É impossível olhar para o mundo sem um filtro. Nossas experiências, desde a infância até a formação de nossas convicções políticas, constroem um sistema de crenças que inevitavelmente molda nossa percepção da realidade. Naturalmente, temos a capacidade de questionar nossos próprios preconceitos — uma flexibilidade que, infelizmente, nem todos exercem.
Em nenhum outro campo essa dinâmica é tão evidente quanto na política, onde a ideologia pode colorir fatos cristalinos com tons completamente diferentes. A COP 30, sediada em Belém, oferece um exemplo perfeito desse fenômeno. A conferência está sendo um sucesso ou um fracasso? A resposta, ao que tudo indica, depende de quem responde.
Para a direita, o evento é um fiasco retumbante, um vexame organizacional do governo brasileiro que não terá nenhum impacto no mundo. Para a esquerda, a avaliação é consideravelmente mais benevolente.
A crítica da direita e a benevolência da esquerda
A direita, marcada pela presença de negacionistas climáticos, sequer precisa recorrer a fake news para embasar suas críticas. As falhas estruturais do evento — como o ar-condicionado defeituoso em plena Amazônia, a falta de água nos banheiros e problemas de segurança e até incêndio — já fornecem munição suficiente para os opositores. Até a noite de quarta-feira, sem nenhum resultado relevante à vista, nem mesmo avanços no Fundo Florestas Tropicais para Sempre, a principal aposta inicial do Brasil, os críticos encontraram terreno ainda mais fértil para seus comentários depreciativos.
Do outro lado do espectro, a situação é mais complexa. A COP 30 é organizada por um governo de esquerda e tem como uma de suas faces mais proeminentes a ministra Marina Silva, um ícone da defesa ambiental no Brasil e no mundo. Seria de se esperar que os ambientalistas, que são em sua maioria de esquerda, criticassem o evento? Em parte, sim. Ataques aos países ricos e aos poluidores em geral são de praxe, mas, no restante, a postura tem sido de complacência, inclusive por parte da grande mídia.
Os “milagres” e as falsas expectativas
Um exemplo dessa tendência – e é só um dos muitos exemplos possíveis – é um vídeo do jornalista Claudio Angelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima. No vídeo, divulgado logo no início da Conferência, ele celebrou a ocorrência de alguns “milagres” na COP. Entre eles: o centro de convenções ter ficado pronto e a proposta de um mapa do caminho para o abandono dos combustíveis fósseis. É preciso, antes de prosseguir, ressaltar a seriedade e competência tanto de Angelo quanto do Observatório do Clima, uma das principais organizações ambientais do país. No entanto, a simpatia pelo governo parece ter pesado em sua análise.
O primeiro “milagre” citado por ele foi o fato de o centro de convenções ter sido finalizado a tempo. Disse ele: “Ninguém achava que o centro de convenções ia ficar pronto, ficou pronto”. Me parece que esta visão carrega uma autocrítica implícita e embaraçosa: a de que os brasileiros só conseguem cumprir um prazo por obra divina (ainda que sem ar-condicionado e água nos banheiros!).
Outro milagre seria o fato de o presidente Lula ter defendido a proposta de adotar-se um “mapa do caminho” para o fim do uso de combustíveis fósseis. O tal mapa do caminho é agora, dado o fracasso do Fundo das Florestas Tropicais, a nova esperança de sucesso para a COP. No entanto, chamar isso de milagre representa ignorar a dissonância entre discurso e prática. O que significa, em termos concretos, a fala do presidente (mesmo que muitos países “apoiem” a iniciativa)? Absolutamente nada. O mesmo líder que fez um discurso para agradar a plateia da COP autorizou a prospecção de petróleo na Foz do Amazonas e comanda um governo cuja presidente da maior estatal declarou em um evento nos Estados Unidos: “Let’s drill, baby!” [1].
De nada adiantam “mapas do caminho” sem metas concretas e, crucialmente, sem consequências para quem não as cumprir. As COPs são pródigas em belos compromissos que são solenemente ignorados. A própria ideia de uma “transição para longe dos combustíveis fósseis” já constava no texto final da COP 28, em Dubai. Foi um texto assinado até pelos maiores produtores de petróleo, cientes de que, sem obrigações reais, aquilo era apenas tinta no papel. Agora querem criar um mapa com metas e prazos, que vai seguir o mesmo destino.
Resumo da Ópera
O viés de benevolência, por outro lado, não se restringe a analistas individuais. Boa parte da mídia brasileira tem adotado uma postura semelhante, com uma cobertura complacente que desvia o foco do que realmente importa. Em vez de analisar o legado da conferência para o planeta, a atenção se volta para aspectos superficiais, como festas, shows e discursos sem consequências, reforçando uma narrativa de sucesso que os fatos, até agora, não sustentam.
Ainda é cedo para um veredito, mas a “COP da Adaptação” ou a “COP da Floresta” — títulos que seus organizadores tentaram emplacar — ou mesmo a “COP do mapa do caminho” parece estar destinada a ser uma grande decepção, especialmente diante das expectativas iniciais. Talvez seja precipitado afirmar. Afinal, como vimos, sempre pode acontecer um milagre!
Referências:
[1] Magda Chambriard, presidente da Petrobras, proferiu a expressão “let’s drill, baby” durante sua participação na Offshore Technology Conference (OTC), em Houston, no início de maio de 2025, para defender a exploração na Margem Equatorial brasileira.
Todos os textos de Marco Moraes estão AQUI.
Foto da Capa: Fernando Frazão / Agência Brasil

