letícia, não foi liberdade poética, mas a prisão constante do erro, apesar de tantas leituras daquele “Sentimento do Mundo”. Sim, eu me enganei.
Foi nessa hora que a revisora nos fez pensar na presença não de um erro, mas de um ato falho vestido de liberdade poética, a ponto de eu me apropriar dos ombros do outro. De tanto lê-lo, enfim, eles já eram meus.
Uma revisora não é somente aquela que, utopicamente, propõe-se a salvar um texto. Ela faz mais, podendo até mesmo libertar o próprio autor da ignorância de suas verdadeiras intenções.
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