Hoje estou completando 59 anos. Esperando, ansiosamente, para daqui a um ano ter o direito aos 50% de desconto em shows e gratuidade nas passagens, entre outros direitos.
Mas quando a gente se torna uma pessoa velha? Quando começam a nos enxergar como pessoa idosa?
Uma vez li e adotei para mim que devíamos substituir o verbo crescer por envelhecer, dizendo “Fulano está envelhecendo” em vez de “Fulano está crescendo” para assim tomarmos consciência de que nosso processo de envelhecimento inicia no nascimento e nosso ciclo de vida ruma para a velhice.
Definir a nossa idade, especialmente como a sentimos, é uma coisa complexa. Vai além da que consta na nossa carteira de identidade. Na primeira vez que me chamaram de senhora, lembro bem quando foi, naquela hora me senti muito mais velha do que os 37 anos que tinha na época.
Na gerontologia, a ciência que estuda o envelhecimento, indica que temos quatro diferentes tipos de idade convivendo simultaneamente na gente.
Idade Cronológica: É a idade medida em anos, desde o dia do nosso nascimento até a data atual. É a que consta no nosso RG, a forma mais comum de medir a idade.
Idade Biológica: É a idade que reflete o estado físico e biológico de uma pessoa. Ela é diferente da idade cronológica, pois algumas pessoas podem ter uma idade biológica mais avançada ou mais jovem do que sua idade cronológica. A idade biológica é influenciada por fatores como estilo de vida, genética, ambiente, etc. Assim, pessoas que trabalham em escritórios, utilizam plano de saúde privado, têm condições financeiras para fazer uso de academia, melhor alimentação e transportarem-se de carro, têm a tendência de possuir uma idade biológica menor do que a sua idade cronológica, por exemplo.
Idade Psicológica: É a idade que reflete a maturidade emocional e psicológica de uma pessoa. Pode ser influenciada por fatores como experiências de vida, personalidade, autoestima, etc. A idade psicológica pode ser diferente da idade cronológica, pois algumas pessoas podem ter uma maturidade emocional mais avançada ou mais jovem do que sua idade cronológica. Por conta da existência da idade psicológica, sabemos que há idosos imaturos e jovens de muito bom senso. No entanto, convivemos com os estereótipos de que as pessoas idosas são sábias e os jovens imaturos.
Idade Social: É a idade que é percebida pela sociedade e é influenciada por normas e expectativas sociais. Pode variar de acordo com a cultura e o contexto social. Por exemplo, em algumas culturas, uma pessoa pode ser considerada “idosa” mais cedo ou mais tarde do que em outras culturas. Um exemplo com relação a profissões, na área de tecnologia ou publicidade e propaganda, os profissionais costumam “envelhecer” mais cedo. Outro é aquela “norma” que dita “como mulheres mais velhas devem se vestir”.
Vivendo ao mesmo tempo dentro da gente, os conflitos aparecem, acolhê-los, compreendê-los e lidar com eles fará parte do nosso processo de envelhecimento. Para mim, para envelhecer bem, é preciso aceitação e rebeldia.
Hoje, aos 59 anos, me sinto orgulhosa e honrada quando me identificam como uma pessoa idosa, ou uma velha mulher, não vejo nisso rebaixamento, porque para mim essas palavras foram ressignificadas. Compreendo que a visão das pessoas não seja como a minha, pois é sabido que o idadismo, o preconceito com relação à idade, é muito grande. Mas o que as pessoas pensam e como elas agem fala a respeito delas, não sobre mim.
Hoje, aos 59 anos, entendo que tenho limites no meu corpo que preciso cuidar. Aliás, convivo com alguns desde muito nova, como a visão comprometida desde a infância. Com o passar do tempo, outros limites foram sendo incluídos e, mesmo com todos os cuidados que exerço, sei que terei novidades com as quais precisarei lidar com o envelhecimento.
E para isso tudo, aceitação.
Hoje, aos 59 anos, percebo o quanto é importante a gente dar um grande f*da-se para as tais regras e normas sociais que não fazem sentido para a gente Rir. Brincar. Arriscar. Vestir a roupa que disseram que não era para o meu corpo porque tinha quadril demais, seio demais, era velha demais. Ter coragem de errar.
Hoje, aos 59 anos, aprendi que se apresentar meu desconforto diante do abuso alheio é uma forma de prevenir doenças, que dar limites para quem não reconhece meu valor é preservar meu espaço.
Hoje, aos 59 anos, descobri que sou feliz na minha solitude, inteira, completa, mas que essa autonomia não significa autossuficiência, pois dependo de muitas pessoas, pois construí uma rede de conexões de amizades e família, com a qual me sinto protegida e apoiada. E essa comunidade que me nutre, também busco nutrir.
Hoje, aos 59 anos, tenho consciência de que não me basta olhar apenas para mim, preciso atuar para a evolução do coletivo.
E para tudo isso, rebeldia.
Olho para o futuro e vejo menos tempo para frente do que tive no passado. Saber isso me traz a consciência de quão valiosa a vida é. Cada segundo dela. Não tenho mais tempo a perder. Não tenho motivo para adiar a alegria, o abraço e a liberdade de viver nos meus termos. Tenho mais confiança de que saberei apreciar cada minuto e cada passo no caminho.
Não vejo a hora de chegar aos 60 anos.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

