O texto de hoje é sobre algumas experiências tocantes que tive envolvendo uma exposição no Museu de Arte do Rio Grande do Sul, no ano passado. Na verdade, foram três mostras, com propostas distintas, mas com várias coisas em comum: Botannica Tirânica, que já marcou presença em museus em algumas partes do mundo, como a Bienal de Karachi, no Paquistão; Venenosas, Nocivas e Suspeitas, cuja estreia foi em 2024, na FIESP; e a instalação Beleza Corrosiva, em parceria com o artista Léo Caobelli, que já tinha passado pelo CCBB, em São Paulo. O projeto foi financiado pela Sedac, Pró-Cultura, PNAB, com curadoria de Eder Chiodetto.
Antes de mais nada, peço desculpas por não ter postado antes essas linhas. O ideal é que este texto tivesse sido feito enquanto a mostra estava em cartaz. Só que, mesmo não estando mais lá no MARGS, as mensagens, as formas e o conteúdo do trabalho da artista merecem e precisam continuar reverberando. Também porque foi um alívio ver o nosso querido museu recuperado pós-desastre de 2024.
Perguntei para várias pessoas que, – tenho certeza – iriam amar a arte e as inovações apresentadas, mas que não conferiram tudo que foi estruturado no MARGS. Creio que essas linhas poderão incentivar o público a conhecer o trabalho dessa artista que está levantando inúmeras questões que foram apagadas no decorrer da história. Até porque o catálogo da exposição está à venda e há postagens sobre as três exposições no Instagram.
A proposta da Giselle Beiguelman reúne tecnologia, arte, natureza e evoca uma série de injustiças que vêm sendo desveladas. Duas mostras com plantas de verdade, animações e ilustrações inusitadas produzidas por um conjunto de inteligências, a natural das plantas e da autora e a artificial, de programas e equipamentos. Ah, e muita inteligência da produção em fazer tudo acontecer e dar certo!
Quem entrava no MARGS se deparava à esquerda com uma iluminação fria, com paredes brancas, cheias de plantas no centro e imagens produzidas com ajuda da IA em Botannica Tirannica. A artista evidenciou o quanto nomes populares de plantas são preconceituosos, xenófobos e se perpetuam na nossa cultura, como por exemplo, judeu-errante, catinga-de-mulata e peito-de-moça. À direita, com a galeria preta com retratos imaginados de mulheres que foram apagadas pela história cunhada pelo machismo e patriarcado. No meio, uma instalação com muitos quilos de resíduo eletrônico e um imenso telão com uma animação também produzida com ajuda da IA.
Na Venenosas, Nocivas e Suspeitas, confinada entre paredes pretas, o cenário chamava atenção com diferentes recursos o quanto as mulheres – pioneiras da medicina – foram silenciadas ao longo da história por saberem lidar com as propriedades da flora. Tidas como bruxas, muitas foram queimadas nas fogueiras da Inquisição. O valor dos princípios ativos de vegetais que hoje são usados pela indústria farmacêutica também foi outro aspecto apontado.
Assim que fui me apropriando de tantos elementos que me tiravam do lugar comum, me encantando com tudo, me peguei conversando com os meus botões: mas que baita produção, que trabalheira foi ter construído tudo isso! Como lido diariamente com plantinhas de vários tamanhos e características, elas fazem parte da minha vida, da minha rotina, sei o quão desafiador foi executar aquela montagem e ainda mantê-las vivas.
Valorização do nosso capital sociocultural
Ressalto o quanto precisamos valorizar a iniciativa da responsável por trazer essa empreitada artística totalmente fora da curva para Porto Alegre. A coordenação de produção foi da Nonô Joris Arteprodutora. Giuliana Neuman foi quem fez a proponência, o planejamento e a direção geral. Ela merece aplausos e reconhecimento da comunidade, em especial, de quem sabe o significado do que a arte de Giselle representa.
Mesmo sendo óbvio, vale reforçar: só tivemos acesso a algo desse tipo porque temos gente como a Giuliana e a Nonô circulando entre nós, a direção do MARGS que topou a empreitada e a promoção da Secretaria de Estado da Cultura e da Associação dos Amigos do MARGS. Viva nosso capital sociocultural! O projeto envolveu diversas instituições e não foi nada fácil lidar com variáveis de tipos diversos.
