O Brasil se depara com suas encruzilhadas na Sapucaí. Em meio a desfiles e refrões, histórias são contadas, memórias disputadas e imagens buscam moldar a nação que somos. Neste ano de 2026, fui ao Rio de Janeiro para um momento singular: ver a Portela trazer à avenida a história e o legado da negritude do Rio Grande do Sul. Uma oportunidade preciosa.
Neste desfile, a expectativa estava na chance de questionar a invisibilidade negra que permeia a visão do Rio Grande do Sul para o restante do país, um estado que construiu uma autoimagem branca, apesar de sua profunda herança africana, de tradição do Batuque, cheia de lideranças negras e de narrativas de arte e resistência como a dos Lanceiros Negros, por exemplo.
No entanto, as encruzilhadas também sinalizam perdas.
O enredo da Portela, “O mistério do príncipe do Bará – a oração do Negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande”, entrelaçou Bará, a divindade das encruzilhadas, o Negrinho do Pastoreio, uma figura lendária do pampa escravocrata, e a trajetória de Custódio Joaquim de Almeida, o Príncipe Custódio. Tentarei situar estas figuras para quem lê, não na ordem apresentada, mas darei ênfase à presença de Custódio.
Nascido Osuanlele Okizi Erupê no século XIX na África (Golfo da Guiné, atual Benin), Custódio chegou jovem ao Rio Grande do Sul no final do século XIX, antes de 1888, provavelmente não escravizado. Filho de um africano retornado, isto é, que voltou para a África, ele veio com passaporte britânico, viajou por diversas cidades do país e do RS, fixando-se em Porto Alegre, onde trabalhou como tanoeiro. Com o tempo, firmou-se como uma liderança: treinador de cavalos respeitado pelas elites, curador que atendia diversas classes sociais com ervas medicinais e, principalmente, sacerdote e referência do Batuque, a singular tradição religiosa de matriz africana do RS.
Em um período já marcado pela perseguição às religiões afro-brasileiras, Custódio atuava como mediador, negociando permissões para rituais e assegurando a continuidade da tradição. Seu título de “príncipe” vem do reconhecimento popular, pela sua autoridade espiritual e política, demarcando a diversidade de trajetórias negras.
Um de seus legados mais emblemáticos é o assentamento do Bará no Mercado Público de Porto Alegre, um marco que não é casual, ligando-nos diretamente aos territórios africanos, já que os mercados, espaços de circulação e troca, são tradicionalmente consagrados ao senhor dos caminhos, Exú-Bará. Por conta disso, o Mercado Público de Porto Alegre é lugar não somente de ritualística batuqueira, mas também de referência negra-africana porto-alegrense. Custódio foi, em muitos aspectos, um verdadeiro abridor de caminhos. Faleceu em Porto Alegre em 1935.
Cresci ouvindo falar do Príncipe Custódio pela oralidade da minha família batuqueira da Ilhota, e de sua importância para o nosso Batuque. Aos detalhes da sua biografia, tive mais acesso pela ajuda do historiador e pesquisador Jovani Scherer e outros, que se dedicam a estudar esta grande figura.
Por essa razão, o enredo da Portela, na minha expectativa, representava uma chance ímpar: confrontar a invisibilidade negra na percepção do Rio Grande do Sul pelo país. Um estado que institucionalizou uma narrativa de si como branco, ignorando a profunda presença indígena e africana, esta última manifestada em tradições afro-indígenas religiosas, ricas em lideranças, símbolos, arte e histórias de resistência.
Contudo, as encruzilhadas também revelam os caminhos que não se concretizam totalmente, tendo que, para prosseguir, voltar ao centro.
O que se viu na avenida foi uma narrativa que, na tentativa de abarcar muitos elementos, deixou esta rica biografia fragmentada. Alegorias e fantasias falharam em comunicar com clareza a densidade histórica, artística, política e espiritual desta personagem que demarca pontos da identidade negra riograndense. Para quem, como eu, buscava reconhecer ou conhecer a presença negra do Sul, a tradução visual descrita no enredo não fez jus à potência desta história. E isso transcende a mera questão estética, mas deixa em falta a questão política de representação na arte do Carnaval.
