Os “antimodernos” franceses, ora reacionários, ora conservadores (e até antissemitas!), de De Maistre a Renan, levantaram-se contra os princípios dos direitos universais, contra a república e a democracia e, sobretudo, contra uma certa noção de “progresso” que chegará, no século XX, até a um marxista “melancólico” como Walter Benjamin.
Contra o “progresso”? Sim, na medida em que a concepção moderna de “história” supunha uma razão (ou uma “necessidade”) trabalhando silenciosamente para levar o homem e a sociedade a patamares cada vez mais elevados de liberdade, de consciência e de moralidade. Benjamin achava que o “progresso” deixava atrás de si um rastro de ruína e cada etapa era a vitória da opressão sobre o “silêncio dos vencidos”!
Uma das críticas dos antimodernos visava a violência na política e na história, e posso ver neste momento a retomada perigosíssima dessa junção. E não estou falando apenas do caso do assassinato de Marielle ou de Marcelo Arruda. Quando se diz que a democracia não é “MAIS UM” regime político, mas “O” regime que permite a existência da política, isto significa que é na política – aquele espaço onde podemos expressar a opinião individual e confrontá-la com outros pontos de vista, melhorando nossa capacidade de decidir sobre o mundo comum-, é na política, retomo, onde podemos fazer um julgamento mais abalizado, baseado hipoteticamente numa capacidade de reflexão e autoconhecimento (que a educação e o confronto com os outros permitem.
“Educar é um ato político”!) e onde se produz a “Autoridade”. Ora, a violência é a própria eliminação da política e a negação da autoridade (ou seja, do saber e da moderação e não somente da estratégia e do interesse): a violência na política é a eliminação do outro para que nem a reflexão, nem o ponto de vista individual, nem o julgamento, nem a decisão comum sirvam mais como critérios pra gerir os “negócios
humanos”.
Já se disse que num estado autoritário não é o ditador que se deve temer: é o guarda da esquina! Isso quer dizer, lembrando La Boétie em seu “Discurso da servidão voluntária”, que o UNO (tirano) projeta de forma piramidal sua imagem para baixo, e cada membro da pirâmide reproduz a imagem dele até a base: são todos pequenos tiranos “para baixo” e servos “para cima” (Adorno)! O medo que temos, neste momento, é do homem comum, bom pai de família, “cristão” devoto, funcionário zeloso, amigo fiel e… membro de um clube de tiro, que nunca leu um único livro, admirador de Brilhante Ustra, racista, sexista e homofóbico: nossa sociedade os produziu em grande número. Eles estão ali, na esquina!
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