Estou cansada. Cansada de quem é culpado ou vítima da guerra no Oriente Médio, cansada de quem condena ou não o remake da novela Vale Tudo. Cansada de ler a expressão “quarenta mais” e todas as regras e cuidados que a mulher deve ter nessa etapa, quando eu ainda não me ocupei nem da metade de tudo isso. Cansada de que tudo é terapia, menos ir à psicoterapia e deitar-se no divã (ou na poltrona). Cansada de alertas meteorológicos e de ter medo de dias de chuva e temporais, que antes eu amava. Estou cansada de dietas fáceis e gêneros musicais difíceis. Cansada de português mal-escrito, homens emocionalmente imaturos e rasos, mulheres que falam e riem alto demais, desculpem. Estou cansada de quem ainda não entendeu a importância de ser feminista, cansada de tpm’s, menopausas, “melhor idade”, vista-se comigo para sei lá o quê. Eu estou cansada de quem fala de forma leviana sobre saúde mental, de quem arrota o conceito de meritocracia do alto de seus privilégios e nem ao menos se dá conta disso. Estou cansada de estudantes que usam tecnologias e inteligência artificial para terem trabalhos prontos sem entenderem que artificial ficará sua capacidade intelectual e emocional. Estou cansada de influenciadoras que mais fazem mal do que bem em sua ânsia de mostrarem suas vidas perfeitas de mentira. Estou cansada de pais e mães inábeis em lidarem com suas próprias frustrações e descarregam todas nos filhos. Estou cansada de pagar Netflix e tantas vezes não ter nada para assistir. Estou cansada até da Alexa, que não consegue resolver todos os meus problemas. Estou cansada de ver gente maltratando gente, cansada de descaso público, cansada de política, de gente politicamente correta. Estou cansada de estar preocupada com o futuro da humanidade.
Por outro lado, não me canso de cantar alto no carro, nem de fazer playlists com minhas descobertas musicais. Não me canso de elogiar pessoas quando sinceramente sinto vontade para isso. Não me canso de dirigir, de dançar, de cantar. Não me canso de inventar histórias com minha filha, não me canso de acreditar no amor, não canso nunca, jamais, de poesia: ler e fazer. Ler bons livros e me emocionar, e querer que eu os tivesse escrito. Não me canso de caminhar nas ruas procurando arte no mundo, frases em postes e muros. Não me canso de estar com meus amigos e amigas, rir de bobagem, dormir quando estou com sono, dar aula e ver olhos de alguns estudantes brilhando quando dizem que eu fiz alguma diferença na sua trajetória. Amo a psicanálise e suas infinitas possibilidades de estar na vida e nas relações.
Eu ando cansada de muita coisa ao mesmo tempo que não me canso de muitas outras. Tudo junto e misturado nesse ano louco que está sendo 2025 e que já está assustadoramente na metade. Não sei se acontecerá uma terceira guerra mundial, se ainda estarei por aqui no ano que vem. Tudo parece volátil e etéreo em dias assim. Não é TPM, nem menopausa, é só sobriedade que me acomete de vez em quando. Semana que vem talvez eu esteja melhor.
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