Já faz meses que me recuso deliberadamente a ressalvar a cada texto que a defesa de Israel existir e lutar por sua existência não significa necessariamente que eu goste do atual governo israelense ou que esteja alinhado à violência excessiva em Gaza. É aviltante pedir permissão pra exercer o meu direito ao pertencimento e ao zelo identitário. São camadas em cima de camadas, cansativas, de esclarecimentos infinitos, a cada estocada ignorante de supostos “humanistas ilustrados”, pra eu pedir perdão por ser judeu e defender a minha identidade tão violenta e historicamente castigada e perseguida. É muito desgastante dizer o óbvio reiteradamente e ainda pedir licença pra fazer isso. Começa que, nas comparações grosseiras e frases rasas dessas pessoas tão cheias de clichês e dogmas, sempre é ignorado o atentado devastador que foi o 7/10, ao qual Israel reagiu. Aí o cara fala sobre a “opressão de 77 anos” sem lembrar que lá em maio de 1948 foi refundado o lar judaico, na antiga Judeia depois nomeada como Palestina, respeitando a lógica de uma partilha rejeitada pelos atuais oponentes que falam num suposto “colonialismo” (sic) de um povo que passou 1,9 mil anos numa diáspora em que era apátrida, sempre incompreendido, perseguido e vítima das maiores violências que a humanidade já viu. Uma “colonização” em que o “colonizador”, além de ser povo originário que retorna, não tem uma metrópole de onde chegou para explorar (?!). Ah, mas seria uma “colonização por procuração” do Tio Sam, só que o Tio Sam cruzou os braços lá em 1948, e quem apoiou o Estado sionista foi o bloco soviético, com reconhecimento e fornecimento de armas.
Não, estou farto de falar obviedades e não ser ouvido porque setores de uma sedizente “intelectualidade”, uma autoproclamada “esquerda humanista” (sic), estão tão hipnotizados quanto o pior extremista de direita combatendo a vacina ou dizendo que a Terra é plana.
Não, não vou falar que outro dia vi uma frase em rede social na qual o sujeito diz que o verdadeiro humanista se insurge contra a opressão e defende povos oprimidos. Me belisquei ao constatar que ele invertia tudo, porque o “opressor” ao qual o sujeito se referia era logo o povo judeu.
É muito desgastante, mas vou perseverar. O custo é alto, sei disso. Dias atrás, num jantar, eu comentava com o meu querido amigo Celso Grutfriend sobre a admiração que sinto por defensores de causas justas, pessoas altivas que matam no peito e perseveram mesmo que tenham de enfrentar um quase consenso mainstream que faz dele um pária.
Um dia ainda vou escrever sobre os “ecochatos” (sic) dos anos 1990 que tinham toda a razão. E as recentes cheias ocorridas do Rio Grande do Sul ao Texas são provas de eloquência certeira.
Mas, enfim, não quero falar sobre tudo o que falei aí em cima (riam do meu paradoxo).
Vou falar sobre algo certeiro, tão certeiro quanto o que já escrevi até agora, mas que pode ser desmembrado numa lógica desconcertante. Vou, portanto, usar tópicos pra abordar o atentado terrorista contra a AMIA que deixou 85 mortos exatamente 31 anos atrás, em 18 de julho de 1994. Vivi resquícios desse trauma quando fui morar em Buenos Aires três anos depois e ainda percebia a incredulidade das pessoas com aquele absurdo devastador.
Vamos a três tópicos então, que pretendem ser elucidativos:
1 ) Assim como o atentado à Embaixada de Israel na Argentina, pouco mais de dois anos antes (no total, 114 mortos), a autoria foi iraniana, e não falo de lobos solitários. Quem fez são os mesmos caras que setores “humanistas” (sic) defendem e que transitam livremente, com abraços e notas conjuntas, sobre os tapetes dos Brics, os mesmos caras que falam abertamente terem a intenção de aniquilar Israel e os judeus. Os mesmos caras que querem ter a bomba atômica pra destruir quem a atacou em autodefesa e foi censurado.
2 ) No caso da AMIA (Associação Mutual Judaica), o atentado não foi contra o alvo de algum país (o que evidentemente já seria um absurdo), mas contra um grupo humano: os judeus, escancaradamente. A AMIA é uma entidade judaica. Logo, não há margem de dúvida para o caráter francamente antissemita da violência ainda impune. Aí você me diz “ai, árabes também são semitas”, e eu aponto dois erros básicos. Persas não são árabes, e o “antissemitismo” é o ódio ao judeu como o “racismo” se consolidou por se referir à tez.
3 ) Assim como o atentado à AMIA é ainda hoje motivo de manifestações contra o inadmissível, o pogrom do 7/10, o maior ataque a judeus desde o Holocausto, precisava de uma resposta impactante e expiatória. Não estou discutindo aqui o governo isralense de turno, a respeito do qual tenho sérias críticas, profundas discordâncias e frontal rejeição. Estou falando da reação, da punição, do aviso de que isso não pode se repetir, com o uso de um bordão muito argentino, que vem da condenação aos repressores da ditadura de 1976/83 e encontrou eco nas manifestações sobre a AMIA: “Nunca mais!”
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Nesta sexta-feira, haverá, como ocorre todos os anos desde 1994, caminhadas repletas de cartazes mostrando os rostos das vítimas e o apelo contra a impunidade escrito em faixas com o bordão “Nunca mais!”. Os mesmos protestos de três décadas, endossados pela intelectualidade e pelos defensores de direitos humanos. O que precisamos lembrar em meio a tanta comoção é que os autores desse atentado reconhecidamente abominável são os mesmíssimo que alguns setores hoje defendem e justificam. Percebem o disparate?!
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Encerro mais esta dolorosa coluna implorando que, enfim, deem-se conta.
E vou continuar na luta justa sem me importar com os narizes torcidos.
Jamais serei da turma dos complacentes com eventuais pares ideológicos, que de “companheiros” nada têm. Ser o judeu bonzinho, mesmo que munido de frases prontas e muita pusilanimidade, equivale ao “negro bom”, o serviçal, o que acata até o ódio contra si.
Meus avós passaram por tudo isso. Não é novidade e tem nome.
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Shabat shalom!
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Foto da capa: Atentado à AMIA / Reprodução de Rede Social

