As famosas casinhas do bairro londrino de Notting Hill, aquelas que ficaram conhecidas no filme protagonizado por Julia Roberts e Hugh Grant, vivem hoje em uma espécie de “luto”. O local, que antes da comédia romântica de 1999 já era famoso pelas casas coloridas, viu sua popularidade disparar após o sucesso do filme. Com as redes sociais, a situação só piorou. Cansados da exposição constante, os moradores resolveram pintar as fachadas de preto como forma de protesto contra o turismo massificado.
Levanta a mão quem já foi até lá fazer uma fotinho para postar no Instagram. E na livraria? E no mercado de Portobello Road? Agora multiplica isso por milhares de pessoas, durante anos e anos sem fim. E agora pensa nas pessoas que moram ali.
Quem vive em uma cidade com grande apelo turístico entende bem a razão de tanta insatisfação. Quando chega esta época do ano, a situação piora ainda mais. O fluxo constante de turistas torna a vida bastante caótica.
O gesto simbólico de mudar a cor das casas marca não só a resistência a um fenômeno cada vez mais presente nas grandes cidades europeias, como também inaugura uma nova fase de mobilização cidadã contra os efeitos da chamada “turistificação” — termo utilizado para descrever o impacto do turismo na economia, cultura e vida cotidiana de um determinado local.
Desde a reabertura global no pós-pandemia, o turismo internacional retomou força. Segundo dados da Organização Mundial do Turismo (OMT), entre 2020 e 2024, a Europa registrou um aumento de 65% no número de visitantes internacionais. Os números mostram que Veneza, por exemplo, voltou a receber mais de 25 mil visitantes por dia em seu centro histórico, e Barcelona ultrapassou os 12 milhões de turistas em 2024.
Lisboa, por sua vez, acabou se tornando uma das capitais europeias mais afetadas pelo turismo de massa. Bairros históricos como Alfama, Mouraria e Bairro Alto viram seus moradores serem substituídos por turistas, e os tradicionais comércios de bairro, por lojas de souvenirs e restaurantes voltados ao público estrangeiro. Esse crescimento acelerado trouxe ainda consequências como o aumento desenfreado dos aluguéis de curta duração, impulsionado por plataformas como o Airbnb, o que fez com que milhares de moradias fossem retiradas do mercado de aluguel tradicional. A crise habitacional hoje, por lá, está descontrolada.
Neste último fim de semana, uma onda de protestos tomou conta das cidades do sul da Europa. Entre as principais queixas estão a gentrificação e expulsão dos moradores, a pressão sobre os serviços urbanos (coleta de lixo, transporte, água e esgoto), a descaracterização cultural e comercial dos bairros, a precarização das relações de trabalho no setor turístico e os danos ambientais e poluição.
Em Palma de Mallorca, na Espanha, cerca de 30 mil pessoas marcharam com o lema “Por el derecho a una vida digna, paremos la turistificación”. Em Barcelona, manifestantes utilizaram pistolas de água para simbolicamente “lavar” os efeitos do turismo excessivo, enquanto hostels foram temporariamente fechados em protesto. Até mesmo instituições culturais aderiram ao movimento: no Louvre, em Paris, trabalhadores entraram em greve alegando condições insustentáveis diante da superlotação. O museu, que recebeu 8,7 milhões de visitantes em 2024, teve que fechar temporariamente algumas de suas salas.
Essas ações são coordenadas, entre outros, pelo movimento Southern Europe Against Overtourism (SEAO), uma rede transnacional de coletivos e ativistas originada no sul da Europa, que reúne representantes de cidades como Barcelona, Lisboa, Veneza, Palma, Valência, Málaga e outras localidades afetadas pela turistificação.
O movimento não é contra o turismo em si, mas contra um modelo “predatório”, no qual o lucro gerado pela atividade turística destrói a qualidade de vida urbana.
O protesto das casas de Notting Hill, embora silencioso, é bastante impactante. É um “basta”. As cidades precisam ser preservadas como lugares de vida — e não apenas de visita. Que venham campanhas de conscientização e políticas públicas de proteção à população local. E que, na próxima visita, a cor esteja de volta a esse que é um dos cantinhos mais charmosos de Londres.
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Foto da Capa: Acervo da Autora.

