Uma extraordinária notícia que talvez não pareça tão relevante para grande parte da população marca o final do ano de 2025. A boa nova vem do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. No dia 2 de dezembro, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) anunciou a assinatura de convênios inéditos que inauguram uma nova era na ciência brasileira. A partir de 1° de janeiro de 2026, pesquisadores brasileiros poderão ler e publicar, sem custos, em revistas científicas de três das maiores editoras do mundo: Association for Computing Machinery (ACM), Elsevier e Springer Nature.
Profissionais de mais de 400 instituições nacionais serão beneficiados, com garantia de acesso e maior possibilidade de publicação em periódicos de alto impacto. Com isso, o Brasil marca posição de vanguarda, ampliando a visibilidade internacional da nossa produção científica. A expectativa é que, somente no grupo Nature, cerca de 6 mil artigos por ano sejam publicados e acessíveis gratuitamente.
Para alguém desavisado, pode parecer algo menor e circunscrito. No entanto, não é. É um trunfo colossal após um período de tanta desvalorização da ciência e da academia.
No mesmo dia desse anúncio, a revista National Geographic, em artigo da jornalista norte-americana Meryl Davids Landau, apontou os avanços médicos do ano de 2025. Segundo ela, apesar de cortes orçamentários que caracterizam a pesquisa no âmbito da saúde, particularmente em seu país, também houve conquistas notáveis. A ciência médica não apenas avançou, mas se transformou, trazendo esperança em diversas frentes: desde a prevenção de doenças crônicas até a cura personalizada.
A prevenção, especialmente no campo das doenças infecciosas, tem novidades. O combate ao HIV ganhou um recurso formidável: um novo medicamento injetável, o Yeztugo (lenacapavir), é administrado apenas duas vezes por ano. Isso facilita a adesão e ajuda a eliminar o estigma de tomar comprimidos diários. Um novo marco para acabar com a transmissão do vírus. No mesmo espírito preventivo, melhorias nos testes de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) tornaram o rastreamento mais acessível. São exemplos o Teal Wand para autocoleta de HPV e o teste Visby, que oferece resultados rápidos, em apenas 30 minutos via aplicativo, para gonorreia, clamídia e tricomoníase. Dar a possibilidade de coleta ao paciente, em casa, significa diagnósticos muito mais céleres, interrompendo a disseminação de doenças.
Na oncologia vê-se a promessa de interrupção precoce de tumores. O câncer de pâncreas, conhecido por sua agressividade, pode ser freado antes de se desenvolver: cientistas descobriram que o bloqueio de uma proteína específica, a FGFR2, pode impedir que células pré-cancerosas se tornem malignas. Paralelamente, descobriu-se um benefício surpreendente e inesperado: certas vacinas, como a de mRNA (RNA mensageiro) contra COVID-19, demonstraram melhora na resposta à imunoterapia – tratamento que estimula o próprio sistema de defesa do corpo – em pacientes com câncer avançado.
Ainda em relação a vacinas, estudos sugerem que quem tomou a vacina contra herpes-zoster não apenas se protegeu da doença, mas também reduziu o risco de ter AVC, ataque cardíaco e demência.
Uma técnica para editar genes, a CRISPR, foi usada de forma inédita. Criou-se um gene sob medida, específico para um recém-nascido (o bebê KJ) com uma doença rara e fatal no fígado. Usando a edição genética, a falha de DNA foi consertada. Essa abordagem “personalizada” abre a porta para a cura de inúmeros pacientes com doenças raras.
Alguém se lembra daquela lagartixa que perdeu a cauda ao se fechar uma porta? Pois bem, no campo da medicina regenerativa, a ficção científica se tornou realidade em estágios iniciais. Identificou-se a chave molecular para a regeneração de membros em salamandras, e, em primatas, houve sucesso no implante de um remendo de células-tronco para fortalecer corações.
Também houve melhorias diretas na qualidade de vida. A menopausa ganhou uma alternativa revolucionária não hormonal com a aprovação do Veozah (fezolinetant) e do Lynkuet (elinzanetant), aliviando ondas de calor em mulheres que não podem usar terapia hormonal. Para as crianças, a urgência das alergias graves foi simplificada pelo Neffy, um spray nasal de epinefrina, que elimina o medo e a hesitação associados às agulhas dos autoinjetores.
Por fim, os cientistas concluíram um projeto gigantesco chamado UK Biobank. Eles reuniram e analisaram mais de um bilhão de registros médicos detalhados de 100 mil voluntários: ressonância magnética, DNA, estilo de vida. Este “Atlas do Corpo Humano” oferece uma visão abrangente de como o corpo muda ao longo do tempo, auxiliando na descoberta de conexões vitais, como a recém-confirmada relação entre a saúde do coração e a do cérebro.
Todos esses progressos — desde a regeneração tecidual até a prevenção semestral de doença, além do potencial de revalorização das vacinas —, somados ao estímulo que se anuncia à pesquisa científica em nosso país, permitem desejar votos de um feliz novo tempo, com boa dose de convicção e real esperança.
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