Sou tão ponderado, que eventualmente me permito alguma radicalização, até porque, como radicalmente ponderado, não posso fazer da ponderação uma irrefletida e engessadora dogmatização. Seria uma baita contradição!
Deu pra entender o que trato de insinuar? Não? Se não, talvez nem valha a pena continuar.
Mesmo que na contramão, às vezes sou radical por definição.
Aquele lance que se diz, de ir à raiz.
…
(Se você vê uma criança sofrendo bullying e não se comove, você é um imbecil.
Se encontra alguém desesperado por não ter acesso à saúde e dá de ombros, idem.
Se despreza o próximo em apuros, idem.
Se considera que “liberdades individuais” justificam grosserias, idem.
Se percebe alguém passando fome e acha normal, idem.
Se ignora a devastação provocada pelas injustiças sociais, idem.
Se defende que o preconceito não seja combatido, idem.
Se opina que a luta identitária é “frescura”, bah, muito idem.
Se flagra alguém chorando e passa reto sem se importar, ibidem!)
…
Sacou? Tem mais, muito mais. Mas, por ora… sem mais!
A necessidade de empatia está à sua frente e a todo instante, no ar, no lar e no bar, sempre, aqui, ali e em todo lugar (sim, Lennon & McCarntey são as minhas maiores fontes)…
Algumas atitudes depreciadas por boçais, antigamente como “politicamente corretas” e recentemente como “mimimi”, na real são essenciais.
Que mania os reacionários têm de transformar, muito otários, o belo em pejorativo, esvaziando o seu motivo.
Sou um radical: politicamente correto, mimizento, coisa e tal!
Se alguém me chamar de chato, mato a bola no peito, no ato, com o orgulho no apogeu e sigo em frente sabendo que o gol é meu.
O que me fez assim? Não só ela, mas a arte, bela com certeza. A música que entra pelos poros, a literatura que entra pelo intelecto, o cinema que entra pelos olhos e certamente as ótimas companhias que entram pela vida, dando-lhe inteireza.
E, voltando a Eles, “And, in the end, the love you take is equal to the love you make”.
Texto é música e tem ritmo! Muito além do frio e automático algoritmo.
Meus pais sempre devem ser lembrados nessa reflexão definitiva como o Abbey Road e os caminhos atravessados.
Devo-lhes tudo que extravasa, a eles e aos valores que me legaram e que passo adiante na minha casa, cada um ao seu jeito, mas com mesmo efeito. E tem também os amigos, a minha bolha tão amada, impermeável à estupidez pra qual já nem ligo.
Cito dois desses que sigo e um livro, que não deixa de ser amigo (ou “filho”, diz o clichê reprovável, porque filho é sagradamente incomparável).
Vou elencá-los de forma quase aleatória pela minha memória. O terceiro item que citarei é o último porque desdobrá-lo-ei, e não por depreciação (quero rimar com “ão”, e não é em vão, já que o motivo é superlativo) nessa oratória. Bah, que rima simplória! Os dois amigos também são eles e seus livros, porque são autores, e as pessoas andam gritando suas dores um montão e com paixão, e isso resulta em arte, amores e elevAÇÃO.
Ação por definição! E sempre um caloroso abração!
Mas vamos adiante com os três exemplos que trago aqui pra sua apreciação (eta, fixação!):
1 ) Minha dulcíssima amiga Lelei Teixeira me levou à profunda reflexão sobre quão disseminada é a necessidade de empatia, algo proporcional à infinidade de preconceitos que podemos (e não devemos) ter. Lelei tem nanismo e escreveu um livro que me marcou pra todo o sempre: “E fomos ser gauche na vida”. Sei que a Lelei vai me perdoar por citar de novo o trecho desse livro que tanto me ensinou e impactou (ideias fixas…). Foi quando relatou sua experiência num hotel, com pias e mesas altas e uma maçaneta redonda e grande que ela não conseguia girar com a mão pequena. Ali, ela me abriu as portas a uma necessária percepção (sim, o trocadilho da maçaneta e de abrir a porta é tri, apesar de involuntário). A necessidade de empatia está no cotidiano, frequentemente invisível aos nossos olhos (eu jamais teria pensado na maçaneta). Mas precisamos ficar atentos, porque, como no caso do preconceito, as pessoas sofrem, e é isso o que importa. Na essência, está o exercício muito básico de se pôr no lugar de quem sofre.
