“Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.” (Graciliano Ramos, Vidas Secas, 1938).
Um dos trechos mais lembrados da nossa literatura: a morte da cadela Baleia. Suspeitando de hidrofobia (raiva), Fabiano decide sacrificá-la, enquanto Sinhá Vitória leva os dois meninos para dentro de casa, tentando tapar-lhes os ouvidos e poupá-los da tragédia.
Numa situação bem diferente, outro cão foi sacrificado. Em Santa Catarina, um grupo de adolescentes é investigado pela morte de Orelha, animal vítima de maus-tratos na Praia Brava, em Florianópolis. Autoridades foram cobradas por manifestações de redes sociais, moradores e associações que clamam por justiça. Familiares dos jovens também são investigados por coação de testemunhas.
Embora tanto a referência inicial quanto a que motiva essa crônica envolvam o fim de um animal, as razões revelam diferentes estados da condição humana. Em Vidas Secas, o sacrifício é um ato de proteção e dor. Fabiano mata quem ama para evitar um mal maior e para abreviar o sofrimento do bicho e da família. Há uma humanização do animal: Baleia sonha, tem esperança e faz parte da alma daquela família flagelada. Já a morte de Orelha decorre de crueldade. Não há necessidade, não há justificativa; apenas violência.
Se Baleia era a extensão da família de retirantes, Orelha — como afirma em nota a Associação Praia Brava — “fazia parte do cotidiano do bairro há muitos anos […] tornando-se um símbolo simples, porém afetivo, da convivência”. Sua morte representa uma ruptura no tecido social e no respeito ao “outro” que compartilha o mesmo espaço.
O teólogo italiano Paolo Ricca (1936–2024), em artigo publicado no Corriere della Sera em setembro de 2016, escreveu sobre Albert Schweitzer e o seu conceito de “Respeito pela vida”. Schweitzer nasceu na Alsácia em 1875, faleceu em 1965 aos 90 anos. Recebeu — e julgo que merecidamente — o Prêmio Nobel da Paz em 1954. Filho de um pastor protestante luterano, seguiu o pai e, embora tenha exercido a medicina por toda a vida, fez do ofício a sua forma de pregação. Renunciou a uma exitosa carreira universitária em 1913, partiu para a África equatorial e fundou um hospital em Lambaréné, no Gabão. Passou a vida cuidando dos africanos; foi chamado de “médico da selva”. Para Paolo Ricca, ele foi um “médico da consciência europeia” para tentar curá-la da doença do colonialismo, da violência e guerra, inclusive aquela feita contra os animais.
“Respeito pela vida” traduz apenas parte da expressão alemã original: “Ehrfurcht vor dem Leben”, algo como “santo temor — ou reverência — diante da vida”. Esse conceito de “Reverência pela Vida”, proposto por Albert Schweitzer, poderia oferecer a cura ética para situações como a de Orelha.
Se tivéssemos essa “reverência”, entenderíamos que a vida não nos pertence para ser descartada ou violada por puro arbítrio. Para Schweitzer, o homem só é verdadeiramente moral quando a sua preocupação ultrapassa a espécie humana e alcança as plantas e os animais. A violência contra o animal é vista como uma extensão da “doença da violência” humana. Na linha de Francisco de Assis, a proposta é substituir a lógica do domínio pela lógica da fraternidade.
Enquanto o realismo de Graciliano Ramos nos mostra a tristeza da perda em um mundo hostil, a filosofia de Schweitzer nos convoca à responsabilidade. A morte cruel de um animal da comunidade não é apenas um crime ambiental ou jurídico; é uma falha na humanização dos agressores. Ao respeitar a vida de um cão, o ser humano não está apenas poupando o animal, mas elevando a sua própria estatura moral.
Voltando ao artigo de Paolo Ricca: é preciso migrar de um conceito de lógica natural, “Mors tua, vita mea” (Tua morte, minha vida), para a lógica ética de Albert Schweitzer, “Vita tua, vita mea” (Tua vida, minha vida).
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Foto da Capa: Gerada por IA.

