Caberia, inicialmente, retomar brevemente conceitos como o princípio de desempenho, a mais-repressão e a razão instrumental. No entanto, dado que tais noções já foram desenvolvidas em textos anteriores, limito-me aqui a acioná-las apenas quando necessário, oferecendo definições sucintas ao longo da argumentação. Ao final do texto, disponibilizo uma lista* das obras nas quais esses conceitos aparecem de forma mais minuciosa.
Vivemos hoje não apenas em uma sociedade do espetáculo, nos termos de Guy Debord, na qual as massas ocupavam um lugar predominantemente passivo diante das grandes mídias; vivemos, sobretudo, em uma sociedade da exibição. O que caracterizava o espetáculo – a concentração, centralização e difusão vertical das imagens – foi radicalmente reconfigurado. Agora, cada indivíduo converte-se em produtor permanente de conteúdo, ofertando sua própria força de trabalho, em geral gratuitamente, às plataformas digitais. Publicar torna-se um ato cotidiano, e “conteúdo” passa a ser qualquer vestígio de si mesmo apresentado ao olhar alheio.
À luz da teoria marxiana, sabemos que as classes sociais fundamentais permanecem sendo duas: burguesia, que detém os meios de produção, e proletariado, cuja única propriedade é a própria força de trabalho. Classificações mais pulverizadas – “classe média alta”, “classe criativa”, “empreendedores de si mesmos” – operam frequentemente como dispositivos ideológicos do liberalismo tardio. Funcionam como formas sofisticadas de alienação, oferecendo ao indivíduo uma ficção de mobilidade enquanto encobrem a continuidade estrutural da exploração.
É nesse cenário que a exibição se torna um mecanismo crucial de incremento e solidificação da divisão de classes. A lógica exibicionista não é neutra. O que se exibe são, sobretudo, mercadorias – produtos, espaços, experiências, vivências editadas. O sujeito passa, assim, a oferecer não apenas sua força de trabalho no sentido clássico, mas também sua intimidade, sua imagem, sua vida cotidiana como matéria-prima para o mercado. A individuação moderna, que Richard Sennett descreve como marcada pela valorização do eu privado, perde densidade e torna-se simples performance pública destinada ao consumo do outro.
Marcuse já indicava que, na sociedade industrial avançada, o sujeito, ao consumir, adquire “uma parte de si mesmo” — ou, mais precisamente, aquilo que acredita ser. A exibição digital intensifica esse mecanismo: cada postagem é uma reafirmação pública da identidade construída no consumo. Forma-se uma lógica perversa e cada vez mais naturalizada: “Existo porque consumo; consumo para existir; exibo o que consumo para confirmar minha existência”. A vida converte-se em vitrine de si própria. Tal ação solidifica, em cada uma de suas ações, o princípio de desempenho e a mais-repressão sob o trabalho alienado. Uma sociedade orientada à satisfação no mercado e consumo – pela primeira vez, conforme pontuado pelo próprio Marcuse, a sublimação é orientada, sintética, plástica, artificial.
Byung-Chul Han, ao analisar a “sociedade da transparência” e o “psiquismo do desempenho”, observa que a subjetividade contemporânea é cada vez mais orientada para a autoprodução, autoexposição e autovigilância. O sujeito, sob o signo neoliberal e da razão instrumental, converte-se em seu próprio vigilante e seu próprio algoz: voluntariamente exibe aquilo que o aprisiona. A exibição, nesse sentido, não é apenas um gesto narcisista; é uma forma atualizada de coerção que transforma o indivíduo em agente da ordem econômica que o domina.
Essa parcela exibida da vida funciona como pedagogia silenciosa da desigualdade. A burguesia exibe seu estilo de vida para afirmar, naturalizar e estetizar sua posição privilegiada; o proletariado exibe fragmentos idealizados de uma vida que não possui, em busca de reconhecimento e pertencimento simbólico. Ambos os movimentos reforçam a mesma estrutura: a centralidade do consumo como critério de valor e existência.
A fronteira entre vida pública e privada, que já se encontrava tensionada, praticamente desfaz-se. Mais ainda: a vida privada só adquire legitimidade quando exibida. A intimidade não é mais o espaço da interioridade, mas um repositório de material para publicação. Tudo precisa ser “instagramável”. O mundo converge para a aparência – e a aparência, para a mercadoria.
Sob esse prisma, a exibição cotidiana funciona como um comportamento contrarrevolucionário. Não porque o indivíduo tenha intenção política ao postar, mas porque o ato de exibir naturaliza a lógica capitalista do consumo incessante, do valor de troca, da competição simbólica e da fetichização das mercadorias. Ela reitera, todos os dias, a crença de que o mundo é aquilo que se pode comprar e mostrar, e que a identidade se organiza em torno da posse. Ou seja, a cada postagem, a lógica capitalista é endossada e validada, e os sujeitos aumentam ainda mais a sua dominação e submissão ao sistema.
Por fim, a sociedade da exibição não apenas reproduz a divisão de classes: ela a estabiliza, estetiza e interioriza. A desigualdade deixa de ser percebida como estrutura econômica e passa a ser vivida como diferença de estilos de vida, diferenças performativas. A exibição, assim, consolida o capitalismo não apenas nas relações materiais, mas no imaginário, nas formas de subjetivação e na própria percepção do que significa existir.
Enquanto o espetáculo precisava de grandes aparelhos midiáticos, a exibição precisa apenas de sujeitos capturados pela lógica da performance. É, portanto, mais profunda, mais capilar, mais eficiente – e mais perigosa. A luta de classes, hoje, disputa também o terreno da visibilidade, da imagem e do desejo.
*Artigos anteriores sobre o tema:
Quando o pensar se torna pedra
Odisseu e a autoconservação
A culpa neoliberal
Esclarecimento, dominação e guerra
Ralf Diego Silva de Souza é psicólogo e professor universitário. Atualmente, é mestrando em Saúde Coletiva pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e possui especialização em Psicologia Hospitalar pela ESUDA. Dedica-se ao estudo aprofundado de temáticas concernentes à Psicanálise Kleiniana, Marxismo, Teoria Crítica e Escola de Frankfurt. ralfsouzapsi@gmail.com
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