2 ) Meu filho “Coligay, Tricolor e de todas as cores”. Ah, filho não. Livro. Puxa, como me ensinou essa concepção que tive em 2014. Eu estava chegando aos meus 50 anos involuntariamente heteronormativos ou quase isso ao lançá-lo. Logo, palavras e sentimentos, no meu cômodo lugar de fala e escrita, escapavam-me. Mas tive o mérito da humildade: fui atrás do conhecimento! Perguntei ao saudoso Erni Grawer: “Erni, fiquei sabendo que os gays não gostam quando se usa a expressão ‘opção sexual’. Tu pode me explicar por quê?!” “Ora, Léo, tu acha que é uma opção? Uma escolha? Numa sociedade tão preconceituosa, por que uma pessoa escolheria integrar uma minoria discriminada e desprezada?” A resposta do Erni foi sentida, mas compreensiva, porque ele sabia que eu só não enxergava aquilo -e me fez enxergar. Fiquei pasmo com a minha ignorância. Na real, foi uma oportunidade de esclarecimento que se impregnou em mim. Hoje, é impossível sair da minha boca expressão tão errada e desrespeitosa, que nega a natureza alheia.
3 ) Meu amigão Marcos Weiss Bliacheris, o “Xixa”, estrategicamente o terceiro colocado nesta breve lista, é um cara que, entre outras afinidades, tem comigo a mesma identidade judaica com seus valores e a permanente tentativa de mostrar às pessoas a importância de nos entender (e esse é outro assunto do qual costumo me ocupar). Que livro importante é o teu recém-lançado “Diferente como a gente (crônicas sobre inclusão e esperança)”, querido Xixa! Já embarcamos nele viajando pelas descobertas. Quando meu amigo passou a usar aparelho auditivo, por exemplo: “Passei a usar essa ajuda todos os dias, porque acredito que cada ano vivido é um prêmio e envelhecer é um privilégio, assim como ter acesso a tecnologias que me possibilitem navegar melhor pelo cotidiano (o que, por si só, é outro privilégio). Diante da escolha entre reconhecer ou negar minhas limitações, opto pelo que melhora minha qualidade de vida, mesmo que isso signifique enfrentar novos preconceitos e estigmas.” Seja bem-vindo esse combo lindo: um único tapa que esbofeteia o capacitismo e o etarismo, coisa tão feia.
E é uma ode à vida por vezes incompreendida e outras surpreendida.
O texto termina magistralmente:
“Permitindo-me viver e compreender melhor o mundo que me cerca.”
Simplesmente!
…enfim, não foi por acaso que pus o Xixa no item 3. Vou me deter nele, até porque seu belo livro é lançamento recente e vale muito ser divulgado. O Xixa teve um “antes e depois” na vida, e eu, como amigo que sou e radicalmente (ó…) atento à necessidade de empatia, o acompanhei com alguma distância, mas mantendo atenção e interesse. O querido Amir me ensinou também, a ponto de hoje eu ter a convicção de que algumas características do autista são as mais essenciais no nosso atual processo evolutivo, em meio a cinismos, egoísmos e tecnologias virtuais que nos juntam, mas também separam, porque de perto ninguém é normal, e as coisas se complicam. A afetividade e o papo reto, padrão no autismo, são um composto, um elixir. Leia este trecho do livro: “Eu tinha um filho autista. Minha primeira providência foi entender o que era o autismo, um solene desconhecido para mim até então. Aprendi que o autismo, ou Transtorno do Espectro Autista (TEA), é considerado um transtorno do neurodesenvolvimento que afeta áreas como a interação social e o comportamento. As pessoas autistas podem ter dificuldades em se relacionar com os outros, manter amizades e entender linguagem figurada e sinais sociais, como expressões faciais ou gestos. Além disso, elas podem ter interesses muito específicos, gostar de rotinas e repetir bastante algumas ações.”
