No dia 18 de junho de 2025, completei um ano como curador de conteúdo da Coluna Odabá. Uma honra e um privilégio. São 52 semanas, com o mesmo número de colunas inéditas publicadas, preservando características únicas e inegociáveis: ser negra, coletiva e plural.
Esse espaço de opinião do nosso povo, unificado pela Terra-Mãe e diverso pela riqueza do legado dos numerosos povos africanos que nos deram origem, é uma tribuna qualificada para as visões de mundo. Representa um púlpito de onde ecoam análises, críticas, reflexões e proposições. Um lugar de geração de debates e desconfortos. E, sobretudo, de protagonismo.
Todo conteúdo dialoga com o princípio orientador da Odabá, de promover a ascensão econômica do povo negro através do empreendedorismo, e no seu tripé de sustentação: a eliminação de crenças limitantes, a qualificação empreendedora e a valorização da produção cultural negra.
Independentemente do enfoque, se sobre negócios e oportunidades, saúde e beleza, feminismo negro, religiosidade, comportamento, cultura, pertencimento, filosofia afrocentrada ou empoderamento, todas as pessoas autoras estão imersas nos valores que nos unem.
Ao longo dos últimos 365 dias, tenho procurado diversificar ao máximo o perfil de quem redige. Se somos uma associação, todos os integrantes têm o direito de externalizar seus pensamentos nesse palco de ideias, que é a plataforma Sler. Isso não tem relação obrigatória com a habilidade de escrita, pois essa é uma construção permanente, alicerçada no exercício da leitura, da reflexão e da transposição para a redação como forma de expressão.
Embora existam técnicas, estilos, métricas e regras gramaticais, vejo tudo como instrumentos, e não como barreiras à produção textual. Se uns dominam conceitos, outros são autoridades na vida vivida. E essa, sabemos, vale milhares de palavras.
Para recordar
A coluna Odabá, cabe lembrar, vem de uma trajetória mais longa que nos leva ao inverno de 2022. Desde aquele 6 de julho, no simbólico mês da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha (já se falou desse tema aqui), traduzido em nossa comunidade como o “Julho das Pretas”, muitos textos preencheram esse espaço.
Aliás, só é possível preencher o que está vazio, não é mesmo? A jornalista Rejane Martins, como nossa associada e idealizadora dessa coluna, sabe muito bem disso. Ao receber o convite para ser articulista na Sler, percebeu que entre seus pares havia somente ela e a colega publicitária Patrícia Carneiro como vozes negras entre os colunistas. Perspicaz e sensível à situação, aceitou a proposta com uma condição: que o espaço de opinião fosse ocupado coletivamente, em forma de rodízio, pelos integrantes da Odabá.
É, também, nos pequenos gestos que as palavras da ativista, filósofa e professora negra norte-americana Angela Davis se fazem valer: “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”. Essa frase inspiradora, nesse microcontexto que abordo aqui, fez com que uma mulher proporcionasse a 39 pessoas participar dessa oportunidade. Esse é o número de “odabenses”, atuais ou antigos, que assinaram textos como colunistas no período de três anos. E lá se vão 132 artigos. Obrigado pela confiança, ao me passar o bastão, Rejane.
Vejo como fundamental evidenciar que 54% desse conteúdo foi pensado e produzido por mulheres negras. Nesse ponto, é preciso destacar o olhar da magnífica linguista e escritora Conceição Evaristo e o termo “escrevivência”, de sua autoria, um conceito tão gigantesco quanto o “pretoguês”, criado pela inesquecível Lélia Gonzalez. “A escrevivência não é a escrita de si, porque esta se esgota no próprio sujeito. Ela carrega a vivência da coletividade”, nos ensina Conceição, mulher negra de origem simples e dotada de uma capacidade única de absorver as histórias que ouvia de seu círculo familiar e social, transformando-as em literatura.
Alguns números do período:
Colunas: 132
Articulistas: 39
Por gênero: 22 feminino e 17 masculino.
Por raça/cor: 37 pessoas negras e duas brancas.
Articulistas por ano:
2022: 13; 2023: 10; 2024: 18; 2025: 22 (até julho)
Os 10 artigos mais lidos
| Título | Autoria | Data | Visualizações |
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O processo
Há um ano, assumi esse compromisso como curador de conteúdo. Nesse papel, procuro atrair o maior número possível de pessoas associadas e construir um relacionamento com elas, entendendo suas preferências e potencialidades. Seus afetos, realizações, motivações e convicções, e como tudo dialoga com a mensagem da Odabá como entidade representativa. Depois disso, cada um(a) mergulha no processo de escrita e, quando necessário, dou suporte com a checagem de dados, insights, sugestões e, por fim, a seleção de uma imagem que sintetize o conteúdo. Nessa etapa, conto com o talento e a sensibilidade de Marianne Gaspari, que também faz a veiculação nas redes sociais. É preciso fazer barulho, né? Instagram, grupos de WhatsApp, LinkedIn… Não basta escrever, temos que espalhar pelo mundo!
Próximo passo
Tenho como meta transformar a Coluna Odabá em um livro. E ela se concretizará. Dessa forma, além de o texto estar ao “alcance de um clique”, como ocorre atualmente, será possível driblar a fugacidade dos tempos atuais e permitir o prazer genuíno de manusear, referenciar e reverenciar a produção intelectual de pessoas negras afroempreendedoras no Rio Grande do Sul.
Nas bibliotecas e em nossas estantes, vamos posicionar esse impresso ao lado de coletâneas ricas e potentes, como as de Sueli Carneiro, em Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil (Selo Negro, 2011), veiculadas no Correio Brasiliense, e de Djamila Ribeiro, em Quem tem medo do feminismo negro (Companhia das Letras, 2018), resultado de suas participações no blog da Carta Capital. Duas mulheres pretas inspiradoras e de impacto social. Os dois livros mencionados resultam de espaços de opinião por elas ocupados com autoridade e conteúdo relevante.
Para fechar, te provoco: entendes que não estou falando apenas de textos? Vai além.
Como jornalista, já escrevi para e por pessoas enquanto integrante no mundo corporativo, naquilo que chamamos de “ghostwriter”, ou o escritor “fantasma” em tradução livre. Isso ocorre quando redigimos, de maneira intencional, para que outra pessoa assuma como seu e receba os créditos (podem ser diretores(as), presidentes, CEOs, etc.). Sim! Muitos artigos que você lê/leu em jornais ou livros não são/foram escritos por quem os assinou. Aqui, na Coluna Odabá, não. Considero encantador atuar como incentivador, articulador e aprendiz – aprendo muito a cada semana – para contribuir com o protagonismo de irmãs e irmãos negros ao manifestarem suas visões de mundo.
Vida longa à Coluna Odabá!
Eduardo Borba é jornalista graduado pela PUCRS, pai, integrante de ações para promover a Diversidade, Equidade e Inclusão, como a Odabá - Associação de Afroempreendedorismo e a Comissão Antirracista do Colégio João XXIII. Mestre em Comunicação Social, é especialista em Direitos Humanos, Responsabilidade Social e Cidadania Global.
Todos o textos de membros da Odabá estão AQUI.
Foto da Capa: Freepik

