O mistério do porquê gostamos de algo ou alguém é o tipo de coisa que sempre tentamos contornar. Quase sempre parece melhor dar razões lógicas, emotivas ou mesmo ilógicas para justificar enamoramentos, simpatias, admirações e, claro, também nossos ódios e ranços.
Outro dia, por aqui, ríamos muito por conta de uma peça de roupa dele que já detestei muito e que hoje me causa emoções mescladas. Como sou muito palhaça, disse que a peça era como aquele homem ou mulher que não achamos bonitos, mas que nos atrai. É que esses seres são portadoras e portadores do famoso je ne sais quoi. A peça em questão tem esse quê. Se eu a olho isoladamente, no roupeiro ou na corda, acho horrível e desestimulante. No entanto, quando ele a veste não consigo dizer que fica bonito e, ao mesmo tempo, tem algum magnetismo que me agrada, que deixa a coisa de repente estranhamente interessante. Antes eu só queria doar essa roupa para alguém, retirá-la de circulação – coisa que fui impedida pela óbvia razão de que a peça não me pertence. Acho que as coisas também vão nos conquistando quando vemos o quanto elas são espontâneas e se desinteressam pela nossa aprovação.
Paro para pensar um pouco. Parece que toda situação de afinidade je ne sais quoi com a qual me deparei na vida toca na coisa única, na coisa fora da série. Acredito que reside aí nossa dificuldade em explicar essa sensação, porque, no fundo, quando justificamos simpatia, amores e ódios estamos apenas e tão somente classificando. E, classificar é fazer notar uma repetição. Freud dizia que a ordem, quer dizer, a vontade de organização é um impulso de repetição.
É claro que todes queremos algum tipo de reconhecimento, algum tipo de confete e celebração. No entanto, re-conhecer é, tantas vezes, fechar-se a conhecer. É querer replicar o cômodo, o já antes amado, trilhado e admirado. E, para quem tem esse anseio, é buscar ser classificado. Vi um corte de uma entrevista que David Bowie concedeu a Bruna Lombardi, nos anos 90, na qual o artista comenta o seu pouco se lixando para os anseios do público, admitindo que era bacana ser querido pelo público, mas que o barato dele era fazer uma música com a qual se sentisse feliz. Por um lado, se bem é fácil dizer isso quando já se é consagrado, essa também pode terminar sendo uma boa razão para certos empreendimentos funcionarem.
Vivemos em uma era de tamanho acosso imagético, na qual um braço não pode apenas ser um braço, mas tem que ser malhado. Era na qual tanto horror nos deixa sem palavras, literalmente embasbacados. Nesse contexto, perder as palavras e classificações para um je ne sais quoi pode ser um baita dum luxo.
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