Sexualidade e erotismo são reinos independentes, embora pertençam ao mesmo universo vital. Reinos com fronteiras indecisas, historicamente mutantes, em perfeita comunicação e mútua interpretação, sem jamais fundir-se inteiramente.
O mesmo ato pode ser erótico ou sexual, conforme o realize um homem ou um animal. O erotismo é desejo sexual e algo mais, e este algo mais é o que constitui sua própria essência. Nutre-se da sexualidade animal, é natureza, mas ao mesmo tempo a desnaturaliza, a supera através dos costumes, da cultura contingente e das gentes.
A sexualidade é simples: o instinto impele o animal para que realize um ato destinado a perpetuar a espécie. É um ato impessoal. Um indivíduo serve à espécie pelo caminho mais direto, simples e eficaz.
Em contraposição, na sociedade humana, o instinto sexual enfrenta um complicado, contraditório e variado sistema de proibições e regras, desde o tabu do incesto até os requisitos legais dos contratos de casamentos, mitos, ritos e rumos diversos. Objeções e objetivos concordantes ou divergentes, ora censurados, ora liberados, variando com a história, com a geografia, com a cultura e mesmo com finalidades inconfessáveis.
Entre o mundo animal e o humano, entre a natureza e a sociedade, há uma nítida linha divisória. A complexidade do ato erótico é uma consequência dessa separação. Os objetivos das diversas organizações sociais não são idênticos entre elas e com a natureza, daí a dupla face do erotismo: por uma parte se apresenta com variadas proibições – mágicas, morais, legais, econômicas, políticas, psíquicas e outras mais, destinadas a impedir que a avalanche sexual submerja o edifício social, destrua as hierarquias e afogue a estrutura social vigente.
A tolerância, por outro lado, cumpre um papel análogo e assim é interpretado.
O carnaval é uma válvula de segurança, uma abertura parcial de uma comporta antes que as águas da barragem – digamos – moral extravasem.
Nesse sentido, o erotismo, limitado no tempo e no espaço como durante os três dias das licenciosas festas “momescas”, defende o grupo social de uma queda na natureza indiferenciada, se opõe à fascinação pelo caos e enfim impede a volta à sexualidade animal.
São procedimentos semelhantes aos do feiticeiro que imita o coaxar das rãs para atrair chuvas e aos do engenheiro que abre uma comporta de uma barragem ou de um canal de irrigação.
Água e sexualidade, ambas são manifestações da energia natural que a sociedade necessita captar e aproveitar para seu benefício e assim impedir um desastre.
O erotismo é a forma de dominação social dos instintos e, neste sentido, pode ser comparado à técnica.
Enfim, o erotismo é a sexualidade socializada e submetida às necessidades dos agrupamentos humanos, força vital expropriada pela sociedade com a finalidade de manter um controlável equilíbrio entre o instinto sexual animal e o prazeroso e criativo erotismo humano (e, por vezes, até mutuamente romântico).
Franklin Cunha é médico e membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

