Tendo já passado horas da cerimônia de consagração do sétimo sacramento da Santa Igreja, os festejos nupciais terminam e os nubentes se preparam para dar sequência ao cumprimento das ordenanças bíblicas: crescei e multiplicai. Numa esquizofrênica conjunção de ciúme e benignidade, o pai da imaculada aperta a mão do genro, pretendendo dizer alguma coisa, mas o prognóstico do que este estaria a refestelar na íntima companhia de sua filha impedia a instalação em sua mente de qualquer outro pensamento que não um descontrolado despeito em relação a esse deleite inevitável.
Perto de ambos, mas distantes o suficiente para que não fossem escutadas, mãe e filha trocavam suas últimas impressões de mulher e moça: doravante, os segredos seriam mais sigilosos e as confidências mais secretas.
Os pais do noivo se despedem e partem sem terem recebido muita atenção. Pois, para a família da virgem, aquela que efetivamente custeia o enlace, os pais do escolhido estão numa escala hierarquicamente inferior aos primos de graus mais distantes.
Dos segredos entre mãe e filha, o mais confidencial era, sem dúvida, aquele que emoldura a decisão da moça em contrair matrimônio com quem, notoriamente, não era bonito nem feio. Mas que, noves fora sua modesta graça, era trabalhador e tinha terras, fazendo da riqueza e da prosperidade um futuro certo.
Chegando a jovem esposa à chefia de sua própria residência (também casa grande de engenho), a cortesia das outras senhoras e as reverências da criadagem logo a fizeram se reconhecer na posição que lhe era devida pela natureza das coisas: novidades que revoavam seus sentimentos e se estampavam em risos de recém-esposada.
A felicidade soava alto ao coração quando seus dedos deslizavam pela envernizada mobília: toda em madeira de lei. Da sala à cozinha, um universo em nobre mogno; superfícies repousando delicados panos de renda; vultosos colchões de mola cobertos por lençóis brancos de algodão, tendo por cima colchas de chenile felpuda; sendo o maior e mais considerável o do quarto do casal, ancho, como tudo naquele cômodo: guarda-roupas de seis portas, baú, penteadeira de três espelhos, banquinho de veludo vermelho, cômoda de oito gavetas.
Para os serviços à mesa, ao dia a dia, pesados talheres de aço inox; faqueiro de prata para as ocasiões de festa ou visita ilustre; reciprocamente, conjunto para mesa com peças brancas, para o cotidiano; serviço de jarros e baixelas de cristal e de fina porcelana para acompanhar a prataria; na cozinha, todas as panelas e caldeirões em alumínio grosso.
Os primeiros meses do matrimônio trouxeram para si satisfações de desejos que não imaginava tê-los.
Com as quinzenas, inevitavelmente, veio a primeira gravidez, percebida num repentino enjoo após um corriqueiro almoço. A felicidade com a primeira gestação era de tal transbordamento que a continuação do sexo nas primeiras semanas, a contragosto da mãe e a certo receio do marido, antes de ser excitação, era, para ela, a própria celebração de sua feminina fertilidade.
Nasce o primeiro herdeiro: menino. Festa na casa!
Recebe o nome da avó do pai, precedido de José, ficando, então, José Luiz. Aquela barriga, a gravidez, aquela vida familiar, ela amara como se nunca tivesse amado. A atracação dos corpos, o sexo e os gozos constituíam um momento tão jubiloso quanto o ápice de uma trela. Assim, seguiu-se a vinda da primeira Maria e o segundo José, José Roberto: deferência ao avô materno.
Aquela prole, a casa em maternal polvorosa, a prosperidade e a convicção de que o desejo do marido era desejá-la, ela amara como se amasse eternamente.
Porém, após o segundo José, o pai já não correspondia a todo desejo que ainda preenchia a vontade de sua esposa. No advento da segunda Maria, a correspondência estava quase cessada. Já ia ali cerca de cinco anos de matrimônio. Nos cinco seguintes, chegaram mais um José e a terceira Maria; na conta dos dez anos, não combinavam mais nada.
O exercício do senhorio de seu domicílio, alpendrado nos quatro cantos, desde então, tornou-se uma rotina metrificada. A amizade com outras senhoras depurou-se em poucas confidentes e muitas aparentes. As reverências da criadagem se desencantaram para a coisa real que são: ou temor ou adulação. Assim, o lugar que lhe era devido pela natureza das coisas a fizeram se reconhecer deslocada de si. A mesmice das coisas amarrava seu coração, o riso já não estampava seus lábios. Passada uma década de matrimônio, a jovem mulher já não se reconhecia em si mesma. E aquele anelo etéreo que preenchia sua alma se condensara numa sólida e prática indiferença.
Nos cada vez mais raros encontros com o marido, o desejo não crescia e o prazer não se multiplicava, já sendo sabido por ela, e por todos, que seu esposo regava em outros canteiros e semeava em outros campos.
Recolhido estava o amor que sentira, esvaziado estava o contentamento que experimentara. Agora, o trio de cristal besuntado da penteadeira refletia impiedosamente a verdade devida a uma jovem mulher segundo a natureza das coisas daquele lugar: a existência amara.
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