O sofá começa a balançar. Peço para o meu pai parar de se mexer. “Eu não fiz nada!”, afirma ele. De novo. Olhamos um para a cara do outro, espantados. Recolhemos os gatos em suas caixas de transporte e, ao sair do apartamento, outros vizinhos correm para a escada de incêndio, descendo rapidamente, acreditando que o edifício irá desabar a qualquer instante. Nessa hora, sou tomada por um pânico real, palpável. Atingimos o térreo e, ao chegar no portão, damos conta de que os moradores dos prédios ao redor também correram para a rua. Todos se entreolham, o medo paira no ar. O ano era 2008 e um terremoto de 5,2 na escala Richter, com epicentro no oceano, fez a maior cidade do Brasil chacoalhar.
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Semana passada, Portugal tremeu. Duas vezes seguidas, com dois minutos de intervalo, magnitude 4,1, epicentro em Alenquer, a uns quarenta e poucos quilômetros ao norte da capital. Já é o terceiro sismo desde que estou em terras lusitanas, e não senti nenhum, o que, para uma pessoa intensa como eu, é, digamos, frustrante. Calma, não quero que nada desabe, evidentemente, não quero feridos, nem nada disso. Mas gostaria de vivenciar o poder da Terra, como em 2008, sentir o chão tremer, experienciar a completa falta de controle.
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“O solo não apenas tremia: movia-se em ondas visíveis, como o mar agitado. Vi o chão elevar-se e baixar-se sob meus pés, lançando homens ao ar e fazendo paredes baterem umas nas outras antes de caírem. O abalo veio acompanhado de um rugido profundo, contínuo, que parecia sair da própria Terra, e durou tempo suficiente para que se pudesse compreender que nada permanecia fixo.”
Em 01 de novembro de 1755, um terremoto de magnitude estimada entre 8,5 e 9,0 destruiu Lisboa em cerca de seis minutos. Seis minutos (o tremor dessa semana, para referência, durou cerca de dez segundos). Edifícios inteiros ruíram e, como as casas e igrejas estavam enfeitadas por velas acesas – pois era dia de Todos os Santos, feriado católico – inúmeros incêndios se iniciaram. Quem escapou ileso do abalo e do fogo correu para a beira do rio, onde não havia muitas construções. O tsunami chegou em três ondas, a maior estimada em mais de vinte metros. Os incêndios alimentados pelo vento duraram dias. Além de causar dezenas de milhares de mortes, o evento marcou uma virada histórica: pela primeira vez, um terremoto foi investigado de forma sistemática, levando ao nascimento da sismologia moderna. (Não entendo como Hollywood ainda não percebeu que o maior desastre natural da história da Europa moderna foi mais intrigante do que qualquer roteiro apocalíptico que já produziu: tsunamis, incêndio, terremoto, tudo no mesmo dia, numa das cidades mais ricas do mundo à época. Baseado em fatos reais).
Mas o que o terremoto de 1755 fez, além de destruir Lisboa, foi algo mais difícil de reconstruir: abalou uma certeza. A Europa do século XVIII, ainda muito religiosa, acreditava na ideia de que o mundo seguia uma ordem compreensível e que Deus era justo. E então, num dia de Todos os Santos, enquanto os fiéis rezavam, o chão tremeu, gerando consequências catastróficas. Os maiores pensadores da época escreveram sobre o tema incessantemente, tentando compreender o que havia acontecido, alguns buscando explicações na natureza, outros confrontando o sentido moral do desastre. Kant, Voltaire, Rousseau, Montesquieu, todos tomaram o terremoto como objeto de estudo. Escreveram para compreender, para protestar. O tremor entrou nos tratados, nos ensaios, nas cartas pessoais, na filosofia. O terremoto deixou de ser apenas um evento natural e tornou-se um ponto de inflexão intelectual, um choque que obrigou a Europa a pensar sobre as suas supostas convicções.
Os lisboetas do século XVIII perderam a cidade e, junto com ela, a fé numa certa ordem das coisas. O que o Iluminismo fez com esse vazio foi tentar preenchê-lo com a razão. Mas há perguntas que a razão não responde. O que nos ancora quando tudo balança nem sempre é o que pensávamos. Às vezes, é uma pessoa. Às vezes é uma memória. Uma crença. Às vezes é algo tão pequeno e tão irracional que dá vergonha admitir.
Há algo muito perturbador na ideia de que aquilo que nos sustenta, a base mais elementar de tudo, possa simplesmente… não ser confiável. Passamos a vida construindo sobre o que acreditamos ser sólido: lugares, pessoas, crenças, rotinas, versões de nós mesmos. E de vez em quando algo treme e percebemos que a solidez é uma ilusão gentil que o chão nos oferece, e que aceitamos sem nunca questionar.
Ao perdermos o senso de estabilidade na própria terra embaixo dos nossos pés, o que resta?
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Foto da Capa: Canva

