Dia desses, saiu na imprensa que uma articulista de um grande jornal publicava textos produzidos pela Inteligência Artificial como sendo de sua autoria. E, tendo sido denunciada, admite-o sem nenhum constrangimento, alegando que, apesar de não os escrever, os insights seriam seus. Pois, por voz, dá o comando e a ferramenta atua, considerando, assim, que a autoria da peça gerada seja sua.
Não enveredando pela discussão de mérito (ou demérito) da profissional, da empresa de comunicação que segue publicando os textos ou da beleza roubada (stolen beauty, diriam os ingleses), o fato me colocou diante do dilema de se confundir o que escrevo com o resultado da maquinação dessa novidade tecnológica. A interpelação que solicitou meu espírito foi: como é que o leitor vai saber se isso que vai na página fui eu mesmo quem escreveu ou se foi um sistema algoritmo-digital?
Diante da questão, inicialmente, afirmo com toda convicção que um dos primeiros atributos a diferenciar meu texto dos deslumbrantes resultados da computação estatístico-linguística são as minhas imperfeições, primeiramente, a preguiça procrastinante.
A IA não tem marasmo, não se deprime diante de uma página em branco, não demora em nada para fabricar um textão; em cada novo comando, uma instantânea lauda inédita. Todavia, se a pessoa leitora passar uma rápida vista em algumas das minhas publicações na Sler, perceberá, aqui e acolá, que poderia caber mais um parágrafo, que a discussão poderia render um pouco mais. Benevolente, poderia até atribuir essa lacuna a uma estratégia de provocar quem me lê a conjecturar em sua própria mente um desfecho, a cogitar alternativas dialogantes com o que lê.
Bondade sua…
Pois, o que acontece na maioria dos casos é preguiça mesmo, é vadiação do labor mental. Se fica alguma abertura à interação com o arremate, provavelmente não é por meu sofisticado pendor literário, capaz de elevar o leitor a um nível mais participativo de interação com o que componho. Pode ter ficado por meu mais vigoroso acabrunhamento em habitar, no tempo, a morada da minha consciência profunda; a indisposição em aventar nem que seja o mais superficial eflúvio inconsciente.
O segundo traço que qualifica o que escrevo como nunca podendo ser tomado como uma maquinação da Inteligência Artificial, o outro elemento (perceptível até aos mais desatentos ou aos mais amáveis) que classifica o que redijo como sendo expressão do meu singular sistema neuro-cognitivo é a minha Burrice Natural.
A referência ao nobre muar não é depreciativa. Pelo contrário, são os predicados da besta que o fazem digno de referência simbólica e adjetiva. Quem tem ou teve algum contato com os cavalos sabe o quanto são adestráveis e obedientes, o mesmo não podemos dizer do jerico e suas variações. São turrões, teimosos, empancativos, são a radical antítese dos novíssimos robôs equinos da China: a versão quadrúpede da IA.
A IA não cisma em suas páginas. Pode até simular um estilo e suas recorrências, mas sua perfeição processual a impede de turronamente enganchar numa ideia, em repetir, numa sequência de escritos, a mesma tentativa (via de regra frustrada) de melhor escrever um tema, de melhor desenvolver um mote: a IA não tem uma vaidade a satisfazer. Ela não teima, não insiste em cravar no texto metáforas ridículas. Ela jamais incorrerá no erro, birrento, de jogar na cara do leitor o que é o reflexo do rosto de quem escreveu (e que, por isso mesmo, só ele vê reflexão em certas tolices): a IA não tem narcisismo.
Na alongadíssima e retilínea autoestrada que separa os sertões de Ibimirim à Petrolândia, o ente que displicente se atravessa na frente de capitalizadas carretas Scanias, tecnológicas SUVs japonesas ou massificados Volkswagens populares é o jegue: ele não tem noção de perigo. Quando empaca no caminho: ninguém vai, ninguém vem. Ônibus com coletivo de ansiedades, ambulâncias com vidas em risco, a PRF com multas em punho: tudo para tentar adivinhar para qual lado vai pender o bruto.
A escrita grafada pela pena do humano é o burrico invadindo a via expressa. Por sua vez, a produção da IA é um amestrado corcel (daquele chinês) cavalgando, eficiente e veloz, a rodovia.
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Foto da Capa: Gerada Por IA.

