
Das coisas que pensamos que não precisam ser ditas, quantas, na verdade, não queremos ouvir? Estar presente onde estamos é uma dedicação cada vez mais rara. A exigência e a possibilidade distraem. É mais prático transcrever um mundo sem semitons e ter tempo de estar em outro lugar enquanto estou aqui.
Dizer que é melhor estar onde estamos do que em outro lugar, enquanto estamos onde estamos, não parece dizer muita coisa. Mas é sempre bom e parece a hora de lembrar. Além do que, se for dito, já é melhor que escrito. A “presença presencial” tem um valor diferente do “disponível on-line”.
Para estarmos cada vez mais em lugares acessíveis aos quais não estamos, aceitamos resumos. Pastas prontas, atualizadas. Fotos e certezas. Mas o futuro me espera, esse lugar pra onde vou, pois vivo ele hoje, enquanto me distraio do lugar em que estou. Há caminho que se chegue sem se passar por onde está?
Defender a presença não é condenar a distância. É lembrar de lembrar que tudo tem seu lugar, seu espaço. Se o assunto é estar, todos estão mais perto de nenhum que de um; e conectar muitos vale mais que conectar nenhum.
O giro da ideia de valorizar o estar onde se está é o de irmos aonde queremos que os outros estejam. Mas irmos mesmo, tipo com os pés e a energia e tal. E, quando formos, estaremos; e, quando estivermos, estaremos, não estaremos em outro lugar dizendo que estamos ali.
Muitas coisas estão acontecendo e teremos muitos lugares para escolher estar. E com quem estar. E quem não estava quando poderia ter estado escolhe incerto. A raiz da presença não tem resumo.
Estando onde estou, acho que o que eu acho não é certo, mas é um jeito. (Bem ou mal)-estar é estar, para onde nosso animal volta. Onde seremos elo ou isca.
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André Furtado é, por origem, jornalista; por prática, comunicador, de várias formas e meios. Na vida, curioso; nos Irmãos Rocha!, guitarrista. No POA Inquieta, articulador do Spin Música.