O colega professor na UFRN (Natal-RN), Alípio de Souza Filho, vem de publicar excelente artigo de opinião no jornal Folha de São Paulo de 21/10/2025, intitulado “Mestiçagens no Brasil, entre práticas, estigmas e identidade”, que retoma análise mais aprofundada que propôs no seu livro “O menosprezo ao Brasil mestiço e popular: genealogia do elitismo racista na sociedade brasileira” – Editora Intermeios, 2024. Vou juntar-me a ele no essencial de sua linha de pensamento, referente a certo mal-estar, chegando às vezes à recusa hostil dessa categoria racial que se tornou um tanto problemática na contemporaneidade, face a alguns implícitos a explicitar: trata-se da categoria racial dos “pardos”, “mestiços”, “mulatos”, “cafusos”, “impuros” e outros que tais.
Elza Soares foi uma das intérpretes que gravaram, nos anos 80, um hit dos anos 50, “Mulata assanhada”, obra do genial Ataulfo Alves. A marchinha trazia uma letra no mínimo problemática para os tempos atuais; um trecho dizia assim:
Ai, meu Deus, que bom seria
Se voltasse a escravidão
Eu comprava essa mulata
E prendia no meu coração
(…)
Ô, mulata assanhada
Que passa com graça, fazendo pirraça
Fingindo inocente
Tirando o sossego da gente
Antes de continuarmos, corte rápido para uma de minhas aulas na disciplina de Metodologia da Pesquisa, em que se discutia a questão do dado sociodemográfico de muitos questionários de pesquisa, a raça (a ser informada pelo respondente). Diante da elevação da temperatura dos debates entre minhas alunas e alunos, e à guisa de um pequeno experimento prático para alimentar (incendiar de vez, talvez…) o debate, perguntei à turma quem dentre os alunos classificaria a mim, professor, como homem branco. Mais ou menos um terço do grupo assentiu com essa classificação. Em seguida, perguntei quem me classificaria como homem preto: outro terço concordou com essa categorização para mim. Finalmente, o terço restante aguardava a proposição “pardo” para opinar no sentido de que essa deveria ser a mais justa classificação para mim. Na sequência, houve um debate interessante acerca das razões de cada membro de cada um desses três grupos de avaliação para uma mesma pessoa…
Nessa mesma ordem de ideias, participei recentemente do que chamamos, no linguajar contemporâneo, de uma “live”, e, atendendo a uma das regras do debate, fiz a minha autodescrição, voltada para pessoas que não me pudessem ver. Nessa autodescrição, entre outros pontos, me apresentei como homem “pardo”. Foi o suficiente para gerar certo zum-zum-zum no tráfego de mensagens em paralelo à live, em que alguns se queixavam dessa minha autodescrição, por conta de que eu seria claramente um homem branco. Outros me consideraram preto. E ninguém veio em minha defesa, concedendo-me o direito de me autoidentificar como pardo.
O que claramente está em jogo nessa disputa é a entrada em cena, nessas identificações raciais, de aspectos que vão além do fenotípico, ou mesmo de uma biografia familiar, como a minha, abarcando sangue xucuru (da Serra do Ororubá, agreste pernambucano), sangue negro dos trabalhadores da cana de açúcar da zona da mata desse mesmo estado, e finalmente sangue branco holandês oriundo da invasão dos liderados por Maurício de Nassau em terras de Recife, Olinda e glebas vizinhas. Esta narrativa seria suficiente para caracterizar uma mestiçagem indubitável, mas isso não contempla um ponto crucial na contemporaneidade, para esse tipo de classificação, que é meu lugar social (e dos demais membros de minha família). Um colega próximo, em defesa de minha assimilação à categoria dos brancos, afirmou categoricamente que meu lugar social não me permitiria a inserção em outro lugar que não aquele dos “brancos”. Ser “preto”, dizia esse colega, significa estar em lugar social de exclusão, e esse seria o ponto definidor por excelência, para além da carga genético-fenotípica da pessoa. O ponto que resta mal-resolvido, nesse debate/embate, diz respeito justamente à categoria dos pardos. Para muitos com participação ativa em movimentos e lutas antirracistas, os tais pardos deveriam ser assimilados à categoria dos pretos, ponto final. Mas, nesse caso, como ficaria outra modalidade de “pardos”, aquela oriunda de outras mestiçagens – brancos ou pretos com índios, por exemplo, outrora denominados, respectivamente, caboclos e cafuzos? Sem falar dos descendentes mestiços da raça amarela-japonesa com indivíduos de outras origens raciais, que geraram nisseis (filhos de primeira geração), sanseis (netos) e yonseis (bisnetos).
Um problema persiste aqui, problema ressaltado fortemente pelo professor Alípio: trata-se da perspectiva de valorização de raças “puras”, em detrimento de “misturas” geradoras dos mestiços de vários matizes. A resistência à categoria dos pardos, aludida acima, não pode ser completamente assimilada a essa postura de “higiene racial”, mas também não passa incólume a essa questão. Como bem observa o professor Alípio, a defesa da pertinência do caráter mestiço do povo brasileiro (ao invés de negro) tem sido assimilada à postura de “recaída” em ideologia racista de branqueamento do povo brasileiro. Considero haver uma falha de raciocínio argumentativo aqui e me junto à observação clara e direta do colega supracitado, quando chama a atenção para o fato de que a admissão da condição mestiça do povo brasileiro não pode ser acusada de iniciativa de “apagamento” de nossas componentes raciais negra, indígena e mesmo asiática. Tal admissão nos engajaria, ao contrário, no enfrentamento de certo “essencialismo racialista” que, em última análise, “nega a complexidade antropológica do país”, mesmo que a bem de uma luta de ideias que tem mérito inegável.
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O tom da pele brasileira tem múltiplas camadas, nenhuma das quais assimilável a qualquer pureza.
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Foto da Capa: Paulo Pinto / Agência Brasil

