
1 – A verdadeira relação platônica se dá através de um poema, pensava John Donne, um lugar em que duas almas podiam se encontrar para além dos interesses e apelos do mundo, em uma forma de soberania politemporal, fundada a cada leitura.
2 – Um refúgio para o livre pensar, acalentador de fantasias, heresias, ruminações, deleite e ócio, enquanto a realidade se consome em uma guerra que já não entendemos, apesar das exemplares carnificinas diárias.
3 – Sinto-me, muitas vezes, de volta àquele lugar no colégio em que se apresentava um novo conteúdo de matemática, e os primeiros exercícios eram fáceis, até que lá pelo quarto ou quinto se volviam impossíveis, indecifráveis como as notícias de um cotidiano agora esvaziado de princípio e consequências.
4 – Aos cinquenta anos também já não me convencem assim os exemplos. Certa feita, contaram-me de uma professora que, ao lhe solicitarem um exemplo, sonegava-o, sob o argumento de que se desse um teria de dar todos.
5 – Suponho entender estar aí um dos problemas essenciais da comunicação atual: a experiência reduzida ao exemplo individual, narrado com a certeza de quem supõe narrar um evento de valor universal, que deve contar com minha empatia prévia, além de minha efusiva e cardiopictórica aprovação.
6 – Por isso, enquanto o dia finalmente amanhecia ensolarado na serra, pensava em John Donne, no refrigério mental que um poema oferece, em como é capaz de oferecer uma solidária lupa para que nos investiguemos, longe das adesões obrigatórias, das palavras convenientes, das concessões triviais e trivializantes.
7 – Há este espaço, afinal, de liberdade, platônico ao que há de mais platônico em um diálogo, e esta possibilidade de fuga guardada em tantos volumes aqui na prateleira da sala.
8 – Abstenção é palavra que só aflige aos ideólogos.
9 – Foi ali conversar com um poeta e não voltou.
10 – Não seria um mau epitáfio.