Acabaram os dias de grandes emoções que levaram o povo brasileiro para as ruas, cantando, dançando, saudando suas origens e sua história para reabastecer as energias. As aulas já começaram e o mês de fevereiro se encaminha para o fim. Temos apenas mais alguns dias e o que precisamos agora é colocar os pés com firmeza no chão, na realidade, para dar conta deste ano de 2026 que já começou tumultuado por uma série de motivos. Então lembrei e cantei suavemente a “Marcha da Quarta-Feira de Cinzas”, canção que tem letra do poeta Vinícius de Moraes e melodia de Carlos Lyra, compositor, violonista e cantor que, em parceria com Roberto Menescal, foi um dos impulsionadores da bossa nova. Lançada em 1963, a “Marcha” virou um clássico da bossa nova e da música de protesto da época. A canção é visionária porque, um ano depois, a ditadura militar foi instaurada cruelmente no país.
“Acabou nosso carnaval / Ninguém ouve cantar canções / Ninguém passa mais / Brincando feliz / E nos corações / Saudades e cinzas / Foi o que restou / Pelas ruas o que se vê / É uma gente que nem se vê / Que nem se sorri / Se beija e se abraça / E sai caminhando / Dançando e cantando / Cantigas de amor / E no entanto é preciso cantar / Mais que nunca é preciso cantar / É preciso cantar e alegrar a cidade / A tristeza que a gente tem / Qualquer dia vai se acabar / Todos vão sorrir / Voltou a esperança / É o povo que dança / Contente da vida / Feliz a cantar / Porque são tantas coisas azuis / E há tão grandes promessas de luz / Tanto amor para amar de que a gente nem sabe / Quem me dera viver pra ver / E brincar outros carnavais / Com a beleza / Dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas / E o povo cantando / Seu canto de paz / Seu canto de paz”.
É uma canção que mistura melancolia, esperança e diz muito também do momento atual que estamos vivendo no Brasil.
É inegável que precisamos de alegria, de lucidez e de um canto de paz que não seja conformista em nome da dignidade que buscamos. É inegável que a arte nos estimula ao tocar com sutileza a nossa sensibilidade e mostrar o quanto saber da nossa ancestralidade, das nossas raízes culturais e do que nos impulsiona no cotidiano é fundamental para fortalecer o nosso estar no mundo e a nossa autonomia como cidadãos e como país.
Sou e sempre fui carnavalesca, da pré-adolescência no salão da Sociedade Cruzeiro em São Francisco de Paula, ao som de marchinhas tradicionais, à Praça Castro Alves em Salvador atrás dos trios elétricos e blocos que enchem de alegria as ruas da capital baiana. Neste ano, meu carnaval foi no aconchego de casa, vendo com muita emoção o povo nas ruas, as escolas de samba representando o povo brasileiro e trazendo nossas raízes para os desfiles na avenida com um canto de paz dançante e lúcido. O baile ao ar livre se espalhou por becos, praças, ruas e avenidas, celebrando a vida em um país que luta pela dignidade e pelo respeito à diversidade da sua gente. Todos embalados pela magia e pelo calor humano, dançando, cantando, vivendo o carnaval na sua plenitude, como se não houvesse amanhã. E assim lembrei também de “Noite dos Mascarados”, canção de Chico Buarque. É carnaval, mas o amanhã vai chegar e tudo vai voltar ao normal. E se “Amanhã tudo volta ao normal / Deixa a festa acabar / Deixa o barco correr / Deixa o dia raiar”.
E o dia raiou para nos acordar e nos chamar para a realidade.
O ano de 2026 definitivamente começou.
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Foto da Capa: Freepik