A invisibilidade negra no Rio Grande do Sul está profundamente ligada ao desconhecimento sobre a diversidade das matrizes africanas no Brasil. Mesmo entre pessoas negras e praticantes de religiões afroindígenas no Brasil, há pouca familiaridade com o universo simbólico do Batuque gaúcho.
O imaginário das afrorreligiosidades em plano nacional foi amplamente estruturado pelo modelo do candomblé Ketu da Bahia, associado à história das três princesas de Oyó e ialorixás fundadoras: Iyá Nassô, Iyá Detá e Iyá Kalá. Essa tradição é muito importante, mas não esgota a totalidade das experiências africanas no país, havendo diversas outras, para além do Batuque do Sul, que preservam diferentes cosmologias, outras estruturas rituais, outras Áfricas em solo brasileiro — e era essa diferença na pluralidade que na avenida precisava-se iluminar.
A inclusão da figura do Negrinho do Pastoreio confundiu, principalmente por originalmente tratar de uma narrativa carregada da violência da escravidão, cuja permanência simbólica gera tensões desnecessárias de contar agora. O que importa dizer é que sua inserção desviou o foco da liderança, da mediação política e da força espiritual de Custódio, pois quando a Portela pretende fabular sobre o Negrinho do Pastoreio, ao coroá-lo como príncipe como o eixo narrativo, confunde-nos com o principado popular de Custódio.
A história proposta pela Portela poderia ter aproveitado e afirmado a soberania, a inteligência social e a criativa continuidade africana no Sul, fortalecida hoje por muitos movimentos artísticos, políticos e sociais importantes. Para destacar um, cito como exemplo o Conselho Estadual do Povo de Terreiro, que é o órgão precursor de políticas públicas para o Povo de Terreiro no Brasil. Há tantos outros que, se fossem citados, ocupariam muito espaço neste artigo, mas que exemplificariam como se inverte a lógica de um Brasil onde as histórias negras são contadas unicamente pela violência.
Olhando sob a perspectiva de Bará, a Sapucaí deste ano revelou na encruzilhada a intenção de abrir um caminho de memória, mas a tradução falhou em sustentar a travessia deste largo caminho. Compreensível, pois o silenciamento da nossa história é imenso, e quando temos a chance de mostrar, queremos ocupar todo o espaço possível, o que pode dissipar a potência. Além disso, é importante dizer que essa foi a primeira vez que nossa história entrou na Sapucaí e isso já nos orgulha. Por isso, evocar o senhor dos caminhos é saber que o tempo é espiralar. Assim como marca a obra que está no centro do nosso mercado público: os caminhos não têm fim.
A história do Príncipe Custódio permanece essencial para o Batuque gaúcho, que segue vivo. A presença africana no Sul continua a desafiar a narrativa de um estado branco, e o peso dessa história fez com que a avenida não conseguisse contá-la por completo. No entanto, o desempenho do tempo espiralar — conceito que a intelectual Leda Maria Martins nos ensina — reforça que, quando uma história ainda não foi contada com a clareza necessária, ela retorna. Ou, melhor, ela não se encerra, porque a presença africana no Brasil não é um tema de desfile, mas a própria história que estruturou um país. E o que é estrutura sempre encontra uma maneira de voltar ao centro da narrativa.
Que cada vez mais tenhamos histórias a serem contadas de forma a potencializar a pluralidade da vida negra na diáspora brasileira, construída por africanos e africanas no Brasil e relatadas por uma perspectiva de celebração, como é o Carnaval.
* Esta crônica integra a coletânea de textos com o selo Terra Mãe, publicado desde janeiro de 2026 na Coluna Odabá, sob a autoria da socióloga e multiartista Nina Fola. Acesse os títulos a partir dos links abaixo:
-Janeiro – Terra Mãe: o Brasil sem atalhos coloniais
-Fevereiro – A encruzilhada na avenida
Nina Fola, mãe de Aretha e Malyck, é multiartista, socióloga, atuante nos coletivos @afroentes, @coletivoatinuke e @odaba.br. Aborda a questão de raça e gênero em todos os seus trabalhos acadêmicos, artísticos e profissionais. Gestora do @cavalodeideias, uma consultoria em diversidade e inclusão onde faz palestras e formações. (@ninafola)
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Foto da capa: Lucas landau / Portela / Divulgação

