
1 – Em algum momento ressurge para quem um dia nadou em piscinas já demolidas, de clubes vanecidos, o cheiro de coisa antiga do cloro, de pisos úmidos em inúteis limpezas contra a umidade que no sul recobre tudo, e a mochila molhada pela toalha e pela sunga, competindo com a manhã na serra, há oito dias que a neblina não cede, assim entendes o fantasmagórico branco de tantos poemas simbolistas, o cheiro de coisa acre do cloro tem voltado com frequência, assim também a lembrança do teu melhor amigo, o piano estridente na sala escura da Marechal Rondon, tantas vezes ias ali com o sax para uns duetos esperançosos, havia a fé no jazz e no blues, e também a arrogância dos que estavam certos, que vocês empunharam em uma incursão na TVE, teu tom de escárnio quando o apresentador perguntou, por que o jazz, e deste de ombros, como se fosse possível outra coisa com um sax e um piano, e naquela noite foste ao estúdio da tevê, morro acima, recém-saído da natação, e o vídeo do programa, que há muito desapareceu entre VHS emboloradas, acusava tua juba endurecida pelo efeito do cloro, e teu amigo estava vivo como tantas coisas aos dezessete, e por sorte a definição da fita não era capaz de captar a confiança que pugnavas por ocultar em teu riso charlatão, e se alguém um dia assistiu à transmissão ao vivo, também terá deixado de perceber outras coisas bonitas como os improvisos ferozes que haviam de melhor com os anos, mas já estavam ali em germe, e ainda estava no futuro o dia em que teu amigo estaria morto, morto há vinte anos como agora, e houve momentos, há momentos em que só o aceitas vivo, como ele era antes que tudo aquilo que nunca entendeste vingasse, e é curioso que o cloro não perca nunca sua definição de coisa que limpa, que esteriliza, que permanece mesmo depois do banho, e que aqui se possa senti-lo no ar, e é mais seguro para ti supor que evola do tanque onde alguém possa ter lavado alguma coisa, crê nisso, crê na umidade exterior da cerração, perora que tudo o que há está no espectro do instante, ou terás de aceitar uma precisão de tua memória, tu que a julgas tão caduca, uma precisão não tão simples de aceitar, não delével como as fitas, não rompível como um piano, não mutável como o lema de que tudo passa.