Talvez sejam manias de velho, mas quando penso no período de minha infância me assalta a impressão de estar olhando para um mundo tão antigo em comparação com o presente quanto, sei lá, o Velho Oeste ou a Era Vitoriana – não a Idade Média, mas um período em que já havia algumas mudanças provocadas pelo processo acelerado de industrialização, mas ainda pairava sobre tudo uma pátina selvagem e até mesmo perigosa se analisada em retrospecto. Um mundo menos cheio de cuidados, mais empoeirado, mais sujo. E com muito, muito menos plástico. Uma vida com mais cheiros naturais acres e enjoativos e menos aroma de polipropileno com toque de conservante.
Comprava-se o pão de dois bicos que chamávamos de “pão d’água” e ele vinha enrolado em um papel fino translúcido que, depois de havermos comido o pão, virava papel de desenho – tanto para rascunhos livres quanto para se transferir uma imagem jogando a fina folha por cima e traçando por cima dos contornos que se divisavam por baixo. “Matriz de pobre”, dizia minha avó – e essa expressão ela própria já hoje pertenceu ao grande museu das coisas desaparecidas, uma vez que a “matriz” a que ela se referia eram folhas de carbono especiais para um dispositivo chamado mimeógrafo, que transferiam o que nelas estivesse para folhas em branco ao ter contato com um rolo que antes passava por uma esponja de álcool.
Foi ao mudar para Porto Alegre, nos anos 1990, que tive contato pela primeira vez com o fenômeno dos pães cacetinhos, que nos eram entregues em variações diversas de sacos plásticos, tanto os de plástico liso que se tornavam embaçados ao contato com o calor do pão quente quanto uns mais elaborados com um padrão de furos para justamente evitar esse fenômeno.
Em toda parte
Comprava-se chá nas mesmas caixas de papel rígido em que são vendidos hoje, mas não havia por cima essa película de plástico fino cujo som de estalidos crocantes é um dos grandes indícios de material não reciclável. O catchup e a mostarda vinham em bisnagas coloridas, não nesses sachês de plásticos misturados a materiais que impossibilitam também a reciclagem, como alumínio.
O refrigerante vinha em garrafa de vidro, retornável – cabia muitas vezes a nós, as crianças, a ir à venda mais próxima para entregar o “casco” para comprar uma nova garrafa, e por uma magia que não consigo entender hoje, uma garrafa de um litro de Coca-Cola parecia ser o suficiente para um almoço de família. Hoje, a garrafa é de PET. As tampinhas metálicas do refrigerante, que juntávamos e usávamos em jogos improvisados ou martelávamos até achatar para transformar em uma espécie de disco giratório entre barbantes, também foram em sua maioria aposentadas, substituídas por tampas plásticas que não servem nem pra rodar na calçada. Duvido que João Antônio teria alcançado a grande arte de seu conto Afinação da arte de chutar tampinhas se estivesse chutando tampas de plástico rígido.
Da mesma forma, Caetano Veloso se refere, em Trem das Cores, à “seda azul do papel que envolve a maçã”, uma referência que para mim é muito clara, mas talvez seja obscura para muitos jovens de hoje a menos que trabalhem na Ceasa. Mas nessa eu confesso minha confusão pela memória. Talvez aqueles papéis frágeis que enrolavam as maçãs fossem de celofane, outro produto que não se presta à reciclagem, então não sei se há uma vantagem aberta dessa situação para com a atual, em que as maçãs vão para casa em sacos de plástico-filme, tenham sido compradas nos gigantes hipermercados ou nas quitandas de bairro.
Sondas espaciais
Nem tudo nesse mundo quase antigo era assim tão livre de plástico, minha infância já foi vivida sob o mistério das canetas BIC, essas sondas alienígenas programadas para voltar para a nave mãe antes que a carga se esvazie completamente. A marca também era responsável pelos isqueiros de plástico que haviam substituído os isqueiros de pavio metálicos de priscas eras – curiosamente, a minha geração seria a mesma a começar uma diminuição radical nas estatísticas de consumo de cigarro ao mesmo tempo em que reabilitava o Zippo e seus genéricos metálicos com tampa, fazendo pose como rebeldes sem causa em filmes de terceira.
