O tráfego de informações e opiniões, nas redes sociais desta semana, trouxe à luz informações sobre quantias de dinheiro deslocadas para lá e para cá, em operações consideradas fraudulentas, envolvendo entidades bancárias brasileiras (um banco regional e, ao que se sabe até agora, um banco privado). O termo que foi seguidamente mencionado foi o bilhão, ou mais especificamente, alguns bilhões, em manobras presumivelmente fraudulentas, já suficientes para enviar uns e outros para a prisão ou demissão. Essa movimentação me fez recordar meus tempos de pesquisa envolvendo produção de significado para grandezas numéricas e operações mentais de estimativa – do tipo “quantos tijolos (no ‘olhômetro’) para levantar este muro”.
Nessas pesquisas, as estimativas aludiam a quantias de dinheiro, com muita gente (inclusive de nível de instrução superior) declarando não ter mais noção clara do que se tratava quantia “x” de dinheiro além de certo teto. O prêmio solitário da Mega Sena passou a ser um desses tetos, mesmo considerando-se que, para muitos que verbalizavam seu sonho de ganhar os 100 milhões da Mega Sena acumulada, o significado mesmo na vida do felizardo ganhador dessa soma de dinheiro se confundia com expectativas mentais anteriores à premiação – o que explica o depoimento de um dos ganhadores que teria declarado alto e bom som, e na alegria imensa da novíssima condição de rico (ele que até então se considerava “pobre”), que no dia seguinte à recepção do prêmio iria trabalhar na obra em que estava engajado como pedreiro, “pegando um táxi” (não mais sacolejando num busão).
Se o limiar de produção de significado para alguns parcos milhões lotéricos leva a essa vertigem de operação cognitiva de avaliação de ordem de grandeza, imagine-se a passagem a um patamar posterior ao milhão – o bilhão. Provavelmente a maioria esmagadora da população não tem ideia razoavelmente clara do que seja 1 bilhão de reais… Um pouco mais de uma dezena de bilhões, então… Isso torna surreais as notícias referidas acima, na abertura dessas considerações, acerca dos doze bilhões de reais envolvidos numa das operações (numa delas, enfatize-se…) e responsáveis por ações policiais e administrativas dos envolvidos. Aliás, um desses responsáveis, segundo os comentários que circularam, teria, há não muito tempo, promovido uma festinha de quinze anos da filhota, com orçamento na casa dos quinze milhões de reais. Bom, pelo menos nesse caso dá pra ficar na ordem de grandeza do vocabulário dos prêmios da Mega Sena. A festinha teria custado um prêmio de uma Mega não muito gordinha, mas já respeitável como tal…
Vivemos num país em que a renda modal (não a renda média, para escapar às conhecidas distorções desse índice de resumo de informações), segundo dados de fontes desse tipo de informação, é da ordem de menos de um salário-mínimo (R$ 1.518,00). A renda per capita, resultante da soma de todas as rendas dividida pelo número de habitantes por unidade domiciliar, é da ordem de R$ 2.069,00. A curva descritiva de renda no Brasil é, portanto, distante do padrão típico da curva normal, com inchaço na zona das baixas rendas e escassez das altas rendas – onde contudo se concentra a maior parte do poder aquisitivo do país. Trocando em miúdos, somos um país condenado a um dos maiores índices de desigualdade de distribuição de riqueza do planeta. E aí, nesse contexto, enquanto a maioria esmagadora pena com a falta de recursos para atender às demandas de consumo criadas nos meios de comunicação de massa – maioria essa que nem sequer paga o feijão com arroz, o que dirá o acesso ao tênis de grife –, personagens instagramados pagam quinze milhões de reais pela festinha de quinze anos da filhota. E movimentam treze bilhões em esquemas fraudulentos.
Esses dados estruturais sobre a desigualdade na distribuição de riqueza no Brasil ajudam a entender a dificuldade, para muitos, de avaliar o que significa ter acesso a qualquer quantia acima de cem mil reais. Isso torna os crimes de colarinho branco em roupas de linho engomadas ainda mais abstratos. Afinal, de tão além da possibilidade de entendimento, esses golpes deixam a condição de delitos para se tornarem “esquemas financeiros criativos”, operações “ganha-ganha”, nas quais as contas piramidais não fecham, o que alimenta a narrativa das “cabeças limitadas de pobre”. E se, para algumas perspectivas, “todo lucro é um roubo”, o lucro estratosférico das intrincadas engenharias financeiras de mercados presentes e futuros representa o upgrade de roubo para a “operação contábil não convencional”. Com ladrões que operam à luz do dia, sem medo de serem felizes e torrarem dinheiro, nessa nova ordem social em que a “ousadia empreendedora” não se deixa limitar por princípios tacanhos daqueles atrasados por suas cabeças de pobre. Cabeças para as quais está fora de alcance estimar a ordem de grandeza da bandalheira brasileira.
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Quem de fato consegue estimar o quanto os bacanas ganham e o quanto roubam?
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Foto da Capa: Divulgação / Polícia Federal

