“Meu corpo diz “sim” para tudo”. Fora do contexto, pode parecer uma frase equivocada. No livro em que está e que gostei muitíssimo de ler — Baixo Araguaia, primeiro romance da escritora Maria Lutterbach —, faz sentido. Quem a diz é uma adolescente iniciando sua vida sexual de uma forma benigna. Eu adoro a palavra benigna. Há muitos anos, ainda jovem, quando a li em um laudo de uma punção feita em um nódulo na minha mama esquerda, caí de amores por ela. Enquanto ele não chegava, diversos noemas passavam pela minha cabeça. Um nódulo poderia ser um abismo. Divido abismos em duas categorias: aquele em que podemos nos jogar e voar e aquele que cavamos dentro de nós, esse maligno ao extremo. Diria fatal. Um modo de autossabotagem ou de se autoaniquilar, como aquelas gravações dos filmes dos tempos da Guerra Fria que diziam ‘Essa mensagem vai se autodestruir em três segundos’ ou ‘Queime depois de ler’. Ou seja, o báratro irmão da pulsão de morte, não só do corpo como também da mente que nos traz vida.
Eu vivo escrevendo bilhetes para a minha existência. Instruções em um certo sentido para viver da melhor forma possível. Não chego a ter um manual. Quem me dera possuir um! Certamente, um bocado dos tropeços que dei teriam sido evitados e doído menos. Uma coisa é ter uma pedra no meio do caminho, outra coisa é a gente ter a si próprio como obstáculo dentro de uma espécie de falta de inteligência; da emocional, pelo menos. Daí a importância de uma terapia com um bom profissional. Repara que escrevo ‘bom’. Nossa cabeça é preciosa demais para confiarmos a qualquer pessoa. O coração também. O coração e o corpo, embora esse segundo não demande tantos cuidados. Explico o porquê. Porque o corpo, quando em atrito (eu estava louca para usar essa palavra básica) com outro corpo, foi feito para produzir faíscas. Dependendo dos envolvidos, incêndios. Eu tenho um corpo incendiário, um pouco raivoso, reconheço. Mamífero por excelência.
“Tua ira é teu riso é teu gozo é teu choro é teu tédio é teu ranço é teu lucro é teu colo é teu jogo é teu laço é teu medo é tua ânsia é tua gana é teu erro é teu nojo é teu gasto é teu credo é tua cena é teu jeito que me inventa.” Esses versos estão no livro Panapaná, do poeta brasiliense Guilherme Gontijo Flores. Panapaná, para quem não sabe o significado, é o coletivo de borboletas. Há muitos anos, em uma viagem a Nova Iorque, passei com meu filho no Metropolitan Museum of Art, dentro de um, experiência que desfrutei na mesma proporção em que ele, menino, detestou. Eu não sabia, mas ele havia visto na escola uma série de imagens dos rostos delas. E o que eu posso dizer sobre eles é que, em Alien, o oitavo passageiro, meu segundo Ridley Scott favorito, as lepidópteras se sentiriam em casa. O corpo é uma. No caso de uma parcela da humanidade, do seu erotismo. Essa ideia não é minha. É do Octavio Paz, poeta, ensaísta, tradutor e diplomata mexicano, por quem nutro frondosa admiração e sobre quem passo então a falar da escrita.
Dois livros do Paz tenho como bússolas: A Dupla Chama Amor e Erotismo e Um Mais Além Erótico: Sade. Pelos títulos, dá para se ver que eles conversam. Ou trocam carícias, já que estou a tratar do que nós, humanos, podemos produzir. Entre as definições primeiras do Paz, está a de que o erotismo se desprende da função reprodutiva, a qual nem preciso dizer não implica mais que uma relação sexual em que o representante do mundo masculino deposita seu sêmen em uma fêmea, dispensando qualquer pitada de criatividade e afeto. “O erotismo é invenção, variação incessante; o sexo é sempre o mesmo. O protagonista do ato erótico é o sexo ou, mais exatamente, os sexos. O plural é obrigatório porque, incluindo os chamados prazeres solitários, o desejo sexual inventa sempre um parceiro imaginário… ou muitos. Em todo encontro erótico há um personagem invisível e sempre ativo: a imaginação, o desejo”, escreve Paz no primeiro título. Lendo o que ele disse, o erotismo parece fácil de se alcançar. Na prática, sabemos que não é bem assim e, é claro, que dentro dele cabem graduações. Há infinitas possibilidades e variantes de prazer entre duas pessoas. Talvez, possamos chamar de sorte, não sei, quando nos deparamos com alguém que reconfigura e potencializa tudo o que pensávamos saber sobre sexo, clímax e orgasmos.
Eu tenho, cá comigo, que o erotismo se constitui como os versos de um poema escrito a dois em que a pele torna a alma palpável. Por isso, nada, mesmo o que a moral entende como obsceno ou pornográfico, ofende ou diminui aos envolvidos. Pelo contrário, legitima uma reciprocidade livremente acordada. Paz diz que o erotismo é o reflexo do olhar humano na natureza e que é, ao mesmo tempo, fusão com o mundo animal e ruptura. Explica que o ato erótico nega o mundo em que nada real nos rodeia, exceto nossos fantasmas. Isso, de modo algum (que ninguém confunda alhos com bugalhos), legitima excessos que possam colocar uma pessoa em situação de risco e de humilhação psíquica ou física. Que o prazer e a dor formam uma dupla e que o prazer cofia a dor, sabemos tanto quanto sabemos ser necessária a existência de limites, mas ninguém quer ferir e matar ninguém. No erotismo, o nome do filme não é o Império dos Sentidos. Não se trata de levar a sério a película do Nagisa Oshima, ainda que, sei lá, com alguns copos de vinho, tudo possa parecer tentador.
Todos os textos de Helena Terra estão AQUI.
Foto da Capa: Freepik

