Devido a essa nossa existência atual de conectado via Internet, diariamente chegam a mim o vídeo de uma ou outra live de um fulano ou sicrano que nunca tinha visto, falando, com cara de quem se passa como a maior das autoridades, sobre tudo o que há no mundo: sujeitos que desvendam as reais intenções da mente de Trump ou Putin, que anunciam os inequívocos sinais do fim-do-mundo e, principalmente, que desmascaram supostas abjetas intenções por trás da veiculação de qualquer informação científica.
A emergência de influencers e youtubers contestando a Agência Mundial de Saúde (contra a vacina da Covid) e se irrompendo contra a Organização Meteorológica Mundial (negando as mudanças climáticas) acendem o sinal amarelo sobre até onde devemos ir com a crítica ao legado da Ciência Moderna.
Já há muito tempo que se renegam as contribuições do pai do “penso, logo existo”, René Descartes.
Obviamente, não podemos deixar de aplaudir o fato do modelo monólogico de gnose cartesiana, importado da matemática, ceder lugar a um modelo mais intersubjetivo. E, não se pode deixar de apontar o dedo para o autor do Discurso do Método como uma das principais referências na instituição do modus operandi caracterizado pelo distanciamento da produção de conhecimento com as demandas mais urgentes da sociedade, onde esse mesmo saber é cultivado.
Não é de tudo condenável o abandono da noção de verdade enquanto adequação de uma proposição a um fato, haja vista, que a formulação de tal juízo partia do princípio de que as proposições poderiam enunciar as conexões de causalidade inerentes ao fato investigado. Assim, abdica-se da ideia metafísica de causalidade, largando a noção de verdade que lhe era correspondente. As investigações no campo da História, Sociologia e nas Humanidades em geral ganharam um espírito renovado quando outras lógicas ordenam narrativas gestadas na academia e fora dela. Procedimentos alternativos ao chamado método cartesiano, o método da ciência moderna, abrem a possibilidade para distintos discursos e maneiras de se formular saberes que não apenas no estilo do portanto-portanto.
Todavia, é bom não esquecer que a modernidade cumpriu brilhantemente seu papel de coveiro do dogmatismo medieval e que dogmatismo é o que mais se vê hoje, em especial circulando nas redes digitais hightech.
Descartes rompe com a tradição especulativa escolástica sistematizando um método objetivo da análise do real. Desde o século XVI, a produção de conhecimento legitimado, vinha se constituindo enquanto um ajuizar pautado por uma regulação que visava torná-lo passível da verificação e aferição pelos pares: pela comunidade de sujeitos que, detentores de conhecimentos e saberes acumulados na área, pudessem atestar o grau de validade e pertinência do ajuizado. Por conseguinte, é pouco relevante, para a legitimidade cientifica do juízo proferido, a aceitação (ou não) pelo senso-comum, ou seja, por quem não detenha um conjunto de conhecimentos e saberes mínimos para fazer a crítica ao ajuizado e ao modo como, segundo o procedimento registrado (todo produção científica tem que expor seu método de pesquisa), o juízo (o conhecimento) foi produzido. Pois, o ajuizado aqui não é uma opinião, não é uma especulação fundada em apreciação exclusivamente subjetiva: tem que passar pela análise crítica da comunidade de pares. O que não é o caso das opiniões proferidas pelos tiozãos-do-YouTube…
A ciência moderna se constituiu enquanto uma forma de observação do real que procurava se distinguir das veleidades subjetivas do senso comum que, nos tempos de Descartes, tinha nos dogmas defendidos pela Igreja Católica alguns dos principais elementos do seu leque de referências.
Atualmente, a fé cristã tem outras institucionalizações e o dogmatismo conta com outros parceiros nem tão religiosos para a sua proliferação. Daí, é bom não descartar o questionar (o duvidar metódico), o analisar, o sintetizar e o verificar enquanto passos de um método que nos proteja da ascensão da opinião interessada (e interesseira) à condição de última verdade dos fatos.
Todos os textos de André Fersil estão AQUI.
Foto da Capa: Retrato de René Descartes, por Frans Hals

