Más valiente, não?? Contando, periga a verdade, dizia a vó Baldíria misturando o gauchês e o correntino, como os são-borjenses chamavam (e ainda chamam, acho) o espanhol dos argentinos de Santo Tomé, ali do outro lado do Uruguai.
Lembrei dessas frases, repetidas sempre que um neto fazia alguma arte ou algum adulto cometia um desatino qualquer, vendo a tentativa do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, de impedir que o Brasil assistisse ao triste espetáculo, se não protagonizado diretamente por ele, dirigido e produzido à distância, na noite de 9/madrugada de 10 deste dezembro.
Digo tentativa porque, apesar de ter cortado a transmissão da TV Câmara, esvaziado as galerias, retirado a imprensa de lá, deixado só deputados no plenário e mandado a Polícia Legislativa arrancar o deputado Glauber Braga (Psol/RJ) da cadeira da presidência da Câmara dos Deputados, o Brasil não ficou um minuto sem acompanhar o triste espetáculo de uma noite – mais uma – tragicômica para a política nacional.
Na ânsia de atender interesses da direita – principalmente a bolsonarista –, Hugo Motta incluiu na pauta daquela sessão o projeto de quase anistia aos condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, apelidado de PL da Dosimetria, e a cassação dos mandatos dos deputados Glauber Braga (PSOL/RJ) e Carla Zambelli.
Enquanto direita e esquerda e quetais se digladiavam no plenário, o presidente da Câmara estava em casa. Fazendo o quê? Articulando com quem, ninguém sabia.
Em dado momento, o deputado Glauber Braga (PSOP/RJ) – várias vezes confundido com Glauber Rocha – resolveu correr o risco de se igualar aos direitistas que, em agosto, durante 48 horas, tomaram a mesa da Câmara e só saíram depois de um acordo com o presidente da Casa.
Braga ocupou a cadeira de Motta e disse que ficaria ali até o fim das próprias forças. Aí, Hugo Motta perdeu a chance de demonstrar liderança e assumiu o risco de virar chefe autoritário. Com o psolista não teve acordo.
O pessoal da segurança da Câmara recebeu ordem pra retirar Braga do Plenário. Antes, o presidente da Casa providenciou o corte do sinal da TV Câmara. Já tinha posto a imprensa para fora e mandado retirar até os assessores que estavam no plenário.
Só esqueceu de um pequeno detalhe. Hoje, cada brasileiro pode ser uma TV ambulante e transmitir de onde quiser e quando quiser. O Brasil não ficou um minuto sem imagens daquele triste show.
Todos os deputados presentes estavam com seus celulares ligados. E as primeiras imagens a chegar nas casas de todos nós e em todo lugar onde houvesse uma TV ligada foram da operação policial arrastando um parlamentar, derrubando gente…
A TV Câmara voltou a transmitir pouco depois das sete da noite, quando o presidente Hugo Motta, já bem diminuído na sua condição de liderança, assumiu o lugar que deveria ter ocupado desde a abertura dos trabalhos.
Já era quase manhã de 10 de dezembro quando a sessão foi encerrada. Os deputados aprovaram a redução das penas de todos os condenados pelo 8 de janeiro de 23 – alguns chamados criminosos comuns, entre eles, traficantes de drogas, podem pegar carona na benevolência dos deputados – e a suspensão do mandato de Glauber Braga por seis meses e salvaram o mandato de Carla Zambelli.
Só para lembrar: o deputado esquerdista está suspenso por ter empurrado um direitista para fora da Câmara e chutado a bunda dele já no estacionamento. O provocador tinha ofendido a mãe do deputado. Mas Braga também desperdiçou a chance de diferenciar sua atitude da do pessoal da direita. Por que, quando a segurança chegou, ele não se levantou, denunciou a truculência e se retirou da mesa? Teria sido melhor, não?
O mandato da deputada bolsonarista Carla Zambelli (PL/SP) foi salvo. Também para lembrar: Zambelli foi condenada a 15 anos de cadeia por ter mandado o hacker Walter Delgatti Neto invadir o sistema eletrônico do CNJ e por, tal qual Jane Calamity do século, perseguido, armada com uma pistola, um desafeto nas ruas de São Paulo. Delgatti está preso no Brasil. Zambelli, na Itália. Será que os deputados que salvaram o mandato dela esperavam que ela atuasse na Câmara pelo sistema de “Rome Office”, como um bem-humorado postou nas redes sociais?
E o deputado Hugo Motta? Esse recebe o título de censor mais distraído e malsucedido do Brasil. Não se deu conta, ainda, de que vivemos o tempo do Big Brother, da exposição total.
Mais que isso, o STF já mostrou que a pressa dele em salvar Zambelli resultava em nada. O ministro Alexandre de Moraes – o Xandão que assusta quem quer que seja julgado na Suprema Corte – já anulou a votação e mandou empossar o suplente da nossa Jane Calamity (Zambelli acabou renunciando ao mandato ontem). O Senado vai validar o que a Câmara aprovou – talvez com mais um afrouxamento patrocinado pelo Esperidião Amim, mas Lula já deixou vazar que vai vetar redução das penas.
De efetivo mesmo, naquela noite triste/madrugada, só a suspensão de um deputado e a redução a nada da autoridade do prefeito. Tomara que os companheiros dele, nossos representantes, tenham aprendido: a tecnologia, ao mesmo tempo que dá rapidez e agilidade aos malfeitos, os expõe na mesma velocidade e agilidade. Ninguém mais esconde nada…
Cada cidadão é um Big Brother. Não o da Globo, o do George Orwell a vigiar o outro. E a tecnologia se mostra mais efetiva que qualquer legislação contra a censura…
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Foto da Capa: Reprodução do YouTube