Não só a mesa da sala era de madeira maciça e pesava como um segredo de família, também as mesas de qualquer estabelecimento comercial eram de metal ou madeira. Hoje, proliferam-se as mesas de plástico com logotipo de cerveja e um furo no centro para encaixar um guarda-sol cujo tecido é tão entremeado de matéria plástica que parece derreter antes de fazer sombra. Aliás, os próprios guarda-chuvas hoje são artefatos frágeis de alumínio barato e cobertura de nylon, ou seja, poliamida sintético, ou seja, plástico. Não admira que a cada chuva mais forte no Rio Grande do Sul se veja pelas ruas os cadáveres abatidos e descartados de um bom número desses combatentes sem experiência e sem a força e a, em mais de um sentido, fibra necessária para não capitular diante dos ventos inclementes de nossas intempéries.
No meu romance de formação Tudo o que Fizemos – que, aliás, vai ser relançado em 11 de outubro, um sábado, às 16h, numa sessão na livraria Paralelo 30, no Bom Fim, na qual vou debater o livro com o grande Samir Machado de Machado –, há uma cena crucial em que um dos personagens precisa correr em socorro de outro armado apenas com um guarda-chuva. A história se passa nos anos 1990, e ciente eu da fragilidade dos guarda-chuvas que tínhamos já naquela época fiz com que o guarda-chuva utilizado fosse antigo, com um cabo de madeira sólida propício a fazer a cabeça doer após uma pancada. Já estávamos no caminho inescapável do plástico naquela época.
Nossas decisões
A pasta de dente tinha um tubo metálico de alumínio que precisava ser enrolado sobre si mesmo para ir entregando as últimas reservas de produto – em termos de praticidade, ponto para as modernas versões macias, mas elas também são puro plástico. Curiosamente, o mesmo alumínio afastado dos tubos de dentifrício é o responsável pela impossibilidade de reciclar papéis laminados, sacos de salgadinhos ou qualquer embalagem com a espessura do papel mas o brilho do metal.
Nessa briga entre o natural e o sintético sobra até para o vaso de planta, antes era de barro, hoje um potinho plástico que desbota com o sol..
Já se diz que temos hoje microplásticos correndo em nosso corpo. A divulgação desse fato em particular foi um tanto sensacionalista e equivocada, boa parte desses microplásticos no corpo humano é oriundo de material usado na saúde, principalmente em pós-operatórios, mas há sim pesquisas que demonstram que o plástico ao ser continuamente quebrado e mesmo desgastado, apesar de sua longa jornada de decomposição, pode se espalhar no ar em partículas mais finas que fios de cabelo e, portanto, pode ser assimilado pelo corpo humano em diversas formas. Não sabemos ainda o efeito disso ao longo prazo, mas o corpo humano é notório em se rebelar contra elementos invasivos, sintéticos ou não (mesmo procedimentos miraculosos que garantem a qualidade da vida de milhares de pessoas, como implantes ou transplantes, dependem de remédios que baixem a guarda do sistema imunológico para evitar a rejeição automática). Sabendo disso, não é muito alentador o prognóstico.
E a questão é que, olhando para essa lista pouco aprofundada e catada às pressas na afobação de uma crônica no limite do prazo, já é possível ver o quanto tudo isso é resultado das opções à nossa disposição. Você realmente precisa de um sachê laminado de condimentos? Ou de uma caixa de chá envolta em plástico? “Ah, mas preserva o frescor e o sabor por mais tempo”. Diga isso para nossos descendentes quando eles estiverem substituindo seus órgãos internos por bobinas de poliuretano.
Todos os textos de Carlos André Moreira aqui.
Foto: ONU Meio Ambiente/Cyril Villemain

