
Quando fui atropelado por essa palavra, tão sonora quanto desconhecida, não tive outra escolha além de recorrer ao dicionário. Diz-se apotropaico daquilo que afasta do mal, desvia do perigo. Seriam palavras, gestos, rituais ou objetos que visam afastar o mal ou proteger contra energias ruins. Apesar de ser tão antigo esse hábito de recorrer ao pensamento mágico, ou atribuir poderes a algo que não os possui, estou sentindo essa necessidade.
Mas como lutar contra pessoas que negam vacinas, aceitam tortura, ditadura e tentativa de golpe como coisas aceitáveis, pessoas que questionam direitos tão essenciais às mulheres? São pessoas que transigem valores inegociáveis apenas por orientação política. Algo como dizer que, se eu não gosto desse, então escolho aquele outro. Independentemente do que esse outro possa ter feito, deixado de fazer, ou ainda pretenda fazer. Acredito que precisamos relativizar argumentos, ainda mais quando nenhuma opção é boa. Mas temos que entender que existe uma diferença marcante entre ser ruim e ser pior.
Assim, proponho um voto apotropaico. Vamos escolher quem nos afaste do mal, da misoginia, do obscurantismo, do negacionismo, da intolerância. Não vamos votar pelo interesse de influenciadores que são pagos para… influenciar a qualquer custo. E fazem isso usando mentiras, fake news, ou apenas o absurdo de desmerecer a capacidade das mulheres. Um voto que nos permita acolher as diferenças, ajudar os que não têm sequer voz. Longe de ser o melhor, que seja apenas “menos pior” para o nosso povo tão sofrido.
Por mais arcaico que possa parecer, ter esperança nos leva de um dia a outro, e deste ao próximo.
Assim, que apotropaico seja nosso voto. Que nos afaste do mal.
Onde encontrei essa palavra, apotropaico? Em um livro, a leitura nos permite aprender, alargar o pensamento, questionar nossas ideias, visitar o passado e, talvez, entender para onde não devemos voltar.
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Marcelo Moretto é médico ginecologista, trabalha na área de Reprodução Humana e Fertilização In Vitro. Já participou de duas coletâneas de contos: Desmascarados e [in]verdades. @docmoretto