Passado um ano e meio das enchentes que devastaram o estado, é essencial refletir sobre o que aprendemos e o que podemos ensinar a partir das experiências vividas. As histórias de quatro pessoas idosas, que enfrentaram a força da natureza de maneiras distintas, revelam as complexidades da vulnerabilidade e da resiliência em tempos de crise.
Histórias de Vida em Meio ao Caos
Em Eldorado do Sul, uma mulher de mais de 70 anos, negra e aposentada, já havia enfrentado outras duas enchentes. A terceira foi a mais devastadora. Com suas forças esgotadas e dependendo do auxílio-aluguel, ela se viu em uma situação de desespero.
Em Canoas, uma idosa que já havia perdido dois filhos e recentemente o marido enfrentava a depressão em sua casa de chão batido. Quando a água chegou, ela não quis sair, mas a insistência dos vizinhos foi crucial para sua sobrevivência.
Em Porto Alegre, catadora de mais de 80 anos, negra e viúva, teve que deixar seu barraco em uma área invadida. Ao retornar, descobriu que sua casa havia sido saqueada, somando mais uma perda à sua já difícil trajetória.
Outro morador da capital, que vivia em uma pensão, perdeu tudo em um instante, deixando-o desolado e sem perspectivas.
Essas histórias são apenas uma fração das 62 que passaram pelo Abrigo Emergencial 60+, o único espaço em Porto Alegre dedicado a acolher as pessoas 60+ durante a inundação em 2024.
Desigualdade em Tempos de Crise
O desastre climático atingiu desproporcionalmente as populações mais vulneráveis, incluindo os 60+. Moradores de áreas de risco, comunidades indígenas e quilombolas enfrentaram as consequências de forma mais severa. A interrupção de serviços essenciais, como saúde e educação, teve um impacto mais agudo sobre aqueles que já dependiam precariamente deles.
Além disso, o impacto na saúde mental foi significativo, criando uma camada de sofrimento que perdurará além da recuperação física. O envelhecimento no Brasil é marcado por desigualdades sociais, fazendo com que muitos idosos enfrentem a velhice em condições precárias de moradia, renda e saúde. Em situações de desastre, essas fragilidades são intensificadas, afetando diretamente a autonomia e o bem-estar.
A Vulnerabilidade dos Idosos em Emergências
A vulnerabilidade das pessoas idosas em emergências é multifacetada. Fatores como mobilidade reduzida, limitações e condições de saúde preexistentes e a necessidade de medicamentos contínuos tornam este grupo particularmente suscetível aos impactos de eventos extremos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) destaca que as pessoas idosas estão entre os grupos mais expostos aos efeitos adversos de emergências, demandando políticas que garantam acessibilidade e suporte psicossocial.
O Abrigo Emergencial 60+: Uma Resposta Necessária
Apesar dos desafios, a resposta ao desastre no Rio Grande do Sul gerou oportunidades para aprimorar o trabalho humanitário voltado para a população idosa. O Abrigo Emergencial 60+ foi resultado da mobilização de profissionais especializados, com o apoio dos Conselhos Municipal e Estadual dos Direitos da Pessoa Idosa. Voluntários, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, psicólogos, médicos, nutricionistas, assistentes sociais, fisioterapeutas, dentistas, entre outros especialistas na área da pessoa idosa, formaram equipes que atuaram 24 horas por dia. Foi o último Abrigo da sociedade civil a fechar suas portas para poder garantir o retorno de todos os acolhidos a espaços seguros.
A transformação de um prédio comercial em um abrigo com 40 camas hospitalares foi uma conquista significativa. Durante quase 100 dias, esse espaço acolheu idosos e seus cuidadores, oferecendo dignidade e condições para recomeçar. Essa experiência revelou uma realidade frequentemente invisível: muitos idosos vivem isolados, sem rede de apoio, em condições precárias.
Porém, a necessidade de abrigos para pessoas idosas naquele período foi muito maior. Na Capital, tivemos 1.877 pessoas idosas entre os 12.513 desabrigados. No RS, foram identificadas 7.457 pessoas idosas entre os 981 abrigos mapeados.
Compartilhar o Aprendizado: Ciência, Cuidado e Memória
No período de funcionamento do Abrigo Emergencial foram inúmeras e riquíssimas experiências vivenciadas, as memórias guardadas e os aprendizados obtidos, em diversas áreas: da nutrição ao advocacy, da enfermagem à assistência social.
Assim, foi decisão das lideranças do Abrigo que elas não poderiam ficar conservadas apenas para aqueles que estiveram no Abrigo, precisavam ser compartilhadas com a sociedade, com o maior número de pessoas, instituições, universidades, profissionais, alunos, gestores públicos.
Afinal, sabemos que já não basta prevenir, agora precisamos nos preparar para remediar danos. Os desastres climáticos estão aí. Não é uma questão de querer ou não, mas de necessitar estar prontos para novas situações de catástrofes e possuir planos claros e viáveis para aqueles que são mais vulneráveis. O recente tornado em Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná, e os oito mortos que já deixou é um triste exemplo disso.
Com este sentido, nesta sexta-feira, dia 14, das 9h às 12h, na UniLaSalle, em Canoas, será promovido o Seminário “Lições Aprendidas: Águas de Maio e a Desproteção da População 60+”, quando também será lançado o livro em formato de e-book “Águas de Maio: a tensão entre o cuidado e a desproteção da População 60+”, para distribuição gratuita. E você está convidado/a; o link segue ao final deste texto.
Ao longo da manhã, serão apresentados três painéis:
9h – Abertura
Painel 1 – A Tensão das Águas – Michelle Clos e Ismael Pereira
Painel 2 – Construindo o Conhecimento a Partir de Práticas de Cuidado – Paulo Bianchini, Karen Garcia de Farias, Melissa Côrtes da Rosa, Katieli Neuenschwander.
Painel 3 – Memórias e Relatos – Silvana Lamers, Marcelo Lima, Tiago de Aguiar Goulart, Marilu da Rosa.
12h – Encerramento
Construindo um Futuro Mais Justo
As enchentes de 2024 nos ensinaram que a vulnerabilidade das pessoas idosas em desastres é uma questão que exige atenção especial. É fundamental que as políticas públicas garantam acessibilidade, continuidade dos cuidados em saúde e suporte psicossocial.
À medida que olhamos para o futuro, é essencial aprender com essas experiências, garantindo que as vozes dos mais vulneráveis sejam ouvidas e que suas necessidades sejam atendidas em momentos de crise. A resiliência pode ser construída, mas depende de um compromisso coletivo em cuidar de todas e todos, especialmente dos que mais precisam. A luta pela dignidade e pela vida dos nossos anciões deve ser uma prioridade em nossas ações e políticas.
Link para se inscrever gratuitamente no Seminário: clique AQUI.
Link para acessar gratuitamente o Livro: clique AQUI.
Todos os textos de Karen Farias estão AQUI.
Foto da Capa: Marcelo Campos / Capa do livro "Águas de Maio: tensão entre o cuidado e a desproteção da População 60+"

