Um verdadeiro clássico do marketing nacional, o slogan “O mundo gira e A Lusitana roda”, da empresa de mudanças A Lusitana, fundada em 1921 pelo Comendador Joaquim Monteiro, tornou-se um bordão da cultura popular. Carrega em si algo da lógica herdada dos imigrantes portugueses e tem o valor inestimável, puro e cristalino da filosofia do homem que sabe que a terra finda onde recomeça.
A proposta de colocar no caminhão de mudanças, encaixotados e sem rumo certo, valores que seriam estranhos a uma visão mais mecanicista não é novidade. Na educação, essa “higienização” livraria as escolas e universidades de incômodos e pseudoobsolecências, tais como a sociologia, a antropologia e a filosofia, não é encomenda recente. Volta e meia aparece quem pede. Ou resolve mandar.
Em sentido inverso, a Drª Gundula Bosch, que dirige a R3 Graduate Science Initiative na Escola de Saúde Pública Johns Hopkins Bloomberg, em Baltimore, Maryland, alerta para a necessidade de treinar estudantes para serem pensadores, não apenas especialistas. Muitos currículos de doutorado têm como objetivo produzir pesquisadores com foco limitado, ao invés de pensadores críticos. Isso pode e deve mudar, afirma ela, em publicação na revista Nature (fev. 2018).
Esse processo teria iniciado e, por razões da geopolítica e interesses econômicos, se expandido, particularmente nos EUA, na segunda metade do século 20, por uma suspeita de que artefatos intelectuais dessas ciências tidas como soft, as nossas humanas, estimulariam a agitação nos campi universitários. Coadunou-se, por conveniência, com a terceirização dos departamentos de desenvolvimento e pesquisa das indústrias nas universidades, definindo – e financiando – currículos e fazendo com que os estudantes tivessem garantidos seus empregos com a graduação. Esse conceito mecanicista parecia apropriado na teoria e válido para todas as áreas.
Na argumentação da autora do artigo, com a pressão para tornar mais rápida e produtiva a formação, muitos programas de doutorado em ciências biomédicas abreviaram seus cursos, eliminando oportunidades de colocar a pesquisa em um contexto mais amplo. Nesse cenário, torna-se improvável que a maioria dos currículos de Philosophy Doctor (PhD) possa nutrir grandes pensadores a criarem as soluções de problemas que a sociedade tanto necessita. Não basta saber todo o ciclo de vida de um microorganismo, mas muito pouco sobre a vida científica. Há necessidade de aprender a reconhecer como os erros podem ocorrer, precisa-se avaliar estudos de pesquisas que não tiveram o esperado sucesso e identificar as falácias lógicas na literatura, mas, acima de tudo, é preciso compreender o processo científico, com suas limitações e potenciais armadilhas, assim como seu lado lúdico, suas descobertas ao acaso e seus grandes desastres.
A implantação do programa, ainda segundo relato da Drª Gundula, enfrentou resistências e ceticismo. Para muitos, a produtividade científica dependeria mais do conhecimento mecânico do que da competência no pensamento crítico. Havia o temor de que cursos interdisciplinares sobre ética, epistemologia e habilidades quantitativas roubassem tempo do conteúdo especializado. A defesa do projeto se sustentou na tese de que pensamento crítico e menos aulas obrigatórias específicas podem proporcionar aos alunos uma produtividade ainda maior.
As discussões interdisciplinares estimulam o pensamento amplo e crítico sobre a ciência, e os alunos passam a considerar as consequências sociais dos avanços de suas pesquisas. Aprendem a aplicar rigor na elaboração e realização de experimentos; ver o trabalho com foco na responsabilidade social: pensar criticamente, comunicar melhor e, assim, melhorar a reprodutibilidade. Discussões em horizontes mais amplos fazem com que os alunos reflitam a respeito dos limites da ciência e o ponto de convergência entre a capacidade do cientista com aquilo que é plausível do ponto de vista moral. Pesquisadores assim educados farão ciência com mais consciência, gerando melhores e mais racionais resultados, e contribuirão de fato para o bem da humanidade. A ciência deve se esforçar para melhorar a si mesma e não apenas se autocorrigir.
Em conclusão, é essa a lacuna que o projeto na Johns Hopkins pretende preencher ao ressaltar a importância de se colocar a filosofia de volta ao doutorado em filosofia – isso é, o “Ph” de volta ao PhD.
Muito tempo antes, William Osler (1849-1919), considerado “pai da medicina moderna” e professor na mesma escola, já recomendava aos seus alunos, para além dos livros técnicos, a leitura de clássicos da literatura, no intuito de melhorar sua educação, não somente como estudantes, mas para torná-los pessoas melhores.
Mais “Ph” no PhD. Seguindo em direção sensata e segura e não na contramão do traçado civilizatório. Vale para todos. Afinal, o mundo gira e A Lusitana roda.
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