Giuliana conta que conheceu a pesquisa sobre a genealogia do preconceito em Botannica Tirannica, quando da inauguração do Museu Judaico de São Paulo. A partir de então, ela mergulhou no maravilhoso mundo da professora titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, Giselle Beiguelman. A artista tem sua origem na História, é autora de livros, como Políticas da Imagem (UBU, 2021), e tem obras em acervos no Brasil e exterior.
Desde o começo, o processo de montagem foi movido por desafios. Giuliana confessou: na pré-produção, teve que administrar a euforia de lidar com as três exposições. Não foi moleza acomodar a complexidade de demandas, tão distintas entre plantas ativas e e-lixo. A partir dos detalhes do projeto expográfico, a produção foi se encarregando de pesquisas sobre equipamentos necessários, recursos específicos e fornecedores. As plantas foram encomendadas direto de Holambra, SP; o lixo eletrônico veio de parceria com cooperativas de resíduos, Paulo Freire e Laguna Sul; os materiais gráficos de sinalização foram produzidos em Porto Alegre e o catálogo foi impresso em Santa Catarina; as imagens foram feitas em Porto Alegre e os mobiliários expositivos também.
A coordenadora de produção ressalta que entre os obstáculos superados esteve o tempo de montagem: em apenas uma semana, as paredes das três pinacotecas do museu foram pintadas, o que equivale a 500 metros quadrados transformados! Foi feita uma aplicação em 300 metros quadrados no piso, instalada a estrutura elétrica e de iluminação e os mobiliários foram montados. Além disso, nesse mesmo período, foi necessário receber, cuidar do verde, das flores e assentar as mudas e espécimes nos espaços adequados.
Fora todas as demandas da exposição propriamente dita, a produção gráfica de materiais de comunicação exigiu uma série de cuidados. Houve um entrosamento muito bem azeitado para dar conta da preparação de todos os detalhes envolvendo a produção local e a realizada em outros estados.
Devido aos recursos e às características dos elementos vivos, o trabalho foi muito além da montagem. Nos seus 77 dias em cartaz, a equipe ligou e desligou a parafernália de equipamentos na abertura e no fechamento da mostra todos os dias. Ainda precisavam regar as plantas duas vezes por semana – e fazer substituições. Alguns espécimes não resistiram às condições museológicas, sem luz natural e com intenso ar-condicionado.
Envolvimento com a comunidade
Um dos aspectos de que mais gostei foi o quanto a mostra mobilizou a participação de públicos diferentes. E vou citar só algumas iniciativas que presenciei. Durante a 71ª Feira do Livro de Porto Alegre, a artista Giselle e o jornalista Marcelo Leite, que veio lançar o livro A Ciência Encantada de Jurema (Fósforo, 2025), conversaram com o público sobre o quanto está enraizada na nossa história a perseguição de usuários que há milênios vem utilizando espécies da flora brasileira.
Em um final de semana, outra iniciativa promoveu o engajamento do público para trocar resíduos eletrônicos pelo catálogo da exposição. Foi lindo ver as pessoas trazerem quilos de fios, celulares obsoletos estragados, eletrodomésticos, entre outros equipamentos, para trocar pelo belo livro repleto de imagens e conteúdo que sintetiza o que rolou nas três exposições.
A manutenção dos jardins também aproximou a equipe de produção dos funcionários e prestadores de serviço do museu, como vigilantes, faxineiras etc. Ao longo do período expositivo, algumas plantas foram ‘adotadas’ por equipes com as quais mais conviviam. Resultado: quem cuidou, regou e se afeiçoou às plantinhas, acabou ganhando de presente parte da mostra viva da exposição. As mudas foram desmembradas e mais de 150 plantas foram doadas, contou a Giuliana. Eu perguntei para uma das moças da portaria do MARGSse já tinham recebido alguma coisa em alguma exposição antes e ela me confessou: foi a primeira vez que uma exposição proporcionou algo para o pessoal da casa. Enquanto estive trocando meus resíduos pelo catálogo, uma prestadora de serviços solicitou um catálogo, bem faceira.
E mais: os equipamentos como regadores, substratos para os vasos e outras 200 mudas para uma horta comunitária foram doados para a EMEI Ponta Grossa, que mantém relacionamento com o núcleo educativo do MARGS. Pais, alunos e professores haviam visitado a exposição e se encantado com a proposta. Nada mais justo do que a horta ter sido batizada de “Naturezas Desviantes”.
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Foto da Capa: Giselle Beiguelman / Acervo da Autora