Vai com rima pra manter o tom aí de cima?
Tudo isso há, mas não são “doenças”
Poupem-nos de suas ofensas!
São características e só diferenças
Tem muita beleza e sabedoria aí
O querido Amir é um baita dum guri
De inteligência que muito já curti
Afetivo, bom, vivaz, curioso, idealista
Enfim, seria longa essa lista…
E, não por acaso, ele será jornalista!
Viver e aprender está em algo que li.
Busque no livro do Xixa, está escrito ali:
Que “o homem planeja, e Deus ri”
…
Às vezes preciso pedir perdão ao Celso Gutfreind e ao Pedro Gonzaga por estas de poetar sem o brilho dos verdadeiros poetas. Mas curto isso de brincar com as palavras e as embaralhar.
Não me encham o saco os puristas da castração a mim. A rima é livre, mesmo que ruim! Bah! Hehe!
…
E continuem com a prosa poética do Xixa na sua obra ilustrada com mel pela Luísa Fantinel, e digo “prosa poética” mesmo que ele não tenha o propósito consciente de fazer poema em texto corrido: “Ter um filho autista é como entrar em um novo mundo, aprender uma nova língua e entender que sua vida será diferente para sempre. Você começa a evitar aglomerações, multidões, fogos de artifício barulhentos e pessoas preconceituosas. Ter um filho autista é descobrir que amigos somem; mas também que desconhecidos surgem e se tornam seus melhores amigos de infância. Você descobre que amigos viram família e que familiares se tornam desconhecidos. A convivência com o preconceito e com a exclusão te apresentam alguns dilemas: sofrer calado ou gritar? Sofrer sozinho ou procurar a minha turma? Foi aí que aprendi que eu até poderia deixar passar as minhas dores, mas jamais deixaria que o mundo passasse por cima do meu filho sem que eu, ao menos, reclamasse. Então comecei a gritar e apontar o que via de errado e percebi que havia mais gente comigo. Eles também viam os mesmos equívocos que eu, sofriam as mesmas dores, mas ainda não tinham encontrado alguém para gritar junto. Nesse momento, compreendi: eu não estava mais sozinho.”
…
Lá vem o reincidente “poeta” Léo Gerchmann:
Amigo de infância retroativo
Jamais esteja sozinho!
Estou aqui por algum motivo
Tem muita poesia na tua prosa
Mesmo que crua e real
Porque a tua luta é preciosa
E até vou fazer um comentário
E pedir que confiram no livro
A bela sacada do dromedário
Também é boa a do canhoto
Que desnuda em perspectiva
As ignorâncias sobre o outro
Concordo que não terão vez
Todos os preconceitos
Num futuro de sensatez
Gritemos bem alto o justo!
Porque a mensagem viaja…
…e vale muito o seu custo
…
Depois dessa, só me resta dizer tchau…
…e esclarecer, muito constragido,
que juro que não foi por mal!
Ai! Essa foi tão infame que até doeu!
Perdão Celso, Pedro e… Mario!
“Qual Mario?” O Quintana, digo eu!
Chega, meu!
Ui!
Tá demais!
Fui!
…
Shabat shalom!
…
PS: ao ler no livro do Xixa o texto intitulado “Mistura fina”, me lembrei de assunto que eu desejava escrever neste espaço, mas não o fiz diante do surgimento de outras pautas na semana. Então, graças a esse capítulo muy interessante do livro, me permito viajar pelos acordes da melodia pura, e aqui vai uma possível ruptura: adorei que o Cuarteto, estilo musical argentino (cordobês) liderado pelo genial Carlos “La Mona” Jiménez, ganhou da Unesco a honraria de ser “patrimônio imaterial”. O Cuarteto, lá dos anos 1940 (precisamente, de 1943), é um estilo musical que já foi depreciado por ser popular, mas depois venceu o preconceito e se tornou música reconhecidamente contagiante, alegre e de qualidade, com suas gaitas e sopros resultantes da mistura de culturas.
Viva a arte, o respeito e a diversidade!
E, por que não?, a diversão.
Todos os textos de Léo Gerchmann aqui.
Foto: divulgação

