Nessas linhas quero primeiro deixar registrado o tamanho da minha gratidão à Vida! Ter conseguido seguir adiante, mesmo depois de ter tido meu corpo visitado pelo câncer, em uma época onde as respostas médicas ainda são incertas, foi uma das maiores, aliás a maior, benção que já recebi, nesses quase 40 anos de vida.
Mas vamos falar sobre o Outubro Rosa, tema sobre o qual tenho uma certeza: a maioria das pessoas ainda não entende de fato.
Vou tentar trazer uma linha de tempo, pra que você que está lendo tenha noção do que vivi. Minha intenção é bem simples: alertar as nossas mulheres sobre o quão importante é se manter atenta a todos os sinais que, sabiamente, nosso corpo manda!
Em um dia aleatório, de março de 2021, chegou o resultado de mais uma série de exames que eu havia feito. Investigava um sangramento que começou meses atrás, e foi aumentando gradativamente, até não mais parar. A cada mês foi se tornando mais intenso, mais frequente.
A primeira informação trazida pela Medicina foi: “são alguns hormônios desregulados, interrompe a pílula, pois tu vais melhorar, e voltará a ter um fluxo menstrual normal”.
E assim foi feito. Já era meu desejo gestar, então não seria um grande problema parar de tomar anticoncepcional.
Quem dera o efeito tivesse sido o esperado… Interromper o tratamento anticoncepcional não mudou em nada o sangramento, que seguiu crescente até a fatídica tarde modorrenta de março, quando recebi via e-mail (por opção minha) o resultado da biópsia que confirmava o pior cenário possível: SIM, EU ESTAVA COM CÂNCER NO COLO DO ÚTERO.
Acredito que cada pessoa tem sua reação e sua forma de lidar com essa notícia, mas provavelmente todo mundo tenha um choque inicial. A mim, coube tentar entender porque parecia que eu tinha entrado em um aquário e porque havia um nome tão feio escrito no exame, que acompanhava meu nome, lá no cabeçalho: “Carcinoma”.
Aquele bicho tinha um nome. E era feio. Tão feio quanto tudo o que ele me fez viver e sentir. E foi assim que decidi identificá-lo: feioso!
Volto a dizer: não acho que a maioria das pessoas entenda, realmente, o significado do Outubro Rosa, pelo simples fato de não ter vivenciado o terror de olhar para cara da morte e, a partir dali, começar a rever toda sua vida, seus planos e sonhos com medo de não ter mais muito tempo para realizar tudo.
Ninguém nunca acha que vai acontecer consigo.
Olha a minha presunção: “pode mandar o resultado da biópsia por e-mail, eu posso abrir em qualquer lugar, NÃO VAI DAR NADA!”
Pois é… imagina perder, de repente, o direito de gestar? Tu te sentirias completa?
Naquele ano de 2021, finalmente entendi a importância do Outubro Rosa, e o quão grande era minha imaturidade por só entender após sentir na própria pele!
Para mim, tudo foi extremamente rápido. Em aproximadamente 60 dias eu estava extraindo o feioso do meu corpo. Cirurgicamente. Segura de que esse era o melhor caminho.
Mas deixa eu explanar sobre algo que quase não falo (e poucas pessoas falam): a DOR.
As dores que o carcinoma me trouxeram, antes de operar eram cruéis. Parece que estávamos em guerra, e ele fazia questão de me atravessar com diversas “facas”, todos os dias, de forma tão intensa que cheguei a derrubar, algumas vezes, os objetos que carregava nas mãos.
Durante o processo, os médicos me deram aquele percentual que a gente não quer saber: 80 por cento de chance de eu vencer. Ou seja: 20 por cento de chance de “o feioso” me derrotar.
Poderia dizer que “tava no papo”, mas é mentira.
Me diz uma coisa: hoje, ao acordar, tu pensou nesse percentual?
Quantos porcento de chance de morrer será que eu tenho hoje? E amanhã?
Não tem como dormir tranquilamente sabendo que algo maligno te consome de dentro pra fora, e tem 20% de chance de te levar embora pra sempre.
Em abril, foi o “grand finale”, quando extraí o feioso do meu corpo!
Antes, ele me maltratou demais, cada pedaço de mim. DOR. E quero que tu, mulher que anda negligenciando os exames de rotina, leia com mais atenção: PENSA EM DOR!
Ter apoio alivia muitas coisas. Terapia ajuda bastante. Ter o amor e o carinho dos teus ajuda demaaaais. Mas A DOR, essa tu irá sentir sozinha. Começo, meio e fim. Tu, sozinha e embrenhada em todas as dores que vêm nessa luta.
Não tem romance, não tem enfeite, não tem o que fazer para parar.
Morfina ajuda bastante no começo, mas é o estágio da extremidade, quando tu ainda estás no leito. Isso nos primeiros dias. Depois, tem a volta pra casa, a diminuição gradativa da medicação, a cicatrização, o retorno à caminhada, os curativos, a independência que tu anseia em retomar, a alimentação com restrições, os enjoos, o inchaço, o sono interrompido, uma única posição para dormir… Imaginou? No final, ainda precisei revisitar o hospital por uma hemorragia que chegou sem aviso.
Tudo, muito, muito difícil.
Hoje, ainda sinto dor. Acho que esse é o maior trunfo do feioso. O carcinoma vai ser lembrado pelo meu corpo para sempre.
Mas sabe o que mais? Eu entreguei meu útero a ele, mas ganhei minha vida de volta. Inteirinha! Cada outra parte de mim se reconstruiu, se levantou, se aprimorou, amadureceu!
Levei tempo pra caramba para encarar de forma carinhosa essa nova mulher desprovida do órgão reprodutor, e demorei a aceitar essa perda.
Já imaginou ficar sem teus órgãos femininos?
Já fez o teu exame esse ano?
Com quantos anos você entendeu a importância da prevenção?
Entendeu, agora, de fato, o que é o Outubro Rosa?
Não é sobre cor, é sobre autoamor.
Levei tempo demais, perdi a chance de maternagem (biológica), mas tenho certeza de que ganhei uma chance preciosa de ressignificar minha existência.
Quantas mulheres você conhece que viveram essa experiência?
Não se esqueça que, se for convocada por um feioso desse tipo, você ganhará carinho, amor e apoio de todos… mas a dor, amiga, essa tu vai viver sozinha.
Espero, de coração, que esse texto possa ter encorajado pelo menos uma mulher a marcar seus exames. Se isso acontecer, eu venci mais uma vez o feioso. Chupa mais essa Senhor Carcinoma!!! (risos)
Desejo que todos os resultados de exames cheguem a você sem nenhum nome feio. Mas para isso, é importante que você faça a sua parte.
Um abraço,
Kênia
Kênia Aquino é comissária de voos internacionais e instrutora em rota. Graduada em Comércio Exterior e pós-graduanda em Direitos Humanos, Responsabilidade Social e Cidadania Global. Atual presidente da Odabá – Associação de Afroempreendedorismo. Membro do conselho municipal do povo negro de Porto Alegre (Cnegro). Cofundadora e produtora na Malê Afroproduções e do evento CinePretoPoa. Cofundadora do Quilombo Aéreo e do projeto ‘Pretos que Voam’.
Todos os textos de Odabá aqui.
Foto Freepik

